Um profissional ou um pirata?—Uma visão antrozoológica

No mundo do treino animal deparamo-nos com a essência do homem primitivo na criação de grupos dentro da sua tribo.

O facto de não existir uma profissionalização da atividade a nível mundial, leva-nos a discussões longas, a maioria ideológicas ou moralísticas.

No âmbito antrozoológico, que também engloba a componente filosófica, raciocino bastante sobre esta questão, sem julgamentos ou pensamento dogmático. Eu utilizo o raciocínio crítico. A minha maior reflexão é do porquê desta atividade não ser profissionalizada visto que os animais não-humanos estão a viver sobre os nossos caprichos há milhares de anos e do porquê do pouco reconhecimento existente ainda estar preso às correntes das utilizações dos animais para fins sociais, económicos e políticos. O próprio desdém pela atividade e a forma como é menosprezada é alarmante, porque assim abre uma porta enorme a piratas.

Não é a minha função afirmar o que é certo ou errado, mas sim um dever escrever a forma como eu vejo esta situação através de um raciocínio dedutivo, deixando para vossa análise as várias diferenças do discurso argumentativo vs discurso retórico, entre opiniões e afirmações e entre factos e falácias.

Também não coloco em questão o gosto e dedicação de todos os grupos pelos animais não-humanos, o meu papel nunca será de juiz, afinal concordância e respeito pelas pessoas são dois conceitos diferentes e características individuais de cada indivíduo.

Eu sempre gosto de fazer as distinções destes termos para que sigamos todos a mesma linha de raciocínio, porque não é raro a utilização destes termos sem o conhecimento do verdadeiro significado:

  • Pensar é a atividade da mente que tenta fazer sentido dos acontecimento da vida, podemos pensar o que nos apetecer sem qualquer tipo de esforço, o que nos faz querer ou desejar algo.
  • Raciocinar é um processo que nos ajuda a aceitar ou rejeitar afirmações feitas por nós próprios ou pelos outros.
  • O pensamento dogmático caracteriza-se por uma aderência firme e cega a um certo conjunto de instruções.
  • O pensamento crítico reconhece e aprecia as diferenças contextuais e a sua complexidade, rejeitando conclusões prévias e aceitando conclusões mais adequadas.
  • Uma premissa é uma sentença declarativa que serve de base para um raciocínio, o que levará a uma conclusão.
  • Um argumento é um conjunto de várias premissas ou justificações que levam a uma conclusão. Este processo pode ser bom ou mau, mas nunca verdadeiro ou falso. Os argumentos podem ser explícitos (quando as premissas que levam à conclusão são todas declaradas) ou implícitos (quando as premissas que levam à conclusão são sub-entendidas). Estes últimos são muito utilizados a nível publicitário. Também podem ser classificados como válidos ou inválidos, fortes ou fracos, convincentes ou não.
  • Uma falácia é o erro na formulação de um argumento.
  • Uma opinião é a expressão de uma crença subjectiva ou uma tomada de posição sobre um determinado assunto, nem sempre assentada em premissas verdadeiras, e a maioria das vezes assentada em motivos emocionais ou pressões sociais.
  • A retórica é a arte de falar e convencer os outros sem ter em consideração a verdade das premissas.

A minha analogia ao “pirata” segue a sua definição de adjetivo de não ser original e/ou na definição informal de um indivíduo ardiloso.

Quando trabalhamos com seres vivos, devemos ter a ciência sempre como base de tudo e não o pensamento dogmático, retórica ou falácias de generalização e excepção.

É de extremo interesse refletir as batalhas grupais dentro das tribos modernas sobre este assunto e tentarmos com questões diretas chegar a várias respostas possíveis de implementação imediata.

De momento, classifico três tipos de grupos com os respectivos sub-grupos :

  • (1) Grupos que reconhecem a sua glória através de demonstrações de poder (trofeus, medalhas, diplomas) na sua maioria com animais previamente selecionados e treinados de forma contínua para o efeito, por vezes com a necessidade de uma rápida aprendizagem devido a condicionamentos temporais, divergindo a realidade da necessidade social. Estes grupos subdividem-se em (a) indivíduos que apenas se dedicam a atividades específicas que estão credenciados ou reconhecidos pelos devidos clubes desportivos ou possíveis entidades governamentais, em ambos os casos, e repito, somente para a atividade específica; (b) Em indivíduos que utilizam as demonstrações de poder para generalizar a atividade a outras áreas da atividade como se fosse tudo uma só verdade; (c) Em indivíduos que juntam os dois sub-grupos acima e os utilizam como forma de persuasão, intimidação ou simplesmente de rebaixamento do próximo; (d) E em indivíduos que utilizam a sua glória apenas para fins lúdicos e/ou pessoais.
  • (2) Grupos que reconhecem a sua glória através de formações, leituras, serviços sociais e atividades similares. Estes grupos subdividem-se em (a) indivíduos que necessitam de atualização permanente na sua área específica de atuação; (b) Em indivíduos que se regem bastante pela teoria e a prática está limitada a essa teoria, tendo como demonstração animais previamente selecionados e de preferência já com uma boa aprendizagem do que vai ser demonstrado; (c) Em indivíduos que através da sua experiência em determinada atividade que envolvam animais não-humanos começam a trabalhar com os mesmos sem prévio conhecimento científico mas por imitação teórica/prática; (d) Em indivíduos que equilibram a teoria com a prática, com os próprios limites auto-impostos da atividade específica, que procuram uma constante melhoria mesmo que iniciem-se noutras áreas da atividade; (e) E em indivíduos que, pela constante presença em eventos, workshops ou outras atividades teóricas, iniciam a sua atividade. Dentro deste último sub-grupo, subdividimos (e1) em indivíduos que sempre procuram atualização com o conhecimento dos seus limites e (e2) em indivíduos que criam pensamentos dogmáticos, não saindo da teoria. Dentro deste grupo também é commumente vermos demonstrações de poder ou os factores temporais da aprendizagem do grupo acima (principalmente em empresas) e algumas características do grupo seguinte.
  • (3) Grupos que reconhecem a sua glória pela experiência pessoal e/ou pseudo conhecimento através de leituras sociais sobre o assunto (pesquisa google e imitação básica de profissionais existentes). Estes grupos subdividem-se (a) em indivíduos que têm como exemplo apenas cães próprios e criam um conhecimento universal; (b) Em indivíduos que iniciam a atividade sem qualquer conhecimento científico e puramente com pensamento económico (estes utilizam a retórica e argumentos implícitos), criando verdades absolutas, a necessidade para as pessoas, garantias de resultados, o encobrimento do seu trabalho ou a prática devidamente selecionada, de preferência que possa trazer protagonismo ou criar empatia social, a maioria relacionada a projetos sociais. Este sub-grupo é adepto de ter várias decorações na vestimenta (patches, medalhas, etc…) como forma de persuasão ou credibilidade e tem interligações diretas com os grupos acima.

Existem também qualificações especificas que são deturpadas ou generalizadas que apenas são obtidas a nível universitário. Não seria muito diferente de um oftalmologista fazer trabalhos dentários porque a sua “área de atuação” é próxima uma da outra.

É uma questão de equilíbrio, nem muito tempo só com teoria nem muito tempo só com prática, é assim que se originam extremismos e incoerência em todos os grupos. Não é culpa nossa, é a nossa essência cultural e social. Mas podemos mudar.

Será que ao termos Profissionais e Piratas em todos os grupos, uma discussão dos pontos em comum entre os grupos será o ponto de partida para reflectir sobre as discordâncias e tentarmos todos remar para o mesmo lado: O “tal” do Bem-estar animal?

Agora cabe a si analisar e decidir: Um Profissional ou um Pirata?

Nota pessoal do autor:

Eu vejo tanta preocupação na mudança, mas um silêncio impera na altura de se falar.

A falta de reconhecimento e profissionalização da atividade conjugada pela ânsia por títulos e etiquetas para o que fazemos abre um nicho enorme para os piratas. De momento há especialistas e treinadores formados em seminários, onde a “ciência” que tanto falam é aprendida em slides, grupos sociais e artigos, de preferência com palavras bonitas. Títulos que somente a nível académico e com vários anos de estudo se conquistam (behaviourist e master incluído), são usados para cursos de poucas horas.

Aos apoiarmos os piratas também seremos um. Questiono onde está o tal do bem-estar animal que vende tanto?

Questionem todos os “profissionais” e peçam os seus certificados e diplomas. Sejam rigorosos. Tenham em mente que diplomas de áreas operacionais ou desportivas não dão necessariamente competências para terapias comportamentais e outro tipo de metodologia de ensino social; Seminários ou outros tipos de eventos não formam pessoas; Cursos somente teóricos ou conhecimento estritamente empírico não dão as competências necessárias às pessoas sobre a realidade.

Não vejo um futuro promissor para os animais não humanos se as pessoas não forem mais exigentes, proativas e saírem do “rebanho”, mas num mundo onde os fatores económicos, sociais e políticos são a prioridade, quem realmente se importa com eles?

Referências

ABRANTES, R. 2013. So you want to be a good dog trainer! Ethology Institute Cambridge.

BARATA, R. 2016. Scientific or Moralistic Training?. Etologia.pt.

DEMELLO, M. (2012). Animals and Society: An introduction to human-animal studies. Columbia University Press.

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GROSS, R. (2010). Psychology, the Science of Mind and Behaviour, Sixth Edition. Holder Education.

HENRICH, N. (2007). Why humans cooperate. New York: Oxford University Press.

JOYCE, R. (2006). The Evolution of Morality. MIT Press books.

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SCOTT, J. P. (1976). Violence and social Disaggregation. Aggressive Behavior, 1, 235-260.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

Autor: Roberto Barata

Ethology Institute Tutor and administration staff member; Instructor and Researcher in Applied Mentoring and Anthrozoology in Animal Behavior and Training field.