Recompensa ou Reforço? vs Punição ou Inibição?

É comum nos dias de hoje ouvirmos diferentes termos no treino animal, principalmente no treino canino, que têm (supostamente) na prática a mesma aplicabilidade.

Ao longo destes anos percebi que muitos termos são utilizados devido a um próprio condicionamento social no uso de determinados termos por soarem melhor nos ouvidos. Vários profissionais utilizam e ensinam esses termos às futuras gerações em nome da própria ciência.

Algo que me identificou bastante com o Ethology Institute foi o gosto por dicionários e de seguirmos padrões científicos precisos quando falamos de algo, afinal todos nós aplicamos a ciência na prática e antes de fazermos necessitamos de saber do que estamos a falar.

Considero importante os profissionais primeiramente saberem as definições dos termos que utilizam e depois decidirem por sua consciência se consideram apropriado utilizá-los mesmo não seguindo o padrão científico. Cada um é livre de escolher que tipo de profissional quer ser e que tipo de profissionais quer formar.

Palavras como “reforço ” e “punição”, sempre são faladas já com determinadas conotações, algo desfasado da ciência como já escrevi neste artigo.

Precisamos assim refletir sobre determinados termos e decidir por nós próprios se queremos seguir termos científicos ou termos socialmente aceites.

Um dos mais comuns é a palavra “Recompensa”.

Uma recompensa é uma retribuição, compensação por ação meritória; ato ou efeito de recompensar; Prémio; Galardão.

Um reforço/reforçamento é um processo onde certa resposta torna-se fortalecida como resultado de uma aprendizagem.
Ou
É tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento em particular quando apresentado—Reforço positivo (+)—ou removido—Reforço negativo(-)—em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento ser apresentado.

Ocasionalmente, o uso da palavra “recompensa” e a fraca explicação do que a palavra significa por parte de quem a usa induz em erro muitas famílias com animais de estimação, e não muito raro transmite a informação que estamos a “subornar”, criando etiquetas sociais ao trabalho das pessoas e descredibilizando um grupo inteiro caso algo não funcione.

O próprio Skinner em 1987 contestou o uso desse termo ao escrever que “O efeito de fortalecimento é perdido quando os reforços são chamados recompensas (…) As pessoas são recompensadas, mas o comportamento é reforçado.”

O mesmo se passa com “Punição” ou “Castigo”

Essas palavras traduzidas diretamente do Inglês tem conotações muito negativas e em muitos países até religiosa.

Também é comum esta palavra ser automaticamente conotada como algo mau.

Uma punição é um acto ou efeito de punir; Uma pena; Um castigo imposto a alguém.

Um inibidor é algo que produz uma inibição; que ou o que possui a a capacidade de diminuir ou suprimir a atividade de uma substância orgânica.

Assim,resultando de toda a sua experiência linguística ao longo destes anos pelo mundo, o Dr. Roger Abrantes começou a utilizar a palavra inibidor no conceito operante por cientificamente melhor se adequar à definição.

Desta forma, um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento em particular quando apresentado—Inibidor positivo (+)—ou removido—Inibidor negativo(-)—em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento ser apresentado.

Todas as conotações dadas a termos de forma a serem socialmente aceites em nada ajudam na transmissão do conhecimento tanto para famílias com animais de estimação como para futuros profissionais que apreendem diretamente estes termos e os colocam em negação quanto ao uso prático destes termos, nem no respeito que a própria ciência merece. A ciência não é boa nem má, a ciência é o que é.

Eu defendo a clarificação e o real conhecimento científico de determinados termos, os extremismos e condicionamentos da própria sociedade não ajudarão os profissionais existentes nem os futuros a terem um pensamento crítico no que fazem, algo que considero fulcral quando estamos a lidar com outros seres vivos e os devemos respeitar como tal.

Sem julgamentos, deixo para nossa reflexão e decisão:
– Cientificamente, estamos a recompensar/punir o cão ou a reforçar/inibir o seu comportamento?
– Seremos realmente precisos connosco quando estamos a trabalhar com outra espécie ao ponto de termos a noção de que aplicar um reforço/inibidor standard nem sempre funciona?
– Será correto colocarmos etiquetas no nosso trabalho como forma de marketing ou correntes sociais, quando na verdade cientificamente ao aplicamos reforços ou inibidores nas interações interespecíficas não significa estarmos a ser “bons” ou “maus”?
– Será mais correto utilizar palavras fáceis socialmente saturadas ou explicar de forma simples a definição científica e os termos corretamente?

Esteja sempre na dúvida do que lê e ouve, procure sempre mais e pense sempre por si. Carpe Diem!

Referências

ABRANTES, R. 2011. Unveiling the Myth of Reinforcers and Punishers.

ABRANTES, R. 2013. So you want to be a good dog trainer!

ABRANTES, R. (2013). The 20 Principles All Animal Trainers Must Know. Wakan Tanka Publishers.

BARATA, R. (2017). Scientific or Moralistic Training? Etologia.pt

GADBOIS, S. (2015). 51 Shades of Grey: Misuse, Misunderstanding and Misinformation of the Concepts of “Dominance” and “Punishment”.

GROSS, R. (2010). Psychology, the Science of Mind and Behaviour, Sixth Edition. Holder Education.

JOYCE, R. (2006). The Evolution of Morality. MIT Press books.

MCFARLAND, D. (2006). A Dictionary of Animal Behaviour. Oxford University Press.

MORRIS, D. (1969). The Human Zoo. Kodansha America, Inc.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic

Um profissional ou um pirata?—Uma visão antrozoológica

Este texto está compactado em artigo e está de forma completa no livro “Uma nova visão sobre o treino animal”.

No mundo do treino animal deparamo-nos com a essência do homem primitivo na criação de grupos dentro da sua tribo.

O facto de não existir uma profissionalização da atividade a nível mundial, leva-nos a discussões longas, a maioria ideológicas ou moralísticas.

No âmbito antrozoológico, que também engloba a componente filosófica, raciocino bastante sobre esta questão, sem julgamentos ou pensamento dogmático, utilizo o pensamento crítico. A minha maior reflexão é do porquê desta atividade não ser profissionalizada visto que os animais não-humanos estão a viver sobre os nossos caprichos há milhares de anos e do porquê do pouco reconhecimento existente ainda estar preso às correntes das utilizações dos animais para fins de interesse governamental.

Não é a minha função afirmar o que é certo ou errado, mas sim um dever escrever a forma como eu vejo esta situação através de um raciocínio dedutivo, deixando para vossa análise as várias diferenças do discurso argumentativo vs discurso retórico, entre opiniões e afirmações e entre factos e falácias.

Também não coloco em questão o gosto e dedicação de todos os grupos pelos animais não-humanos, o meu papel nunca será de juiz, afinal concordância e respeito pelas pessoas são dois conceitos diferentes e características individuais de cada indivíduo.

Eu sempre gosto de fazer as distinções destes termos para que sigamos todos a mesma linha de raciocínio, porque não é raro a utilização destes termos sem o conhecimento do verdadeiro significado.

Pensar é a atividade da mente que tenta fazer sentido dos acontecimento da vida, podemos pensar o que nos apetecer sem qualquer tipo de esforço, o que nos faz querer ou desejar algo.

Raciocinar é um processo que nos ajuda a aceitar ou rejeitar afirmações feitas por nós próprios ou pelos outros.

O pensamento dogmático caracteriza-se por uma aderência firme e cega a um certo conjunto de instruções.

O pensamento crítico reconhece e aprecia as diferenças contextuais e a sua complexidade, rejeitando conclusões prévias e aceitando conclusões mais adequadas.

Uma premissa é uma sentença declarativa que serve de base para um raciocínio, o que levará a uma conclusão.

Um argumento é um conjunto de várias premissas ou justificações que levam a uma conclusão. Este processo pode ser bom ou mau, mas nunca verdadeiro ou falso. Os argumentos podem ser explícitos (quando as premissas que levam à conclusão são todas declaradas) ou implícitos (quando as premissas que levam à conclusão são sub-entendidas). Estes últimos são muito utilizados a nível publicitário. Também podem ser classificados como válidos ou inválidos, fortes ou fracos, convincentes ou não.

Uma falácia é o erro na formulação de um argumento.

Uma opinião é a expressão de uma crença subjectiva ou uma tomada de posição sobre um determinado assunto, nem sempre assentada em premissas verdadeiras, e a maioria das vezes assentada em motivos emocionais ou pressões sociais.

A retórica é a arte de falar e convencer os outros sem ter em consideração a verdade das premissas.

A minha analogia com o “pirata” segue na sua definição de adjetivo de não ser original e/ou na definição informal de um indivíduo ardiloso. Tanto profissionais como piratas existem nos grupos abaixo como irão confirmar.

Quando trabalhamos com seres vivos, devemos ter a ciência sempre como base de tudo e não o pensamento dogmático, retórica ou falácias de generalização e excepção.

É de extremo interesse refletir as batalhas grupais dentro das tribos modernas sobre este assunto e tentarmos com questões diretas chegar a várias respostas possíveis de implementação imediata.

De momento, classifico três tipos de grupos com os respectivos sub-grupos :

– Grupos que reconhecem a sua glória através de demonstrações de poder (troféus, medalhas, diplomas) na sua maioria com animais previamente selecionados e treinados de forma contínua para o efeito, por vezes com a necessidade de uma rápida aprendizagem devido a condicionamentos temporais, divergindo a realidade da necessidade social. Estes grupos subdividem-se em indivíduos que apenas se dedicam à atividade específica que estão credenciados ou reconhecidos pelos devidos clubes desportivos ou possíveis entidades governamentais, em ambos os casos, e repito, somente para a atividade específica; Em indivíduos que utilizam as demonstrações de poder para generalizar a atividade a outras áreas da atividade como se fosse tudo uma só verdade; Em indivíduos que juntam os dois sub-grupos acima e os utilizam como forma de persuasão, intimidação ou simplesmente de rebaixamento do próximo; E em indivíduos que utilizam a sua glória apenas para fins lúdicos e/ou pessoais.

– Grupos que reconhecem a sua glória através de formações, leituras, serviços sociais e atividades similares. Estes grupos subdividem-se em indivíduos que necessitam de atualização permanente na sua área específica de atuação; Em indivíduos que se regem bastante pela teoria e a prática está limitada a essa teoria, tendo como demonstração animais previamente selecionados e de preferência já com uma boa aprendizagem do que vai ser demonstrado; Em indivíduos que através da sua experiência em determinada atividade que envolvam animais não-humanos começam a trabalhar com os mesmos sem prévio conhecimento científico mas por imitação teórica/prática; Em indivíduos que equilibram a teoria com a prática, com os próprios limites auto-impostos da atividade específica, que procuram uma constante melhoria mesmo que iniciem-se noutras áreas da atividade; E em indivíduos que, pela constante presença em eventos, workshops ou outras atividades teóricas, iniciam a sua atividade. Dentro deste último sub-grupo, subdividimos em indivíduos que sempre procuram atualização com o conhecimento dos seus limites e em indivíduos que criam pensamentos dogmáticos, não saindo da teoria. Dentro deste grupo também é commumente vermos demonstrações de poder ou os factores temporais da aprendizagem do grupo acima (principalmente em empresas) e algumas características do grupo seguinte.

– Grupos que reconhecem a sua glória pela experiência pessoal e/ou pseudo conhecimento através de leituras sociais sobre o assunto (pesquisa google e imitação básica de profissionais existentes). Estes grupos subdividem-se em indivíduos que têm como exemplo apenas cães próprios e criam um conhecimento universal ; Em indivíduos que iniciam a atividade sem qualquer conhecimento científico e puramente com pensamento económico (estes utilizam a retórica e argumentos implícitos), criando verdades absolutas, a necessidade para as pessoas, garantias de resultados, o encobrimento do seu trabalho ou a prática devidamente selecionada, de preferência que possa trazer protagonismo ou criar empatia social, a maioria relacionada a projetos sociais. Este sub-grupo é adepto de ter várias decorações na vestimenta (patches, medalhas, etc…) como forma de persuasão ou credibilidade e tem interligações diretas com os grupos acima.

Tenho um artigo sobre o treino científico ou moralístico que recomendo fortemente a leitura para uma melhor abrangência de todos os conceitos presentes. Clique aqui para aceder ao artigo.

Existem também qualificações especificas que são deturpadas ou generalizadas que apenas são obtidas a nível universitário. Não seria muito diferente de um oftalmologista fazer trabalhos dentários porque a sua “área de atuação” é próxima uma da outra.

O moral e ética deve estar acima de tudo em raciocinarmos sobre os nossos limites.

É uma questão de equilíbrio, nem muito tempo só com teoria nem muito tempo só com prática, é assim que se originam extremismos e incoerência em todos os grupos. Não é culpa nossa, é a nossa essência cultural e social. Mas podemos mudar.

Será que ao termos Profissionais e Piratas em todos os grupos, uma discussão dos pontos em comum entre os grupos será o ponto de partida para reflectir sobre as discordâncias e tentarmos todos remar para o mesmo lado: O “tal” do Bem-estar animal?

Agora cabe a si analisar e decidir: Um Profissional ou um Pirata?

REFERÊNCIAS

ABRANTES, R. 2013. So you want to be a good dog trainer! Ethology Institute Cambridge.

BARATA, R. 2017. Scientific or Moralistic Training?. Etologia.pt.

DEMELLO, M. (2012). Animals and Society: An introduction to human-animal studies. Columbia University Press.

GREENE, J. (2013). Moral Tribes: Emotion, Reason, and the Gap Between Us and Them. New York: Penguin books.

GROSS, R. (2010). Psychology, the Science of Mind and Behaviour, Sixth Edition. Holder Education.

HENRICH, N. (2007). Why humans cooperate. New York: Oxford University Press.

JOYCE, R. (2006). The Evolution of Morality. MIT Press books.

MORRIS, D. (1967). The Naked Ape: A Zoologist’s Study of the Human Animal. Delta(1999).

MORRIS, D. (1969). The Human Zoo. Kodansha America, Inc.

MORRIS, D. (2002). PeopleWatching. Vintage Books.

SCOTT, J. P. (1976). Violence and social Disaggregation. Aggressive Behavior, 1, 235-260.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

“Ficar ou não Ficar”- Eis a questão

Nas comunicações interespecificas devemos ter sempre em atenção o facto de não termos a mesma linguagem. Como tal, é necessário comunicarmos de forma clara e precisa.

No ensino canino, temos variados checklist padrão que todos os cães têm de cumprir e que assim nos vai permitir ter um cão “obediente”. Durante alguns anos utilizei-os até ao momento que comecei a questionar todos os sinais que eu transmitia a outras espécies e senti a necessidade de os adaptar de forma individual, respeitando os progressos e os próprios limites do indivíduo.

Antes de continuar, quero reafirmar que não me cabe a mim avaliar ou julgar os métodos de trabalho dos outros profissionais. Todos temos a liberdade de utilizar os métodos que melhor se assemelham às nossas características e personalidade e não será isso que nos faz melhores ou piores do que os outros, apenas diferentes. Respeitar não significa concordar.

Quando levamos alguma atividade profissional de forma séria, necessitamos de constantes atualizações tanto na teoria como principalmente na prática, não fazendo de tudo uma verdade absoluta e ter a vontade de mudar quando necessário.

Quando estamos a comunicar com outras espécies e a ensinar à nossa como comunicar, necessitamos de ser o mais claro e precisos possíveis, explicando o porquê de cada passo que damos no ensino. E tudo começa nos termos e sinais que utilizamos.

No começo, necessitamos definir cientificamente alguns termos que vou abordar neste artigo e reter alguns pontos:

– Sinal: Um sinal é tudo o que intencionalmente causa a alteração do comportamento do receptor.

– Todos os sinais têm um significado e uma forma de serem dados.

– Nós classificamos os sinais numa escala de Bom para Mau, dependendo da sua eficiência, clareza, intensidade, forma e compreensão inequívoca do recetor, independentemente do ambiente.

– Um sinal vai originar um comportamento, logo:
Um sinal => Um comportamento.

– Todo o comportamento tem uma consequência, logo:
Um sinal => Um comportamento => Uma consequência

– As consequências vão definir a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento. Para tal, são utilizados reforços e inibidores.

– Reforço: Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

– Inibidor: Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

– Todo e qualquer sinal que será transmitido a outra espécie, necessita de estar devidamente discriminado e explicado no devido plano de acção, assim como os princípios de conhecimento científico que cada profissional deve ter.

No Ethology Institute Cambridge, utilizamos a linguagem científica precisa denominada SMAF (Signals, Meaning And Form), criada pelo Dr. Roger Abrantes. Embora num nível mais profissional, possa parecer complexa, esta linguagem preza pela simplicidade e, acima de tudo, pela precisão no treino animal.

A seguir, vou exemplificar os sinais mais comuns que utilizamos no treino canino e o seu significado e forma.

Para simplificar, vou escrever uma única linha com:
Técnica a ensinar => O significado do sinal => A forma do sinal

– Nome(Técnica) => Olha para mim(Significado) => Nome,som(Forma)

– Senta(Técnica) => Coloca o traseiro no chão
 E mantêm-o lá até receberes
 outro sinal(Significado) => Senta,som + Senta,mão(Forma)

– Deita(Técnica) => Coloca a barriga no chão
 E mantêm-a lá até receberes
 outro sinal(Significado) => Deita,som + Deita,mão(Forma)

– Sim(Técnica) => Continua(Significado) => Sim,som(Forma)

– Não(Skill) => Pára(Significado) => Não,som(Forma)

Nos vídeos a seguir, demonstro todas as técnicas acima descritas.


Aqui podem ser vistos mais vídeos com as próprias famílias a trabalharem com os seus cães e a aplicarem vários sinais.

Seguindo a programação do ensino, com os ajustes necessários ao progresso e ao limite de cada cão, é possível aumentar a intensidade, frequência, duração de um determinado comportamento, tanto em distância como no aumento dos estímulos presentes.

Com esta precisão e clareza na definição dos sinais, não necessitamos de sinais adicionais e por vezes redundantes para o mesmo comportamento. A própria repetição do sinal durante a técnica pode criar antecipações de vários tipos, se notarmos que o próprio tom que utilizamos vai variando.

Reparo nisso diariamente no contato com as famílias e seus cães. O nervosismo e incerteza as quais elas se agarram nesses sinais como própria segurança. E quando as questiono sobre o significado do que estão a pedir ao cão, não sabem explicar. Questione sempre o significado de tudo.

Se a repetição sistemática do sinal durante a técnica for simplesmente substituída pelo reforço semi-condicionado utilizado no treino (ex: Muito bem), temos uma melhor eficiência no ensino das técnicas. Tudo isto naturalmente misturado com o próprio progresso no ensino e as alternativas a aplicar caso a forma programada não resulte.

Deixo a saudável reflexão deste artigo para que no futuro possam (ou não) desafiar a vossa simplicidade, precisão e pensamento crítico na prática.

REFERÊNCIAS
ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka

Abrantes, Roger. 2011. Unveiling the Myth of Reinforcers and Punishers.

Abrantes, R. 2013. So you want to be a good dog trainer!

Abrantes, R. 2011. Commands or Signals, Corrections or Punishers, Praise or Reinforcers.

BARATA, R. (2016). Signals precision in animal Training.

CHANCE, P. (2008) Learning and Behavior. Wadsworth-Thomson Learning, Belmont, CA, 6th, ed.

DARWIN, C. (1899). The Expressions of the Emotions in Man and Animals. New York D. Appleton and Company.

EKMAN, P. (1976). Nonverbal Communiction: Movements with Precise Meanings. Journal of Communication, 26(3),14-26.

HOROWITZ, Alexandra. (2014). Domestic Dog, cognition and Behavior—The Scientific Study of Canis familiaris. Springer.

LORENZ, Konrad. (1981). The foundations of ethology.
Based on a translation of Vergleichende Verhaltensforschung, with revisions. Springer Science+Business Media New York.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic

Cursos de certificação para detentores de cães

Na Dinamarca, eu e Tilde Detz Jensen, GAT-EIC, do etologi.dk, ministramos todos os fins de semana os Cursos de certificação Básica ou avançada para detentores de cães—do ethology.eu—do Dr. Roger Abrantes. Este é o curso que todas as famílias com cães obtêm no instituto, um modelo inovador de ensino teórico-prático, permitindo o acompanhamento contínuo e atualizado de todos os detentores de cães.

O curso dá todos os fundamentos que as famílias precisam para criar e desfrutar de um bom relacionamento com os seus cães na sociedade, independentemente da idade e raça.

As nossas técnicas não envolvem o uso da violência, mas sim o conhecimento científico atualizado e a sincronia natural humano-animal, com a diferenciação do ensino individual de cada cão e detentor, adaptando o programa do curso sempre que necessário. O nosso objetivo é criar o entendimento mútuo, respeito e o vínculo perfeito entre o cão e a sua família.

Este curso destina-se a cães sem formação prévia ou com um ensino muito básico. Cães e detentores com formação prévia a maioria das vezes escolhem os nossos cursos profissionais ou serviço de coaching individual.

Implementamos também uma componente teórica, onde os detentores têm acesso a um curso on-line e um manual (Animal Training, My Way, de Roger Abrantes) com todos os conhecimentos necessários sobre comportamento e comunicação canina e as técnicas mais relevantes aprendidas na parte prática: Uso correto da coleira, Senta, Deita, Chamada, Não saltar às pessoas, aceitar a separação, socialização em vários ambientes reais com estímulos e atividades variadas, estimulação cognitiva e técnicas de resolução de problemas.

Este novo curso actualizado é o resultado de uma experiência total de 70 anos entre os envolvidos no programa, já com sucesso na Dinamarca e brevemente nos EUA, Espanha, Itália, Suíça, França e Austrália, pelos Provedores regionais aprovados (AREP’s) pelo Instituto de Etologia de Cambridge.

Saiba mais sobre os cães na Dinamarca.

Potencialmente perigosos ou potencialmente em perigo?

Não sou politicamente correto. Não o devemos ser quando falamos de seres vivos.

Devido ao meu trabalho diário com várias espécies e famílias com animais de estimação, diariamente questiono-me e reflicto sobre a interação humano-animal e procuro incessantemente um equilíbrio social para que ambas as espécies vivam em harmonia.

Desta forma, e devido ao constante mediatismo sobre algumas raças, cabe-me livremente escrever alguns factos, comentar as situações recentes e questionar outras, deixando claro que é um artigo baseado em estudos atuais, factos científicos (Ver todas as Referências no final do artigo) e pela experiência prática de resultados eficazes que diariamente comprovo e questiono como forma de auto-imposição de atualização regular na área.

A quem não concordar, peço apenas que apresente argumentos que tenham uma validade factual na comunidade científica como eu vou colocar e disponibilizar no final da página e convido à leitura. Caso contrario, são meras opiniões pessoais embelezadas socialmente ou por simples frustrações e sem validade factual, as quais dispenso solenemente. Os cães merecem mais do que simples demonstrações de poder do homem primitivo.

A ciência não tem bom nem mau ou é uma verdade absoluta, a ciência é o que é e diariamente é questionada e estudada, cabe às pessoas seguirem ou não os estudos recentes na área.

Segundo o U.S. Department of Health & Human Services, nos Estados Unidos, aproximadamente 4,5 milhões de mordidas de cães ocorrem a cada ano, num universo estimado de 78 milhões de cães (2016). 41 dessas mordidas resultaram em morte (0.00000053%), sendo 18 em adultos acima dos 30 anos, 13 em crianças com 9 anos ou menos e 10 em recém-nascidos entre os 3 e os 6 dias.
FONTE: http://www.dogsbite.org/dog-bite-statistics-bibliographies-government-studies.php

Em todas as sociedades existem o estereótipo de algumas raças como “más” e “perigosas”. O próprio poder legislativo dissemina essa tendência ao criar legislação própria para determinadas raças de cães e colocá-las em especial condição de treino. Estamos assim a condenar grupos e não indivíduos. Querem tratar dos sintomas sem tratar do verdadeiro problema: Falta de conhecimento social e a limitação profissional de escolha imposta pela falta de regulamentação da própria legislação.

O processo de domesticação do cão (Canis lupus familiaris ou—agora commumente chamado no meio científico de— Canis familiaris ) estima-se que começou entre os 15.000 e os 30.000 anos atrás. Desde então, a seleção natural do cão foi gradualmente sendo desrespeitada. A seleção artificial por via dos humanos começou a imperar para que a espécie fosse “ajustada” à necessidade humana. A própria deterioração social intra-espécie em grupo começou a deteriorar-se, como demonstram estudos efetuados em 1991, 2004 e 2007 que comparou os índices de interações agonísticas num grupo de lobos (Canis lupus) e em vários grupos de cães, agrupados por raças (Feddersen-Petersen, ler nas referências). Esta espécie teve uma linha de tempo de adaptação natural muito curta num contexto evolucionário, em menos de 10 anos, os cães começaram a ser confinados em apartamentos ou espaços fechados, aumentando exponencialmente os problemas comportamentais.

Os próprios processos de imprinting e desenvolvimento da espécie estão a ser manipulados consoante as estratégias de marketing ou tendências sociais, sempre em prol do “Bem-estar animal”, dizem. E isto é somente a ponta do icebergue.

Os conceitos humanísticos e moralisticos em criar uma “cidadania” para os animais domésticos está a criar um paradigma na forma da ação política. Por um lado, temos uma legislação somente teórica que segue princípios de proteção meramente humanitários sem ter em conta as necessidades naturais individuais da espécie. Por outro, apenas nos são dadas obrigações sem qualquer tipo de formação ou informação. E ainda dentro dessa legislação, temos uma discriminação de raças (grupo), com regras e deveres específicos que devem ser seguidos. Mesmo as entidades fiscalizadoras tiveram uma formação bastante limitada, onde a maioria das vezes desconhece a própria lei e não sabe distinguir ou assinalar as raças em questão.

Entramos assim num círculo político perigoso, onde a lei protege totalmente uma espécie, mas por outro lado condena previamente vários grupos da mesma.

De momento, Portugal é um desses exemplos. Com sete raças consideradas “potencialmente perigosas”.

A lei portuguesa considera potencialmente perigoso qualquer animal que, devido às características da espécie, comportamento agressivo, tamanho ou potência de mandíbula, possa causar lesão ou morte a pessoas ou outros animais.

A própria definição por si só num contexto científico não tem qualquer fundamento ou argumento para que apenas determinadas raças estejam incluídas. Temos apenas uma definição vaga, feita de propósito para irem incluindo raças conforme considerem necessário. E vamos por partes:

– “Características da espécie”. A nível de taxonomia, Canis lupus familiaris é uma sub-espécie do Canis lupus que abrange todas as raças de cães conhecidas e não um grupo específico ou restrito de raças. De momento, novas correntes utilizam apenas Canis familiaris, pelo facto das novas e atuais raças serem na sua maioria fruto da seleção artificial.

– “Comportamento agressivo, tamanho ou potência da mandíbula”. Compreende-se assim que a legislação afirma que só estas sete raças apresentam comportamento agressivo. Além de não ter o mínimo de pesquisa, o legislador apresenta um total desconhecimento do que escreve. E assim o comprovo através de artigos de cientistas de renome mundial. Recomendo a leitura:  O que é agressividade e comportamento agressivo; Herança e ambiente. E já que queremos fazer a discriminação por raças, mais um estudo que demonstra o nível de agressividade entre raças. E se queremos ainda mais precisão, um estudo sobre a influência da dimensão craniana com a pressão mandibular e um estudo atual sobre o mapa genético do medo e agressividade dos cães.

Um estudo comparativo recente sobre incidentes com raças legisladas como “perigosas” e raças não legisladas demonstra que não existe razão para tais legislações existirem.

Sendo assim, e perante todos estes factos, cabe-me fazer algumas questões sobre estas situações. Será de todo importante questionarmos a quem de direito e lançarmos esta discussão em praça pública se realmente queremos mudar algo. Quem permanece no silêncio ou isenção, compactua de forma criminosa com estas situações, por mais que possa dizer o contrário.

Com a política de proteção animal atual, é inadmissível que haja esta classificação de um grupo específico de raças e suas variantes. É dada a entidades específicas uma total liberdade para ministrar esta formação sem existirem consultorias externas e/ou  internacionais sobre formação de detentores em ambiente social.

Vai abrir-se um precedente muito perigoso em Portugal que deve ser já parado antes de ter consequências desastrosas.

Os temas apresentados e a duração das formações são  um atentado ao bem-estar animal e política atual de proteção animal e à própria ciência caso seja seguida uma linha de treino que em nada é realista com as necessidades individuais, com a sociedade ou com o ensino social atual praticado pelo mundo inteiro com fundamentos e bases científicas atualizadas.

As questões urgentes que se deve colocar a quem irá efetuar determinadas certificações no âmbito da sociedade civil perante a legislação atual são:

– Qual a formação dos instrutores destes cursos além de metodologias e conhecimentos além das suas áreas de atuação? Como podem os mesmos demonstrarem estarem aptos para tal certificação?

– As formações e certificações dadas vão ser baseadas aos treinos operacionais das mesmas?

– Quantos cães destas raças estão ao serviço dessas entidades para que sejam somente eles a ministrar essa formação?

– Qual o critério de formação numa sociedade civil para os candidatos a treinadores terem de efetuar provas de mordedura com fato com um cão previamente selecionado?

– Depois desta certificação de uma hora teórica aos treinadores, estarão eles aptos para fazer treinos e modificação comportamental, assim como terapias comportamentais a cães que apresentem determinados comportamentos indesejáveis?

– Caso nem haja formação mas somente testes teóricos e práticos de um dia (o que realmente prevejo acontecer como forma de “acelerar” o processo), como se selecionarão os candidatos tendo em vista que a atividade profissional não é regulamentada no País?

– Como justificam proibir os candidatos de usarem determinados materiais se os utilizam diariamente na vossa rotina? E quais os critérios científicos que os utilizam tendo como base os estudos mais recentes sobre as consequências a médio longo prazo desses materiais nos cães?

– Segundo a lei, um cão perigoso é todo o cão que já tenha mordido ou ferido alguém, ou atestado como perigoso pelo veterinário. Sendo assim, em apenas uma hora serão abordados tantos assuntos que permitem a habilitação de um treinador para tal?

– Os detentores vão ter uma formação de quatro horas, que critérios foram utilizados para que essa duração seja suficiente? Que prova teórica ou prática é feita?

– Os detentores terão uma abordagem à mordedura? Não deveria essa sensibilização ser efectuada e disponibilizada a nível nacional como prevenção em todas as raças?

– Porquê um treinador necessita de ter provas de figurância? Quais os critérios desta formação no âmbito civil?

– Seguindo a filosofia da questão acima, pode-se premeditar que a formação vai basear-se somente na apresentação de um cão próprio ou da própria entidade e com regras de modalidades desportivas? Onde isso se enquadra no real contexto social?

– Que critérios científicos fundamentam a teoria e prática destas formações? Quais as instituições procuradas e que pessoas delinearam as mesmas?

– Quais os critérios para que os limites de trela para as raças potencialmente perigosas estejam limitadas a um metro, e por sequência, qual a definição de um passeio tendo em conta as necessidades naturais da espécie e a promoção da socialização?

– Qual o critério cientifico para que o treino seja efetuado somente a partir dos 6 meses de idade, tendo em conta que o período de socialização é muito anterior a essa data?

Estas perguntas são precisas e de resposta direta. Perguntas que muitos não fazem por medo de represálias. Pessoalmente não serei hipócrita em não concordar mas depois ir fazer essas certificações que estão contra o conhecimento da natureza da espécie, da actualidade científica e dos meus princípios. Não estaremos a ajudar na luta pela mudança a compactuar com esta situação , estamos antes a confirmar que o modelo antigo que tanto se critica está correto.

Esta lei é um “lavar de mãos” que, devido à urgência de se apresentar algum resultado, vai se basear nas próprias limitações nacionais em relação a este assunto. E olhando para um futuro não muito longínquo, a consequência de todas as exigências e limitações levará à própria extinção dessas raças no território nacional, certamente o objetivo final camuflado de forma sútil como este processo tem sido levado e calado por tantos “defensores”. Estes argumentos anteriores como base tantos condicionantes na interação dessas “raças” com a própria espécie e com o agravante da ignorância social ao verificar um cão de açaime e/ou com um laço amarelo na trela (aconselho pesquisa. Até lá, factores económicos estarão acima do “tal do bem-estar animal” e certamente muitos lobbies internos nos treinos dessas raças em escolas civis mesmo sem ordem superior irão acontecer. Basta uma simples pesquisa google e verão que muitos membros de forças policiais e militares já estão a fazer treinos civis sem autorização superior, muito menos regulamentada sob a cobertura de clubes desportivos ou “regimes de voluntariado” em escolas/empresas.

É importante termos em atenção que a agressividade não é uma característica da raça mas sim um comportamento apresentado com uma função específica, numa situação específica. Importante também é ressaltar que a escolha destas raças são meramente sociais e não científicas, caso contrário, em todo o mundo as raças “potencialmente perigosas” seriam as mesmas e não divergiam de País para País conforme se constata numa rápida pesquisa na internet. Mais uma razão de que o problema está na educação e conscientização social.

A solução?
Recomendo uma revisão urgente desta legislação e implementar um curso nacional para todos os detentores de cães, independente da raça, com matérias adaptadas à realidade social e científica, com a formação profissional de treinadores em instituições científicas internacionais aliadas a escolas que sigam metodologias e conhecimentos atualizados com uma taxa reduzida e benefícios sociais para os detentores e os seus cães. A formação/reconhecimento profissional e legislação deve ser alargada a todas as áreas de serviços pet, inclusive pet-sitting, dog walking e todas as variantes.

As matérias teóricas não devem ser menos do que 8 horas de formação sobre legislação, comportamento e linguagem canina, conhecimentos básicos de primeiros-socorros e a interação com os cães. A componente prática não menos de 10 horas em vários ambientes interno/externo com metodologias atualizadas de ensino canino e adequar o programa à necessidade de cada cão, porque a experiência diz-me que não são técnicas padronizadas para todos os cães que vão prevenir problemas, e a ciência demonstra as consequências de várias metodologias generalizadas aplicadas no treino. Baseado nestes estudos, será necessária a própria proibição e criminalização do uso de determinados métodos e materiais de treino, conforme a nova lei de proteção animal em Madrid e as normas em alguns países europeus, dentre eles a Dinamarca. Algo contudo que já deveria acontecer segundo o Decreto de lei 13/93, Capítulo II, artigo 7.

É necessário também um curso personalizado para todos os detentores com cães a partir dos 2 meses (e não 6 meses), iniciativas sociais de informação e uma legislação que realmente funcione na prática, criando um excelente início na mudança da mentalidade social. Estereotipar determinadas raças é um crime à ciência e às sociedades que, mesmo com determinadas raças proclamadas (potencialmente) perigosas, seguem políticas de educação social nesse sentido. Socialização dos cães aos mais diferentes estímulos da sociedade logo a partir das 8, 9 semanas e a educação das famílias é a urgência.

Todas as formações que faço aos detentores de cães na Dinamarca e tenho total conhecimento noutros países da Escandinávia, têm uma eficácia elevada no âmbito de ensino social e sem a necessidade do uso de determinados materiais que causam dor e medo aos cães mesmo num contexto desportivo ou operacional. Aliás, a grande maioria desses materiais é PROIBIDA nesses países. Faço sempre questão de publicar fotos e vídeos a demonstrar. E sim, na Dinamarca e em vários países também há determinadas raças que são discriminadas. 

Transmitir o conhecimento real e adaptar as necessidades de treino ao indivíduo é a chave para a mudança e criar uma consciencialização social sem “achismos”. Não tenhamos medo de perguntar, caso contrário, sintam vergonha sempre que possam comentar estes assuntos publicamente.

Não cabe a mim dizer o que é certo ou errado, simplesmente as sociedades necessitam de fugir dos eufemismos e camuflagem da realidade e decidirem de forma clara e concisa o que realmente querem, longe dos espectáculos políticos. Andamos de momento a tentar agradar o mais possível e a pensar o menos necessário.

Não quero dizer com o texto acima que ao implementar-se o conjunto de soluções nunca mais haverão mordidas. Mordidas sempre haverão. Mas, ao pensarmos seriamente no assunto sem influência externa, chegamos à conclusão que estes assuntos somente são noticiados debatidos por alguns dias (antes de caírem novamente no esquecimento) quando são determinadas raças. E quando não há confusão entre raças, porque as próprias autoridades as confundem na rua, o que é vergonhoso.

O foco da prevenção e formação das pessoas deve ser incluída até em materiais escolares. 2 ou 3 folhas num livro escolar a ensinar às crianças como interagir com um animal doméstico não é um favor, é uma necessidade, conforme apontam as estatísticas no início deste artigo. De momento apenas se debate os “perigos” de 7 raças, quando o real perigo é o “desconhecimento social sobre os cães” misturado com a falta de civismo (desde o apanhar dejetos à delinquência de andar com cães soltos sem respeito pelos restantes) e de nada adiantam reportagens ou entrevistas se nada mudar. Que critérios e “especialistas” definiram estas raças como potencialmente perigosas? Certificações específicas para determinadas raças não resolverão o problema, pelo contrário, vão sim criar ainda mais um fosso de ignorância que em nada ajuda a nossa sociedade.

Dispenso e pessoalmente envergonho-me com esses protagonismos de ocasião.

Seria interessante também a própria comunicação social noticiar de acordo com o seu código deontológico, e utilizar o seu poder de influência social para consciencializar e denunciar estas situações em vez de utilizar o próprio mediatismo de ocasião. Será que a guerra pelas audiências estará acima da verdade que deveriam se reger?

Não é vergonha pedir ajuda. Os cães não querem, troféus ou filosofias extremistas que nós os humanos teimamos em continuar a ter para com eles, eles apenas desejam o nosso respeito e compreensão. É esse o nosso dever.

 

Referências e estudos

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Comparação das consequências no bem-estar dos cães com treinos de coleiras de choque vs treino baseado em reforço.

Comparação do stress e efeitos de aprendizagem com três tipos de metodologias de treino.

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Uso de colares elétricos no treino de cães — Efeitos comportamentais a curto e longo prazo.

Estudo recente: Dog bite injuries to humans and the use ofbreed-specific legislation: a comparison ofbites from legislated and non-legislateddog breeds.

Treino científico ou moralista?

Estamos em constante mudança. A necessidade faz-nos adaptar às situações e somente os que se adaptam são os que continuam. É a essência da natureza.

Cada vez mais as sociedades adaptam-se às novas situações ou a própria espécie cria novas e complexas estratégias evolucionárias, através de grupos e/ou demonstrações de poder.

A minha formação em Human-Animal Studies expandiu o meu raciocínio crítico, obrigou-me a fazer mais perguntas do que pode ser certo x errado dentro das culturas, de como elas estão em constante mutação e de como criamos uma verdade absoluta de que nada é absoluto.

O pensamento lógico tem de ir além de livros ou autores, deve estar presente dentro de nós, fora de correntes moralísticas, argumentum ad verecundiam, ou falácias Ad hominen. Pior do que a ignorância, é deturpar o conhecimento obtido para opiniões pessoais.

Como o treino animal está incluído neste pensamento? Pela formação de grupos, pela colocação de etiquetas ao próprio trabalho ou ao trabalho dos outros, o uso de eufemismos para a justificação de determinados materiais, o uso de conceitos que em nada condizem com o significado dos mesmos e a total deturpação da ciência para as restantes situações.

O primeiro erro começa com o pensamento que a ciência é uma verdade absoluta. O processo científico em si não prova nada, a ciência pode na melhor das hipóteses “estar certa” sobre algo, podendo a todo o momento ser alterada consoante os resultados de novos estudos. Os estudos não provam, os estudos demonstram resultados estatísticos de determinada observação. O que hoje é A, amanhã pode ser B. O certo ou errado não existe nem pode existir na ciência. A ciência é o que é, baseada no estudo das evidências até agora apresentadas, não segue correntes, culturas ou opiniões pessoais.

O segundo erro segue na continuação do primeiro erro, o uso da ciência para dizer o que está certo ou errado. Em etologia falamos em custo x benefício. O condicionamento operante fala de reforço x inibidor. Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. O + não significa que é bom nem o – significa que é mau. Assim como um um reforço não significa ser bom ou mau, nem um inibidor significa ser mau ou bom. A incorrecta interpretação destes conceitos cria etiquetas sociais onde a maioria dos utilizadores desses conceitos os desconhecem por completo e os tornam como A => Certo e B => Errado.

O terceiro erro continua nesta sequência, a incorrecta interpretação de conceitos, desde comportamentos ao uso de outros conceitos/palavras que não condizem com a realidade, mas que são socialmente aceites. “Dominância” é uma das palavras proibidas ou banalizadas que mais discussão faz, simplesmente porque é interpretada incorrectamente e colocada em prática numa comunicação interespecífica através da nossa essência primitiva. Conceitos simples são deturpados, introduzidos no treino como desculpa para a limitação de conhecimento. O problema não são as palavras ou conceitos, mas a aplicabilidade individual que o humano lhes dá.

O quarto e último erro é o extremismo e fanatismo. Reparo que existem de momento dois mundos no treino animal, o positivo e o negativo. Quem possa questionar o positivo é negativo e quem possa questionar o negativo é positivo. Quem não utilize a devida frase de um autor ou a utilize em determinado contexto, é automaticamente etiquetado. Quem possa questionar o uso do clicker não é positivo, quem possa questionar o uso de coleiras de choque é a “pessoa que enche a barriga aos cães com comida”. Os fundamentalistas só prestam atenção às pessoas que pensam como eles, e vêem todos os outros como um inimigo. Entram-se em tantos conflitos ideológicos e egocêntricos que esquecemos que estamos a falar de outros seres vivos que necessitam de ser respeitados. Considero irónico no ponto de vista de que ambas as partes apregoam pela comunicação, assertividade, energia positiva e mente aberta.

Em que lado estou? Em nenhum. Cabe a cada um de nós decidir como pretende que seja a relação e comunicação com a outra espécie. Questione => Estude => Raciocine => Pratique => Questione. O que é certo para mim pode ser errado para si e vice-versa. Nada é absoluto, e se queremos estar atualizados, devemos estudar e questionar diariamente sem medo de assumir que estamos errados. Não camufle, generalize ou ignore conceitos, compreenda-os, explique-os corretamente, pratique e demonstre em vários indivíduos da espécie que treinar e não apenas em indivíduos previamente selecionados. Não se esqueçam que estamos em tempos de mudança, e a prática será o que vai derrubar os teóricos que copiam textos de outros teóricos e passam uma verdade absoluta como um dogma. O conhecimento é o novo modelo de mudança, e a tal mudança não pode estar condicionada a pensamentos A ou B, nunca se esqueça que tem um alfabeto para explorar. E se não se adaptar ao conhecimento, a seleção natural fará o seu papel. Carpe Diem! — “Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller.

Referências
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Gadbois, S. (2015). 51 Shades of Grey: Misuse, Misunderstanding and Misinformation of the Concepts of “Dominance” and “Punishment”.

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WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

Porquê treino animais?

É a pergunta que antes me faziam, mas que agora sou eu que a faço a mim mesmo. Qual seria a razão ou motivo para fazer o que faço diariamente?

Ser rico? Certamente o meu conceito de riqueza é diferente do seu, por isso não existe uma mensuração concreta sobre esse conceito. Para mim, ser rico é estarmos vivos, com saúde, com as nossas necessidades básicas suportadas e com memórias únicas que sempre suscitarão um sorriso de saudade momentânea.

Ser famoso? Quem quer treinar animais para ficar famoso pode desistir. O animal humano gosta, na sua essência, de demonstrações de poder, na sua maioria com a ostentação de símbolos ou troféus. O treino de animais vai além de truques, “obediência” ou demonstrações devidamente controladas e com cães bem selecionados. Treinar deve ser comunicação clara e uma perfeita compreensão da outra espécie sem a trazer para a nossa mentalidade social.

A união e discussão saudável dos treinadores como forma de todos evoluírmos? Ficaria sem dúvida impressionado com a resposta, uma ironia quando tanto se fala em compreensão, assertividade e entendimento, não é?

Ter tempo livre? Sem dúvida nenhuma que deste motivo pode desistir. Fazem muitos anos que não sei o que são férias, muitos meses sem saber o que é não pensar no trabalho e muitas semanas sem folgas. Quando não é trabalho, é estudo, pesquisa, projetos, e o restante tempo lembrar que também existimos.

O que então me faz treinar animais? Talvez a cumplicidade interespecífica que os momentos certos nos proporciona e que os saber aproveitar não existe explicação; O sorriso interior ao ver a felicidade das famílias junto dos seus cães a quererem aprender mais e mais; A procura diária de atualização profissional e ficar maravilhado com o que ainda temos de aprender; O passar o conhecimento obtido com um brilho nos olhos do assunto que estamos a falar, como se nós próprios estivéssemos maravilhados com o que ouvimos…

Resumindo: Não sei, mas adoro. E sabem que mais? Não são precisos motivos, basta nos sentirmos preenchidos com o que fazemos sem razão aparente. Façam o que vos preenche, e apenas sintam sem tentar responder. Siga a sua intuição e paixão. Carpe Diem.

Dominância — Uma visão científica

Eu escrevi um capítulo no meu livro “Uma nova visão sobre o treino animal” sobre o animal social humano, onde dentre outros assuntos, mencionei o facto de, ao sermos animais sociais, criarmos grupos (grupos de dentro e grupos de fora).

Actualmente, o ambiente virtual tem um mundo de conhecimento a explorar, mas como animais humanos que somos, por vezes preferimos nos juntar aos grupos de dentro sem consultar a realidade factual de alguns assuntos. Esse efeito bola de neve é perigoso e promove a ignorância, nada benévolo quando queremos mudar o mundo e mais perigoso ainda quando ensinamos pessoas que irão ensinar outras.

Querer fazer do comportamento animal uma “conclusão blindada” é um ato criminoso que o eleva a um campo dogmático, que tenho a certeza ser o oposto do objetivo desses grupos.

Pessoalmente, não sigo correntes ou textos moralmente aceites. Sigo a ciência e os seus factos que diariamente são colocados em dúvida e estudados. Defendo ainda que não é a camuflar ou ignorar conceitos que eles não serão seguidos, pelo contrário, geram mais confusão, fundamentalismos e incoerência.

Necessitamos de estudá-los e explicá-los na realidade com a mente aberta e separar esses conceitos das utilizações que os humanos fazem (mais precisamente no treino animal), porque são dois assuntos completamente distintos, espécies diferentes comunicam de forma diferente.

“Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller. Essa mudança é a transmissão real do conhecimento sem moralismos, somente assim faremos a mudança.

Compilei um conjunto de matérias e pesquisas de cientistas do mundo animal. Este assunto já chegou ao ponto de misturas de comportamentos com estados de espírito, adulterações de autores e ao cúmulo do argumentum ad verecundiam.

Espero que estes tópicos factuais possam elevar o vosso raciocínio crítico e pensamento lógico sobre os assuntos, somente assim conseguimos fazer a mudança. Apesar de fazer por tópicos, este artigo será um pouco longo ao complementar com a leitura dos links fornecidos e das referências bibliográficas. Para o bem do seu conhecimento, perca um pouco de tempo a ler e poder ter um argumento bem fundamentado e devidamente comprovado quando falar de determinado assunto.

Clique nos tópicos para aceder aos assuntos.
Dominância, submissão, hierarquias, etogramas e todas as definições científicas sobre o assunto. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Dominância e agressividade— Raciocínio crítico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Artigo do Dr. Simon Gadbois sobre a dominância e a punição.

Etograma canino—Comportamento social e agonístico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Artigo do Dr. Marc Bekoff com o depoimento do Dr. David Mech a afirmar que nunca rejeitou a noção de dominância.

Dominância e Pseudo-ciência. Artigo do Dr. Marc Bekoff.

Os cães demonstram dominância. Artigo do Dr. Marc Bekoff com vários estudos e outros artigos sobre o tema.

Estudo sobre relações de dominância em grupos de Canis lupus arctos.

Estudo com análise quantitativa da dominância nos cães domésticos.

Estudo sobre as hierarquias de dominância por idade e a tolerância social em grupos de cães em liberdade.

Outro estudo sobre a dominância em cães domésticos.

Vários artigos e estudos sobre hierarquias sociais.

Uso errôneo do tempo de geração do lobo em avaliações de evolução doméstica de cães e humanos.

Referências bibliográficas recomendadas.
ABRANTES, R. (1997). The Evolution of Canine Social Behavior. Wakan Tanka Publishers.

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Quando o silêncio é barulhento

Somos uma espécie barulhenta. Barulhenta em vários aspectos, inclusive no próprio silêncio. Não estou numa área fácil de gerir (e por vezes de entender) e a atividade diária faz-me barulhento para tentar silenciar o ambiente. A nossa espécie reclama, grita, chora, sorri, e crê assim que as outras espécies possam estar na mesma linha de entendimento sobre o que está a ser transmitido.
Já se colocaram em frente a um espelho a gritar ou a enviar beijinhos (temo que haverão respostas positivas…)? Parece um pouco patético, não é? E esse “parecer” resulta da interpretação da nossa linguagem e formas de comunicação. agora a pergunta será como ficarão as outras espécies que comunicam de forma diferente?
O nosso relacionamento interespecífico é algo mágico, que teimamos em torná-lo banal a partir do momento que o próprio feedback intraespecífico é precário. Falamos e não dizemos nada. Utilizamos um blá blá blá (que defino como “blabar”) desnecessário quando apenas deveríamos olhar, observar, compreender, explico o porquê com uma palavra bem simples: Comunicar.
Comunicar, do latim communicāre, é um acto de transmissão ou conexão com outro de forma transmitir uma mensagem. Esta divide-se em dois tipos, a comunicação verbal e não-verbal, sendo a última uma comunicação que considero bastante importante na interação interespecífica. Naturalmente que existem outras formas de interpretação que podem ser inseridas onde considerem melhor, mas sou um pouco inflexível na linha que separa opiniões de factos. E é facto que tanto a comunicação verbal como a não-verbal em excesso, volto a frisar, em excesso, é um atentado a qualquer interação com outra espécie.
A comunicação interespecífica, seja ela de que tipo for, necessita sempre de um autocontrolo e por vezes de ponderação e alguma análise. Não falo em introspeções, levaria muito tempo a transmitir a mensagem, falo sim de quando vemos apenas o lado do emissor e nunca tentamos perceber o receptor, assim a mensagem já vai distorcida, e o feedback já sabemos qual é.
Devemos comunicar de forma compreendida, pedir ajuda não é vergonha. Vergonha é termos a noção de que fazer caretas frente a um espelho é ridículo, mas não ter a noção da nossa barulhenta comunicação com outra qualquer espécie.
Compreender para sermos compreendidos, e na dúvida, apenas observe, verá o quão valioso é esse nosso dom.

Cães na Dinamarca

Tenho sido bastante questionado sobre os cães na Dinamarca. Não me compete dizer o que é certo e errado, apenas vou basear-me na legislação e no que vejo/vi. Vou deixar alguns tópicos tanto do lado cultural como legislativo, e no final os respectivos links para consulta:

– Existem cerca de 550.000 cães numa população de 5600 milhões de pessoas;
– Todos os cães devem ser registados e ter chip, o registo tem o valor de aproximadamente 17 euros.
– Todos os cães devem ter na coleira uma chapa com o nome e morada;
– Todos os detentores devem ter um seguro para o cão e são responsáveis por qualquer dano que o mesmo faça;
– Os cães não podem ladrar ou uivar excessivamente em público;
– Os cães devem andar sempre de trela ou soltos em campos amplos;
– Existem 13 raças proibidas (sim, proibidas): Pitt Bull Terrier, Tosa Inu, American Staffordshire Terrier, Fila Brasileiro, Dogo Argentino, American Bulldog, Boerboel, Kangal, Central Asian Shepherd Dog (ovcharka), Caucasian Shepherd Dog (ovcharka), South Russian Shepherd Dog (ovcharka), Tornjak, Sarplaninac;
– Coleiras de choques estão banidas (também na Suécia, Noruega e Suíça);
– O mesmo para coleiras de picos/grampos;
– Existe uma excelente mentalidade das pessoas em andarem sempre com o saco de recolha dos dejetos, caso contrário alguns jardins têm lugares específicos que os fornecem gratuitamente (alguns até luvas);
– Existe uma abundância de parques para cães. Contudo, existem jardins que proibem a circulação de cães.
– Não vejo muitos lugares que autorizem a entrada de cães;
– As pessoas sentem necessidade de procurarem aconselhamento de treino para os seus cães, reparo numa preocupação constante para o bem-estar deles;
– O número de cães abandonados é baixíssimo (nunca vi nenhum) e os que possam estar no canil para adoção não esperam mais de 15 dias (em geral) até terem um novo lar. A política para adoção é exigente e carece de aprovação. O novo detentor paga cerca de 350 euros pela adoção. Se uma pessoa for entregar ao canil o seu cão, também paga uma taxa. Existem cerca de 9 canis para adoção na Dinamarca.

E resumidamente assim que funciona, deixo alguns links caso tenham curiosidade de pesquisar mais:
– http://www.danskhunderegister.dk
– https://www.foedevarestyrelsen.dk/english/Pages/default.aspx – http://www.dyrevaernet.dk
– http://www.gipote.dk/hunde-artikler/59-Hunde-i-Danmark
– http://www.dkk.dk