O modelo obsoleto do treino canino—uma visão antrozoológica

O treino canino teve as suas origens essencialmente na área militar fruto das suas características inatas, que fizeram (e fazem) do cão uma ferramenta útil. O treino foi posteriormente alargado em tempos de paz para as áreas desportivas, para o entretenimento humano e para o seu uso social.

Ao longo de mais de 50 anos são poucas as mudanças per se no treino animal, mais propriamente no canino. Isto porque o intitulado treino social/civil foi trazido da componente militar, ministrado pelos próprios elementos dessas áreas, trazendo a tradição e exatidão de um treino padronizado com metodologias onde todos devem responder da mesma maneira, sendo vendido como algo necessário para prevenir problemas comportamentais e que (também) visa a socialização dos cães.

Nos últimos 25 anos, o cão está cada vez mais próximo dos humanos. Durante esse tempo, várias formas de ensino de cães baseado no respeito foram implementá-las (ver nas referências Abrantes,1984). Contudo, a sociedade é vítima de uma ignorância comercialmente necessária e do fashionism, o que se traduz num afastamento inconsciente entre os humanos e a espécie canina e a preocupação de uma relação natural e compreensão mútua é substituída pela necessidade de a encher com ferramentas artificiais e (na maioria das vezes) desnecessárias e pelo uso de palavras socialmente aceites sem conhecer o seu real significado.

A nível antrozoológico, caracterizo e aplico esta área no treino animal, como já fiz em artigos anteriores. A visão que devemos ter é acima de tudo pragmática, tendo em conta a sociedade humana, as características naturais das espécies não humanas e uma mentalidade utilitarista baseada em estudos e estatísticas atuais, sendo completamente individual a reflexão e a decisão de (possível) mudança.

De acordo com as estatísticas internas atuais (Dinamarca) que temos sobre alguns temas da relação detentor-cão, saliento os tópicos mais relevantes de uma forma geral:

  • Os cães passam uma média de 21 horas fechados em casa, estando uma média de 7 horas sozinhos.
  • Quase a totalidade dos assuntos referentes a problemas indesejados dos cães e dúvidas de ensino por parte dos detentores são relativos a dentro de casa.
  • Os problemas dentro de casa mais relatados são (1)pular nas visitas, (2)problemas relacionados ao ficar sozinho em casa (3)sub-estimulação (4)mordiscar as mãos.
  • Os problemas fora de casa mais relatados são (1)falta de ligação entre o detentor-cão, (2)puxar na trela, (3)pular nas pessoas (4)ladrar a outros cães.

Dentro destas estatísticas, devemos (enquanto profissionais) refletir sobre os modelos existentes e da necessidade de os mudar ou mesmo extingui-los por tão obsoletos que são.

“Obsoleto” define-se como (1)caído em desuso, (2)que está fora de moda ou (3)que não corresponde aos últimos desenvolvimentos técnicos.

Tendo em conta o conhecimento atual da espécie, os estudos referentes a níveis de stress com diferentes metodologias (ver referências), é-nos possível caracterizar modelos obsoletos de treino canino que ainda teimam em continuar, na sua maioria porque é uma forma de “dinheiro fácil” e porque os intervenientes apenas o fazem como part-time ou forma de ter um rendimento mensal extra ou são modelos empresariais que necessitam de ser suportados dessa forma, porque “sempre foi assim”.

Características do modelo obsoleto de treino canino:

  • Turmas exclusivamente em linha ou em formato circular sempre num determinado lugar.
  • Checklist padronizado para todos o seguirem.
  • Uso de sons (apitos ou vozes de comando) para que todos executem os mesmos procedimentos ao mesmo tempo.
  • Treinos efetuados exclusivamente pelo treinador.
  • Treinos em regimes de internamento ou semi-internamento.
  • Cães soltos em quantidade sob a premissa de estarem a socializar.
  • Uso de ferramentas que visam obrigar o cão a executar as tarefas propostas, mesmo que haja a necessidade do uso de meios coercivos.
  • Teorias de lupomorphism e/ou babymorphism tanto para tratar problemas comportamentais como para o treino comum.
  • A não clarificação do que se faz nem porque se faz.
  • O uso constante do antropomorfismo devido à escassez de conhecimento científico sobre o treino e espécie.
  • O uso desmesurado de novas ferramentas ou palavras socialmente aceitas por via da imitação, não existindo nem o conhecimento científico nem técnico dos mesmos.

Quero deixar alguns pontos referente aos tópicos acima:

  • É necessário saber diferenciar comportamentos anormais de comportamentos indesejados. Comportamentos indesejados são comportamentos perfeitamente naturais da espécie mas que são indesejados para os humanos. Comportamentos anormais são todos os comportamentos que não são naturais da espécie e podem ter variadas razões.
  • É necessário saber diferenciar soltar cães com socialização. A socialização de cães é essencialmente ter um número reduzido de cães devidamente selecionados para a situação, tendo em vista uma interação saudável da espécie de forma a promover o ensino e aprendizagem das suas habilidades sociais intraespécie.
  • Treinos em regimes de internamento, semi-internamento ou efetuado pelo próprio profissional apenas afastam o detentor do cão e é um absurdo. Toda a família necessita de ser ensinada a saber comunicar com o seu cão, são eles que vivem com o cão.
  • Tendo em conta que os cães passam uma média de 21 horas fechados em casa, e a maioria dos problemas relatados são em casa, treinos exclusivamente externos, com checklist padronizados e condicionados somente a um espaço sempre da mesma forma não reflete a necessidade do cão nem das famílias, sendo um gasto de tempo, energia e monetário.
  • O uso de determinados materiais por parte dos detentores vai refletir-se na sua generalização e no afastamento de uma comunicação natural e da compreensão interespecífica.

Soluções?

  • A profissionalização da atividade tendo uma base completamente científica e estudos atualizados.
  • A separação do treino científico do treino moralista.
  • Ensino no domicílio, com a devida adaptação das necessidades naturais e individuais do cão, onde a família recebe uma componente teórica, tira as devidas anotações e é-lhes passado o “porquê das coisas”.
  • Toda a família deve estar presente e praticar.
  • Atividades exteriores complementares ao ensino ao domicílio em vários ambientes e com outros cães e detentores.
  • Um máximo de 4 detentores-cães por treinador ou assistente (o ideal são 3) para as atividades exteriores, para que se consiga individualizar o máximo possível.
  • A seleção e programação dos cães a socializar.

Nota do autor:

Em pleno século 21, onde o bem-estar animal, a ética e os seus direitos ainda são a ordem do dia, como é possivel nos descurarmos de algo tão fulcral como a educação interespecífica, que continua na sua maioria a seguir os modelos de controlo, poder e “obediência” como há 50 anos atrás ou modelos que em nada se enquadram no paradigma social?

Seremos nós prisioneiros eternos do condicionamento social sobre estes assuntos e recusamos a mudar e a acreditar em tudo o que lemos/ouvimos, ou teremos a coragem de dizer “basta” a tudo o que se passa descaradamente à nossa frente de todos mas que teimamos a permanecer cegos, e denunciar/combater todas as ilegalidades e desconhecimento dos intervenientes, camuflados por simpatia e sorrisos, com frases socialmente aceites e sempre em prol do tal do “bem-estar animal”, onde nem os animais não humanos nem os animais humanos são respeitados ou tomados em consideração pelos atos dessas pessoas?

O modelo de treino canino deve ser urgentemente revisto. O “treino” deve dar vez à educação familiar, a “obediência” dar lugar à comunicação natural e compreensão, e as garantias de resultados de cães mecanizados deve dar lugar à atualização do conhecimento e olhar para as outras espécies não como objetos que são para os humanos, mas como vítimas constantes da sociedade humana, onde tentamos todos sobreviver.

A escolha é nossa, este artigo foi baseado não somente no conhecimento empírico como também no conhecimento científico e estudos atuais presentes nas referências abaixo. Aconselho a leitura antes de qualquer tipo de julgamento.

“You never change things by fighting the existing reality. To change something, build a new model that makes the existing model obsolete.” ― R. Buckminster Fuller

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Materiais de treino e o Fashionism—uma visão antrozoológica

O treino de animais, principalmente o treino canino, não teve per se mudanças significativas ao longo destas décadas. Tendo as suas origens em raízes militares, ainda hoje os treinos são feitos na sua vasta maioria em turmas, em formações de linha ou círculo, onde todos devem realizar os mesmos procedimentos de forma mecânica na mesma linha de tempo para que sejam considerados “obedientes”, como se de uma linha de produção se trata-se. Acrescentando modelos baseados em lupomorphism e babymorphism, geralmente bem aceites na sociedade porque nos dá sempre uma sensação de poder e controle, desacredita assim a necessidade de um ensino individual e adaptado às necessidades e limitações do indivíduo, em conjunto com uma comunicação natural de criar um relacionamento com outra espécie sem a necessidade de coerção ou aliciamento, dando mais ênfase a nós e não a ferramentas.

Essa generalização de procedimentos, cria uma mentalidade social alimentada pela falta de conhecimento (propositada e comercialmente necessária) sobre o assunto, falta de civismo e a delinquência perante a lei (cães soltos, dejetos não apanhados, entre outros), tudo em prol de um cão “obediente” e que o resto está errado, numa espécie de niilismo passivo se pensarmos que segundo as nossas estatísticas internas efectuadas (Dinamarca) junto das famílias com cães indicam que o cão passa uma média de 20 horas fechado numa casa, e o pouco tempo que ele tem para ser realmente um cão (na sua essência de espécie) e poder investigar o ambiente externo é usado somente para “obediência”, andar junto, ser muitas vezes forçado a efetuar exercícios que não são precisos na sua vida mas que são sim meros caprichos do exibicionismo e “desobediência” humana onde o cão apenas se submete como única forma de continuar vivo na sociedade humana… mas (como todos dizem) nós os amamos.

A generalização do uso de teorias, técnicas e materiais é perigoso e criminoso, porque as familias colocam a vida de um ser vivo (embora de outra espécie) ao “conhecimento” de numa pessoa que se supõe ser profissional. As famílias irão sempre adotar o que lhes ensinam e aconselham de uma forma massiva, independente dos efeitos que isso possa trazer ao cão.

Por outro lado, essas ramificações de “treino sem erro” espalharam-se para outras áreas onde o cão é utilizado como um puro objeto ou ferramenta de trabalho. Os cães são utilizados em desculpa dos benefícios para o humano. A sobrevivência da espécie está dependente da sua utilidade para os humanos, agora camuflada por uma sensibilização social e embelezada com as mais bonitas fotos e palavras. Com a premissa da sua utilização para um bem social, nem se pensa nos detalhes importantes, tais como (1)a falta de formação das pessoas na área, (2)os fatores económicos envolvidos, ou (3)a perfeita manipulação social sobre estes assuntos através de vários “estudos” devidamente publicitados que anunciam os benefícios dos cães para o bem-estar humano, criando dessa forma uma necessidade obrigatória. Contudo, continuo a questionar o porquê de não existir um único estudo de bem-estar aos animais utilizados para fins sociais? A ignorância tem um efeito ansiolitico para a realidade e controla as multidões, o pensar fora o rebanho é cada vez mais um desafio social que nos afasta lentamente do ecossistema que tanto dizemos defender.

Eu criei e introduzi em 2013 um conceito aos meus estudos e trabalho prático, de forma a conseguir classificar e organizar a realidade atual do uso dos animais não-humanos na sociedade num âmbito antrozoológico: O fashionism.

O fashionism é um modelo que sugere que os animais não-humanos são utilizados consoante os interesses e tendências sociais, económicos, culturais e políticos, podendo ser temporários, permanentes e adaptativos.

O fashionism está de momento bem presente no mundo dos animais de estimação em várias áreas, e para se alcançarem os objetivos dessas tendências, vivemos numa era de “vale tudo”, onde o cão tem de fazer uma determinada tarefa para os humanos, não importando de que forma possa ser ensinado para tal.

Também o dividi em “fashionism técnico”, um conceito exclusivamente aplicado ao treino animal e que irei publicar na íntegra num jornal científico e em manuais técnicos do Ethology Institute.

Em conjunto com pensamentos filosóficos (geralmente o Contractarianism, Utilitarianism e Animal Rights), é possível fazermos uma profunda reflexão coerente sobre a necessidade e utilidade do uso de determinados materiais. Também tenho um extenso trabalho de pesquisa sobre este assunto e de como eu os introduzi e os apliquei na prática ao treino animal desde 2008, após alguns anos de estudo e experiências práticas.

Estas reflexões fazem-nos inclusive ponderar o uso da palavra “treino” para o que realmente fazemos. Considero essa palavra algo “popular” e, dependente da perspectiva e da área onde é abordada, poderá fazer sentido o seu uso. Por exemplo, numa perspectiva etológica e antrozoológica eu não concordo com esse uso pelo facto de abordarmos as necessidades naturais de uma espécie. Já numa perspectiva da psicologia ou sociologia, o treino pode ser algo útil e necessário pelo facto de estar indiretamente interligado a uma integração social de um indivíduo. Ambas estão correctas, tudo depende de como abordamos o assunto.

Recentes discussões, na sua maioria a nível dogmático, querem definir os melhores materiais utilizados no treino, como se fosse somente isso que definisse uma boa relação interespecífica. Existem vários estudos (ver referências) que demonstram os efeitos tanto de determinados materiais usados e as suas técnicas de implementação, assim como posições oficiais de organizações mundiais a condenar ou recomendar o uso de outros, entre outros factos científicos que nos permitem entender, atualizar e tomar decisões conscientes do que estamos a fazer.

Contudo, há alguns pontos na modificação de comportamentos que são totalmente desvirtuadas e por vezes desconhecidas pelos intervenientes devido à necessidade social de mostrar resultados, de dar garantias como forma de existir um status necessário para efeitos de marketing, de utilizar palavras socialmente aceites ou dizer o que as pessoas querem ouvir, onde existe a timidez de dizer que há situações que levarão bastante tempo e necessitam de uma completa mudança de rotina da pessoa, ou situações onde a incapacidade e/ou incompatibilidade do detentor com o cão é o único diagnóstico possível, devido aos cães (e outros animais de estimação) também serem por vezes utilizados como uma forma de tentar compensar um vazio na vida das pessoas, derivado a uma situação mais marcante. E com isso, as necessidades e limitações individuais de cada cão não são respeitadas, muito menos estudadas ou compreendidas.

Cada cão tem o seu tempo, aptidão e limitação. Individualizar e não generalizar é um favor que fazemos a nós próprios enquanto seres ditos racionais.

Necessitamos de saber o que queremos ensinar à outra espécie, o porquê e se é mesmo necessário perder o tempo e a energia de ambos a ensinar, e como se vai ensinar. Uma programação individual e adaptada das sessões de treino com os corretos sinais e consequências.

O perigo da generalização de materiais ou técnicas rege-se pelo não respeito do indivíduo e situação. A modificação comportamental deve ser individual e adaptada ao indivíduo, e existem alguns princípios da ciência da aprendizagem sobre reforços ou inibidores que devemos conhecer antes:

  • Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.
  • O + não significa que é bom nem o – significa que é mau. Assim como um um reforço não significa ser bom ou mau, nem um inibidor significa ser mau ou bom. A incorrecta interpretação destes conceitos cria etiquetas sociais onde a maioria dos utilizadores desses conceitos os desconhecem por completo e os tornam como A => Certo e B => Errado.
  • Os reforçadores e inibidores estão sempre sujeitos a três condições distintas: O indivíduo, o comportamento e o momento.
  • A eficácia dos reforços e inibidores depende também da sua intensidade, da forma como é dada e da situação presente. O que é um reforço numa situação, poderá ser um inibidor noutra e vice-versa.
  • Se o cão permanece com um comportamento ou aumenta-o, o treinador está por definição a aplicar um reforço e não um inibidor.
  • Se um cão permanece com um comportamento ou o diminui, o treinador está por definição a aplicar um inibidor e não um reforço.
  • Um aversivo causa evitação de uma alguma coisa, de uma situação ou de um comportamento através do uso de um estímulo desagradável ou punitivo. Assim, por definição, qualquer tipo de material ou técnica pode ser aversivo desde que cause desconforto ou evitação ao indivíduo.
  • Existem quatro formas de aumentar um aspeto de um comportamento: (1)reforçar o comportamento, (2)não inibir o comportamento, (3)criar oportunidades para o comportamento ser apresentado, (4)não reforçar um comportamento que é incompatível com o comportamento que desejamos.
  • Existem quatro formas de diminuir um aspeto de um comportamento: (1)inibir o comportamento, (2)não reforçar o comportamento (extinção), (3)prevenir oportunidades para o comportamento ser apresentado (esquecimento), (4)não reforçar um comportamento que é incompatível com o comportamento que deseja diminuir.

Nota pessoal do autor:
Eu não preciso do apoio da ciência para não provocar medo, intimidação ou dor quando estou a comunicar com outra espécie, muito menos forçá-la a fazer o que quer que seja porque há resultados ou garantias para os humanos a apresentar ou por outras justificações que demonstram a nossa limitação de conhecimento. Deveria ser intrínseco. Não uso e não usarei materiais cujo único intuito é criar dor e sensações de desconforto ao cão, por mais sacrifícios pessoais e profissionais eu possa continuar a fazer. Rejeito retóricas do estilo “queria ver como agia com um cão agressivo”, pois durante toda a minha vida profissional passei de forma prática desde o treino militar canino a treino de ambos os extremos sociais e lido com qualquer tipo de situação com a plena consciência dos meus limites técnicos e éticos e um grande respeito individual pelas outras espécies. Fiz as minhas decisões e reflexões baseado na minha experiência e na ciência, e por isso seremos sempre eternos estudantes.

Convido a todos, independentemente da filosofia de treino, a tentarem comunicar com um gato ou um cavalo da forma como fazem com os cães, perceberão que somos uns perfeitos cobardes ignorantes ao usar intimidação e coerção com uma espécie considerada a mais domesticada e social para com os humanos.

Por outro lado, um treino baseado em 100% de reforços ou 100% de inibidores é algo tecnicamente impossível, biologicamente contra natura (relação dos custos x benefícios dos organismos) e um engano a todos os que acreditam e possam fazer disso slogans, campanha de marketing ou argumentum ad verecundiam. O simples virar as costas para o cão deixar de pular é por definição um inibidor negativo, se o comportamento diminuir. Se o comportamento continua ou aumenta, é por definição um reforço. Não são os reforços ou inibidores que são bons ou mais, é uma questão de um conhecimento atualizado, uma gestão das condições presentes e estabelecermos os nossos limites. “O maior inimigo do conhecimento não é ignorância, mas a ilusão do conhecimento.”—Daniel Boorstin

Se chegou até aqui com alguma relutância ou dúvida, está de parabéns. Recomendo novamente a leitura atenta dos tópicos acima e de todas as referências no final para que compreenda do ponto de vista científico. E recomendo também que pesquise ainda mais além disto, sempre com a dúvida presente e nunca com a influência de grupos ou mentalidades, o treino animal é metade ciência e metade arte, apenas podemos aprender a ciência, o resto… é o que faz a diferença.

Ao fazermos um trabalho profissional, devemos ter como um conhecimento base todas as referências científicas (e não referências idiotas que nos agradam encontradas facilmente na internet) atuais que nos permitirão (ou não) adequar a nossa forma de interação interespecífica. A escolha de como pretendemos que seja a nossa relação com os animais é exclusivamente nossa, não devemos é ser hipócritas ou incoerentes com o que fazemos/dizemos nem nunca nos enganarmos a nós próprios com eufemismos ou falácias sociais.

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O treino animal e a Pseudociência—Raciocínio crítico

Eu escrevi um artigo no início de 2016 intitulado “treino científico ou moralista”, onde referi alguns pontos que considero estarem cada vez mais a influenciar grandes massas sob uma premissa científica. Noutro artigo, contribui com a minha visão antrozoológica para classificar os vários grupos e sub-grupos de treinadores na atualidade. Recomendo a leitura antes de prosseguir.

Neste artigo vou analisar alguns assuntos discutidos com algum raciocínio crítico e certamente repetir assuntos de artigos anteriores, mas irei repetir-me sempre que eu verifique que a ciência anda a ser manipulada de forma a controlar grupos. As lutas tribais atuais estão concentradas em “likes”, partilhas e comentários nas redes sociais, e os grupos necessitam de ser alimentados, seja por ideologias, moralismos ou falácias, a maioria deles pelo narcisismo, esquizofrenia virtual do(s) autor(es) e/ou pela necessidade de promoção pessoal como uma terapia para a própria insegurança. E para piorar, temos o condicionamento social que é feito através de grupos, o próprio julgamento prévio sem o interesse de pesquisar mais sobre o assunto, o seguirem as opiniões de outros, criticarem e condenarem textos ou pessoas sem lerem ou procurarem validade factual junto dos mesmos. Estudos demonstram a influência das redes sociais no cotidiano do utilizador, inclusive no aumento do stress. Estarmos prisioneiros a grupos impede-nos de pensar, certamente por isso somos uma espécie fácil de adestrar.

A própria indústria pet (em crescente expansão) influencia cada vez mais a sociedade, tanto as famílias como os profissionais. Criam necessidades, apresentam estudos encomendados e alimentam uma ignorância comercialmente necessária, onde as pessoas não sabem ao certo porque adquirem ou se realmente necessitam adquirir mas é-lhes dito que serão pessoas melhores se o fizerem. Vendem design e não conhecimento. De momento vários estudos muito vagos sobre cães andam a enfatizar os benefícios de ter cães, e a cegueira social nunca questionou o porquê de tanto ênfase.

Se o tal do “bem-estar” animal, palavra essa tão banalizada mas que comercialmente tem bastante sucesso, questiono-me porque será que ainda não foi efetuado um estudo do número crescente de problemas comportamentais dos cães nos últimos 15 anos decorrentes dos cães estarem cada vez mais dentro de casa, em ambientes artificiais e com as famílias a implementarem constantemente modelos de antropomorfismo e babymorphism? Um pouco incoerente se verificarmos todas as “ofertas” atuais de mercado. Não estou a condenar esta indústria, apenas a banalização comercial factual que a mesma está a tornar-se.

O cão no momento é um mero objeto exatamente como antes, mas agora camuflado sob a premissa de “utilidade social para os humanos”.

Eu também questiono por que não existe um estudo global de bem-estar em animais usados para fins sociais? Segundo especialistas, os cães deveriam ser usados em ações sociais dentro de um limite ético, mas que limite? O senso comum? Desculpem-me, mas eu rejeito retórica. Eu não estou a condenar esta indústria, apenas sim a banalização comercial que está a tornar-se e que não favorece nem os detentores nem os animais de companhia.

As pessoas preferem comprar um brinquedo de 50€ porque “dizem que funciona” do que comprar um livro de 10€ que poderá ajudar a entenderem melhor seu animal de companhia e proporcionar-lhe uma vida dentro de suas necessidades individuais naturais, onde esse brinquedo certamente nem seria necessário.

O mesmo para os treinadores de cães, que preferem aprender em seminários ou cursos teóricos de poucos dias e acreditarem em todo romantismo passado sem o interesse de lerem um livro científico, estudar a realidade científica, os seus reais conceitos, definições, aplicações e praticarem com o maior número possível de cães para desenvolverem o seu próprio método de treino, tendo a noção da realidade prática e continuarem diariamente a pesquisar e a estudar cada vez mais. Assumirem um papel de “caça diplomas” apenas estão a enganar-se a eles próprios e a quem possam ensinar.

Esta visão antrozoológica sobre o assunto pode parecer muito fria ou de palavras duras, mas é simplesmente uma visão antropológica, sociológica e acima de tudo zoológica de uma espécie que negamos ser apenas mais uma neste planeta. E tudo começa por aí. Tentamos suavizar os nossos comportamentos de uma forma moralística, negando a ciência que nos caracteriza de animais que somos.

O que vou apresentar neste artigo não são julgamentos, são factos científicos sobre a realidade, a maioria das vezes “romantizada” ou ignorada por não seguir os nossos ideais. Certamente nem todos vão concordar, mas há que separar as nossas opiniões emocionais da factualidade científica atual. E deixo desde já o saudável desafio para ler este artigo com uma visão pragmática, duvidar de tudo o que possa ser aqui escrito e pesquisar não só os artigos, estudos e referências científicas que serão aqui deixadas, como também outras literaturas puramente científicas e não opinativas.

Cabe a cada um decidir como pretende levar a sua vida pessoal/profissional, se adequar a realidade científica aos limites técnicos e éticos, ou simplesmente criar um mundo utópico e manipular a ciência para tentar confirmar determinadas teorias socialmente aceites. O processo científico em si não prova nada, a ciência pode na melhor das hipóteses “estar certa” sobre algo, podendo a todo o momento ser alterada consoante os resultados de novos estudos. Os estudos não provam, os estudos demonstram resultados estatísticos de determinada observação. O que hoje é A, amanhã pode ser B. O certo ou errado não existe nem pode existir na ciência. A ciência é o que é, baseada no estudo das evidências até agora apresentadas, não segue correntes, culturas ou opiniões pessoais. A ciência não tem culpa que a usem erroneamente. É nosso dever procurar fontes fidedignas quando estamos a trabalhar com outros seres vivos.

Neste artigo vou focar-me no treino dos cães por de momento ser o que mais falácias virtuais cria. Reparo que cada vez mais culpabiliza-se, descredibiliza-se e nega-se a etologia e o comportamentalismo pelos mais variados motivos ideológicos e argumentos implícitos para tão sérias afirmações.

Mas em primeiro lugar, e como gosto bastante de dicionários, é necessário definir o que vários conceitos que vou utilizar realmente significam. Alguns deles vou desenvolver nas análises aos variados argumentos:

A ciência é o conhecimento sistemático do mundo físico ou material adquirido através da observação e experimentação. A ciência é um processo, não uma conclusão.

A moral é o princípio que diz respeito à distinção entre comportamento correto e errado ou bom e mau.

A ética é um princípio moral ou um conjunto de valores morais detidos por um indivíduo ou grupo

A cultura é a adaptação biológica do gênero humano que tem propriedades ou características fundamentais que estão sujeitas ao mesmo algoritmo evolutivo, variação seletiva, retenção, transmissão. Baseia-se na natureza humana e é constrangida por ela.

Pensar é a atividade da mente que tenta fazer sentido dos acontecimento da vida, podemos pensar o que nos apetecer sem qualquer tipo de esforço, o que nos faz querer ou desejar algo.

Raciocinar é um processo que nos ajuda a aceitar ou rejeitar afirmações feitas por nós próprios ou pelos outros.

O pensamento dogmático caracteriza-se por uma aderência firme e cega a um certo conjunto de instruções.

O pensamento crítico reconhece e aprecia as diferenças contextuais e a sua complexidade, rejeitando conclusões prévias e aceitando conclusões mais adequadas.

Uma premissa é uma sentença declarativa que serve de base para um raciocínio, o que levará a uma conclusão.

Um argumento é um conjunto de várias premissas ou justificações que levam a uma conclusão. Este processo pode ser bom ou mau, mas nunca verdadeiro ou falso. Os argumentos podem ser explícitos (quando as premissas que levam à conclusão são todas declaradas) ou implícitos (quando as premissas que levam à conclusão são sub-entendidas). Estes últimos são muito utilizados a nível publicitário. Também podem ser classificados como válidos ou inválidos, fortes ou fracos, convincentes ou não.

Uma falácia é o erro na formulação de um argumento.

Uma opinião é a expressão de uma crença subjectiva ou uma tomada de posição sobre um determinado assunto, nem sempre assentada em premissas verdadeiras, e a maioria das vezes assentada em motivos emocionais ou pressões sociais.

A retórica é a arte de falar e convencer os outros sem ter em consideração a verdade das premissas.

Vamos agora analisar algumas afirmações:

“A etologia criou a teoria da dominância dos cães”.
Esta afirmação é bastante utilizada atualmente e por isso quero analisá-la em primeiro lugar. A primeira pergunta que eu faço sob esta afirmação é: O que é a etologia?

A etologia é o estudo do comportamento animal no seu ambiente natural. A abordagem da etologia difere dos métodos utilizados noutras ciências do comportamento, por exemplo, a etologia explica o comportamento baseado na sua função e causa. A psicologia explica os comportamentos através de processos fisiológicos ou mecanismos de aprendizagem e cria ambiente artificiais ou controlados para estudá-los. A etologia estuda o comportamento do animal no seu ambiente natural e descreve o comportamento como a seleção natural o moldou e desenvolveu variações. Embora os princípios possam parecer os mesmos, as abordagens utilizadas determinam o resultado dos seus objetivos. Através da sua abordagem, a etologia permitiu a elaboração de etogramas de várias espécies, sendo a matriz essencial para o estudo das mesmas, incluindo os cães.

Nos últimos anos, o interesse pelas emoções dos animais aumentou devido à evolução da neurociência afetiva.

De referir que nos humanos, as emoções são um despertar do estado do corpo, acompanhado de comportamentos característicos e sentimentos internos particulares. Nos restantes animais, a forma de como o comportamento é demonstrado difere de cada espécie e indivíduo, sendo assim perigoso tentar utilizar a emoção como uma abordagem generalista para explicar determinado comportamento.

A segunda pergunta que faço sob esta afirmação é: De onde surgiu a teoria da dominância dos cães? Esta pergunta vai dividir-se em duas outras perguntas, a primeira, o que é a dominância? E a segunda, o que é a teoria da dominância dos cães?”

Para a primeira sub-pergunta: Dominância não é uma característica ou traço de personalidade, é um comportamento. E o que é um comportamento dominante e como a dominância pode influenciar a interação da espécie?

O comportamento dominante é um comportamento quantitativo e qualitativo apresentado por um indivíduo com a função de obter ou manter acesso temporário a um recurso em particular, numa ocasião em particular, versus um oponente em particular, sem existir qualquer tipo de injúria entre as partes. Se entre qualquer uma das partes ocorrer injúria, o comportamento é agressivo e não dominante. As suas características quantitativas variam de ligeiramente auto-confiante a completamente auto-confiante (Abrantes, 1997).

O comportamento dominante é particularmente importante para animais sociais que necessitam de co-habitar e cooperar para sobreviver. Portanto, uma estratégia social específica evoluiu com a função de lidar com a concorrência entre companheiros, enquanto confere um maior benefício ao menor custo.

A dominância regula a agressão em sociedades animais com altas taxas agonísticas, favorecendo o estabelecimento de relações hierárquicas para preservar a homeostase social (Elkins, 1969). Hierarquias sociais variam de espécie para espécie e nem sempre são lineares, principalmente em espécies afetadas com os efeitos de domesticação, por isso determinados termos como Alpha, foram demonstrados em variados estudos que não se aplicam nesse contexto específico em determinadas espécies, estando o lobo e o cão incluídos.

A partir da própria definição reparamos que outras palavras são utilizadas socialmente para substituir “dominante”, tal como “confiante”, curiosamente com o mesmo significado.

A partir daqui podemos começar a concluir que a etologia per se não criou qualquer tipo de teoria da dominância e é bem clara na sua definição, o que nos leva para a segunda sub-pergunta: O que é a teoria da dominância nos cães?

Essa teoria foi criada no mundo do treino canino baseada num modelo de lupomorfismo (lupomorphism), que sugere que as interações sociais entre os humanos e cães devem ser baseadas nas regras aplicadas na sociedade lupina, ou seja, uma rígida hierarquia feita pelos humanos que devem utilizar comportamentos baseados na sociedade lupina. Contudo, este modelo embora ainda em uso no treino de cães, começou a ser desacreditado depois que o Dr. David Mech e a sua equipa com a evolução dos seus estudos, mostraram que o uso do termo “alpha” num estudo com lobos em cativeiro foi usada de forma errônea a partir do momento que os estudos mostraram que os lobos não possuem uma hierarquia tão rígida conforme se pensava antes, mas NUNCA rejeitou que a dominância não existe nos lobos ou que é errado utilizar o termo “alpha” em algumas situações (página 8). Aliás, um estudo efetuado no comportamento social entre os cães demonstrou que as interações dos cães são menos estabilizadas do que as interações entre os lobos (Feddersen-Petersen, 1991)

Isto leva-nos a outra afirmação: “Os cães não são lobos, seria como comparar os humanos com os macacos e por isso eles não formam grupos”.

A primeira parte da afirmação “Os cães não são lobos (…)” é facilmente comprovada a nível taxonómico. Está correto.

A segunda parte “(…) seria como comparar os humanos com os macacos”, a nível evolucionário esta afirmação é um perfeito disparate e um insulto à comunidade científica. Primeiro, porque ao consultarmos a linha evolucionária dos lobos-cães com macaco-homem tanto num aspecto paleo-antropológico como num aspecto evolucionário reparamos que milhões de anos separam ambos com as complexas variáveis e ancestrais comuns envolventes em ambas as evoluções. E segundo, com esta afirmação é criada uma incoerência argumentativa enorme que revela uma perfeita ignorância sobre o assunto e pode desacreditar à priori todas as afirmações anteriores.

A última parte da afirmação “(…) eles (cães) não formam grupos” tem sido amplamente utilizada pelo mundo. As minhas questões: O que é um animal social? O que é comportamento social?

Um animal social, em biologia, é um organismo que é altamente interactivo com outros membros da sua espécie ao ponto de terem uma sociedade distinta e reconhecível.

O comportamento social é definido como interações entre indivíduos, normalmente dentro da mesma espécie, que geralmente são benéficas para um ou mais indivíduos.

Outra questão: Podemos assim afirmar que o cão é o único animal social do mundo que não forma qualquer tipo de grupo a partir das suas interações sociais?

Uma rápida pesquisa em fontes fidedignas forneceu variados estudos efetuados desta temática. Neste meu artigo compilei uma série de estudos e artigos científicos de cientistas que passaram/passam décadas a estudar o comportamento canino e que suportam tudo o que foi escrito acima.

Sobre o comportamentalismo
As recentes críticas do comportamentalismo têm como afirmação: “O comportamentalismo é mau porque castiga os animais e muitos treinadores o utilizam para isso”.

Este argumento é falacioso, emocional e moralista. E vamos analisar o porquê da sua inconsistência.

Novamente, estamos a culpar a ciência pela sua suposta aplicação prática e a utilizar vários termos sem o conhecimento real das suas definições.

O que é o comportamentalismo?
É uma teoria ou conjunto de métodos de investigação na área da Psicologia que pretende estudar o comportamento com base na observação e análise de estímulos e reacções, em detrimento da introspecção e da consciência. Assume que todos os comportamentos são reflexos produzidos por uma resposta a certos estímulos do ambiente, ou uma consequência da história desse indivíduo, incluindo especialmente reforço e punição, juntamente com o estado motivacional atual do indivíduo e os estímulos de controle. Tem como bases o comportamentalismo radical, análise experimental do comportamento e análise aplicada do comportamento. Temos como principais desenvolvedores J.B Watson, I.P. Pavlov, E. Thorndike e B.F Skinner.

Às experiências onde o comportamento era aumentado ou reduzido pelas consequências, Skinner chamou de aprendizagem operante, porque o comportamento atua no ambiente. Skinner identificou assim quatro tipos de procedimentos operantes: dois que reforçavam/aumentavam o comportamento (reforço) e dois que diminuíam/inibiam o comportamento (inibidor).

Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

Um inibidor (popularmente conhecido castigo/punição) é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. O termo “inibidor” foi introduzido em 2012 pelo Dr. Roger Abrantes no seu livro “Os 20 princípios que todos os treinadores de animais devem conhecer”.

Nas definições científicas, assim como em toda a ciência, não há conotações negativas ou positivas dos termos. Tudo depende da aplicação. E é na aplicação de reforços e inibidores onde existe a maior discussão. Os reforços e inibidores estão sempre sujeitos a três condições distintas: Ao indivíduo, ao comportamento e ao momento, e devem ser aplicados na qualidade e intensidade certa. Não devem ser generalizados de uma forma mecânica como se de uma verdade absoluta se tratasse.

No treino animal, utilizam-se expressões como recompensar o cão ou punir o cão, expressões essas errôneas, porque não estamos a recompensar ou punir indivíduos, mas sim a reforçar ou inibir um comportamento. Neste meu artigo eu desenvolvo este assunto mais sucintamente, recomendo a leitura.

Por outro lado, não existe um consenso de termos do que estamos a ensinar ao cão e como o estamos a ensinar. Esta falta de precisão não é por culpa da ciência, porque ela é bem clara do que utilizamos, ou sinais, indícios ou comandos.

Um sinal é tudo o que intencionalmente causa a alteração do comportamento do receptor.

Um indício (Cue) é tudo o que de forma não-intencional causa a alteração do comportamento do receptor.

Um comando é um sinal que causa a alteração do comportamento do receptor de uma forma especifica sem variação ou com uma variação extremamente mínima.

Neste meu artigo escrevo e demonstro na prática vários exemplos de como devemos ser claros, simples e precisos na comunicação inter-espécie, com as técnicas adequadas (respeitando a espécie) à programação do próprio ensino.

O que podemos então concluir?

O problema central não está na ciência, que é muito clara nas suas definições, mas sim nas aplicações práticas de determinadas pessoas, utilizando a pseudociência tanto para tentar afirmar como para negar, tendo a vantagem da maioria das pessoas que absorvem essa informação não vão pesquisar e limitam-se ao que possam ler ou ouvir nas redes sociais, blogs ou opiniões de pessoas por muito famosas que possam (querer) ser.

Os estudos científicos devem ser acima de tudo um controle de qualidade para o profissional, não interessando o tempo de experiência. O tempo de experiência é irrelevante. O tempo de prática significa aplicar os conhecimentos e (às vezes) aprimorá-los, o que significa que pouco pode mudar e apenas estamos a alimentar o que achamos certo, mesmo que possa ser conotado de errado ou vice-versa.

Em parte posso entender a evitação em falar de certos assuntos por tão negativos eles estão conotados, mas a grande maioria das pessoas que evitam não sabem o seu real significado, resultado de todos os condicionamentos sociais acima escritos. Eu defendo o real conhecimento e que cada pessoa, como indivíduo, faça as suas decisões pessoais e profissionais sem incoerências ou pressão social.

O gostar de animais não deve ser um requisito único para o treino animal. A noção de estarmos a comunicar com uma espécie diferente dá-nos a responsabilidade de procurar cada vez mais informação científica (fidedigna) com uma visão pragmática em tudo, de forma a procurarmos ainda mais e não cairmos no erro de acreditar em tudo o que lemos ou ouvimos dos outros. Estimular os comportamentos naturais da espécie e não os condicionar às vontades e pressões sociais deve ser o principal.

Não seja o que a sociedade quer, nem ceda às suas pressões. Respeite as outras espécies e comunique com elas não por oposição, mas porque existe um feedback natural entre vocês. O conhecimento é uma ferramenta poderosa e é gratuita. A falta de conhecimento é caríssimo. Nosce te ipsum.

Referências de leitura complementares recomendadas

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ABRANTES, R. 2012. Canine Ethogram—Social and Agonistic Behavior.

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ABRANTES, R. 2013. The 20 Principles All Animal Trainers Must Know. Wakan Tanka Publishers.

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Um profissional ou um pirata?—Uma visão antrozoológica

No mundo do treino animal deparamo-nos com a essência do homem primitivo na criação de grupos dentro da sua tribo.

O facto de não existir uma profissionalização da atividade a nível mundial, leva-nos a discussões longas, a maioria ideológicas ou moralísticas.

No âmbito antrozoológico, que também engloba a componente filosófica, raciocino bastante sobre esta questão, sem julgamentos ou pensamento dogmático. Eu utilizo o raciocínio crítico. A minha maior reflexão é do porquê desta atividade não ser profissionalizada visto que os animais não-humanos estão a viver sobre os nossos caprichos há milhares de anos e do porquê do pouco reconhecimento existente ainda estar preso às correntes das utilizações dos animais para fins sociais, económicos e políticos. O próprio desdém pela atividade e a forma como é menosprezada é alarmante, porque assim abre uma porta enorme a piratas.

Não é a minha função afirmar o que é certo ou errado, mas sim um dever escrever a forma como eu vejo esta situação através de um raciocínio dedutivo, deixando para vossa análise as várias diferenças do discurso argumentativo vs discurso retórico, entre opiniões e afirmações e entre factos e falácias.

Também não coloco em questão o gosto e dedicação de todos os grupos pelos animais não-humanos, o meu papel nunca será de juiz, afinal concordância e respeito pelas pessoas são dois conceitos diferentes e características individuais de cada indivíduo.

Eu sempre gosto de fazer as distinções destes termos para que sigamos todos a mesma linha de raciocínio, porque não é raro a utilização destes termos sem o conhecimento do verdadeiro significado:

  • Pensar é a atividade da mente que tenta fazer sentido dos acontecimento da vida, podemos pensar o que nos apetecer sem qualquer tipo de esforço, o que nos faz querer ou desejar algo.
  • Raciocinar é um processo que nos ajuda a aceitar ou rejeitar afirmações feitas por nós próprios ou pelos outros.
  • O pensamento dogmático caracteriza-se por uma aderência firme e cega a um certo conjunto de instruções.
  • O pensamento crítico reconhece e aprecia as diferenças contextuais e a sua complexidade, rejeitando conclusões prévias e aceitando conclusões mais adequadas.
  • Uma premissa é uma sentença declarativa que serve de base para um raciocínio, o que levará a uma conclusão.
  • Um argumento é um conjunto de várias premissas ou justificações que levam a uma conclusão. Este processo pode ser bom ou mau, mas nunca verdadeiro ou falso. Os argumentos podem ser explícitos (quando as premissas que levam à conclusão são todas declaradas) ou implícitos (quando as premissas que levam à conclusão são sub-entendidas). Estes últimos são muito utilizados a nível publicitário. Também podem ser classificados como válidos ou inválidos, fortes ou fracos, convincentes ou não.
  • Uma falácia é o erro na formulação de um argumento.
  • Uma opinião é a expressão de uma crença subjectiva ou uma tomada de posição sobre um determinado assunto, nem sempre assentada em premissas verdadeiras, e a maioria das vezes assentada em motivos emocionais ou pressões sociais.
  • A retórica é a arte de falar e convencer os outros sem ter em consideração a verdade das premissas.

A minha analogia ao “pirata” segue a sua definição de adjetivo de não ser original e/ou na definição informal de um indivíduo ardiloso.

Quando trabalhamos com seres vivos, devemos ter a ciência sempre como base de tudo e não o pensamento dogmático, retórica ou falácias de generalização e excepção.

É de extremo interesse refletir as batalhas grupais dentro das tribos modernas sobre este assunto e tentarmos com questões diretas chegar a várias respostas possíveis de implementação imediata.

De momento, classifico três tipos de grupos com os respectivos sub-grupos :

  • (1) Grupos que reconhecem a sua glória através de demonstrações de poder (trofeus, medalhas, diplomas) na sua maioria com animais previamente selecionados e treinados de forma contínua para o efeito, por vezes com a necessidade de uma rápida aprendizagem devido a condicionamentos temporais, divergindo a realidade da necessidade social. Estes grupos subdividem-se em (a) indivíduos que apenas se dedicam a atividades específicas que estão credenciados ou reconhecidos pelos devidos clubes desportivos ou possíveis entidades governamentais, em ambos os casos, e repito, somente para a atividade específica; (b) Em indivíduos que utilizam as demonstrações de poder para generalizar a atividade a outras áreas da atividade como se fosse tudo uma só verdade; (c) Em indivíduos que juntam os dois sub-grupos acima e os utilizam como forma de persuasão, intimidação ou simplesmente de rebaixamento do próximo; (d) E em indivíduos que utilizam a sua glória apenas para fins lúdicos e/ou pessoais.
  • (2) Grupos que reconhecem a sua glória através de formações, leituras, serviços sociais e atividades similares. Estes grupos subdividem-se em (a) indivíduos que necessitam de atualização permanente na sua área específica de atuação; (b) Em indivíduos que se regem bastante pela teoria e a prática está limitada a essa teoria, tendo como demonstração animais previamente selecionados e de preferência já com uma boa aprendizagem do que vai ser demonstrado; (c) Em indivíduos que através da sua experiência em determinada atividade que envolvam animais não-humanos começam a trabalhar com os mesmos sem prévio conhecimento científico mas por imitação teórica/prática; (d) Em indivíduos que equilibram a teoria com a prática, com os próprios limites auto-impostos da atividade específica, que procuram uma constante melhoria mesmo que iniciem-se noutras áreas da atividade; (e) E em indivíduos que, pela constante presença em eventos, workshops ou outras atividades teóricas, iniciam a sua atividade. Dentro deste último sub-grupo, subdividimos (e1) em indivíduos que sempre procuram atualização com o conhecimento dos seus limites e (e2) em indivíduos que criam pensamentos dogmáticos, não saindo da teoria. Dentro deste grupo também é commumente vermos demonstrações de poder ou os factores temporais da aprendizagem do grupo acima (principalmente em empresas) e algumas características do grupo seguinte.
  • (3) Grupos que reconhecem a sua glória pela experiência pessoal e/ou pseudo conhecimento através de leituras sociais sobre o assunto (pesquisa google e imitação básica de profissionais existentes). Estes grupos subdividem-se (a) em indivíduos que têm como exemplo apenas cães próprios e criam um conhecimento universal; (b) Em indivíduos que iniciam a atividade sem qualquer conhecimento científico e puramente com pensamento económico (estes utilizam a retórica e argumentos implícitos), criando verdades absolutas, a necessidade para as pessoas, garantias de resultados, o encobrimento do seu trabalho ou a prática devidamente selecionada, de preferência que possa trazer protagonismo ou criar empatia social, a maioria relacionada a projetos sociais. Este sub-grupo é adepto de ter várias decorações na vestimenta (patches, medalhas, etc…) como forma de persuasão ou credibilidade e tem interligações diretas com os grupos acima.

Existem também qualificações especificas que são deturpadas ou generalizadas que apenas são obtidas a nível universitário. Não seria muito diferente de um oftalmologista fazer trabalhos dentários porque a sua “área de atuação” é próxima uma da outra.

É uma questão de equilíbrio, nem muito tempo só com teoria nem muito tempo só com prática, é assim que se originam extremismos e incoerência em todos os grupos. Não é culpa nossa, é a nossa essência cultural e social. Mas podemos mudar.

Será que ao termos Profissionais e Piratas em todos os grupos, uma discussão dos pontos em comum entre os grupos será o ponto de partida para reflectir sobre as discordâncias e tentarmos todos remar para o mesmo lado: O “tal” do Bem-estar animal?

Agora cabe a si analisar e decidir: Um Profissional ou um Pirata?

Nota pessoal do autor:

Eu vejo tanta preocupação na mudança, mas um silêncio impera na altura de se falar.

A falta de reconhecimento e profissionalização da atividade conjugada pela ânsia por títulos e etiquetas para o que fazemos abre um nicho enorme para os piratas. De momento há especialistas e treinadores formados em seminários, onde a “ciência” que tanto falam é aprendida em slides, grupos sociais e artigos, de preferência com palavras bonitas. Títulos que somente a nível académico e com vários anos de estudo se conquistam (behaviourist e master incluído), são usados para cursos de poucas horas.

Aos apoiarmos os piratas também seremos um. Questiono onde está o tal do bem-estar animal que vende tanto?

Questionem todos os “profissionais” e peçam os seus certificados e diplomas. Sejam rigorosos. Tenham em mente que diplomas de áreas operacionais ou desportivas não dão necessariamente competências para terapias comportamentais e outro tipo de metodologia de ensino social; Seminários ou outros tipos de eventos não formam pessoas; Cursos somente teóricos ou conhecimento estritamente empírico não dão as competências necessárias às pessoas sobre a realidade.

Não vejo um futuro promissor para os animais não humanos se as pessoas não forem mais exigentes, proativas e saírem do “rebanho”, mas num mundo onde os fatores económicos, sociais e políticos são a prioridade, quem realmente se importa com eles?

Referências

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WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

Potencialmente perigosos ou potencialmente em perigo?

Não sou politicamente correto. Não o devemos ser quando falamos de seres vivos.

Devido ao meu trabalho diário com várias espécies e famílias com animais de estimação, diariamente questiono-me e reflicto sobre a interação humano-animal e procuro incessantemente um equilíbrio social para que ambas as espécies vivam em harmonia.

Desta forma, e devido ao constante mediatismo sobre algumas raças, cabe-me livremente escrever alguns factos, comentar as situações recentes e questionar outras, deixando claro que é um artigo baseado em estudos atuais, factos científicos (Ver todas as Referências no final do artigo) e pela experiência prática de resultados eficazes que diariamente comprovo e questiono como forma de auto-imposição de atualização regular na área.

A quem não concordar, peço apenas que apresente argumentos que tenham uma validade factual na comunidade científica como eu vou colocar e disponibilizar no final da página e convido à leitura. Caso contrario, são meras opiniões pessoais embelezadas socialmente ou por simples frustrações e sem validade factual, as quais dispenso solenemente. Os cães merecem mais do que simples demonstrações de poder do homem primitivo.

A ciência não tem bom nem mau ou é uma verdade absoluta, a ciência é o que é e diariamente é questionada e estudada, cabe às pessoas seguirem ou não os estudos recentes na área.

Segundo o U.S. Department of Health & Human Services, nos Estados Unidos, aproximadamente 4,5 milhões de mordidas de cães ocorrem a cada ano, num universo estimado de 78 milhões de cães (2016). 41 dessas mordidas resultaram em morte (0.00000053%), sendo 18 em adultos acima dos 30 anos, 13 em crianças com 9 anos ou menos e 10 em recém-nascidos entre os 3 e os 6 dias.
FONTE: http://www.dogsbite.org/dog-bite-statistics-bibliographies-government-studies.php

Em todas as sociedades existem o estereótipo de algumas raças como “más” e “perigosas”. O próprio poder legislativo dissemina essa tendência ao criar legislação própria para determinadas raças de cães e colocá-las em especial condição de treino. Estamos assim a condenar grupos e não indivíduos. Querem tratar dos sintomas sem tratar do verdadeiro problema: Falta de conhecimento social e a limitação profissional de escolha imposta pela falta de regulamentação da própria legislação.

O processo de domesticação do cão (Canis lupus familiaris ou—agora commumente chamado no meio científico de—Canis familiaris ) estima-se que começou entre os 15.000 e os 30.000 anos atrás. Desde então, a seleção natural do cão foi gradualmente sendo desrespeitada. A seleção artificial por via dos humanos começou a imperar para que a espécie fosse “ajustada” à necessidade humana. A própria deterioração social intra-espécie em grupo começou a deteriorar-se, como demonstram estudos efetuados em 1991, 2004 e 2007 que comparou os índices de interações agonísticas num grupo de lobos (Canis lupus) e em vários grupos de cães, agrupados por raças (Feddersen-Petersen, ler nas referências). Esta espécie teve uma linha de tempo de adaptação natural muito curta num contexto evolucionário, em menos de 10 anos, os cães começaram a ser confinados em apartamentos ou espaços fechados, aumentando exponencialmente os problemas comportamentais.

Os próprios processos de imprinting e desenvolvimento da espécie estão a ser manipulados consoante as estratégias de marketing ou tendências sociais, sempre em prol do “Bem-estar animal”, dizem. E isto é somente a ponta do icebergue.
Os conceitos humanísticos e moralisticos em criar uma “cidadania” para os animais domésticos está a criar um paradigma na forma da ação política. Por um lado, temos uma legislação somente teórica que segue princípios de proteção meramente humanitários sem ter em conta as necessidades naturais individuais da espécie. Por outro, apenas nos são dadas obrigações sem qualquer tipo de formação ou informação. E ainda dentro dessa legislação, temos uma discriminação de raças (grupo), com regras e deveres específicos que devem ser seguidos. Mesmo as entidades fiscalizadoras tiveram uma formação bastante limitada, onde a maioria das vezes desconhece a própria lei e não sabe distinguir ou assinalar as raças em questão.

Entramos assim num círculo político perigoso, onde a lei protege totalmente uma espécie, mas por outro lado condena previamente vários grupos da mesma.
De momento, Portugal é um desses exemplos. Com sete raças consideradas “potencialmente perigosas”.

A lei portuguesa considera potencialmente perigoso qualquer animal que, devido às características da espécie, comportamento agressivo, tamanho ou potência de mandíbula, possa causar lesão ou morte a pessoas ou outros animais.

A própria definição por si só num contexto científico não tem qualquer fundamento ou argumento para que apenas determinadas raças estejam incluídas. Temos apenas uma definição vaga, feita de propósito para irem incluindo raças conforme considerem necessário. E vamos por partes:

Sendo assim, e perante todos estes factos, cabe-me fazer algumas questões sobre estas situações. Será de todo importante questionarmos a quem de direito e lançarmos esta discussão em praça pública se realmente queremos mudar algo. Quem permanece no silêncio ou isenção, compactua de forma criminosa com estas situações, por mais que possa dizer o contrário.

Com a política de proteção animal atual, é inadmissível que haja esta classificação de um grupo específico de raças e suas variantes. É dada a entidades específicas uma total liberdade para ministrar esta formação sem existirem consultorias externas e/ou internacionais sobre formação de detentores em ambiente social.

Vai abrir-se um precedente muito perigoso em Portugal que deve ser já parado antes de ter consequências desastrosas.

Os temas apresentados e a duração das formações são um atentado ao bem-estar animal e política atual de proteção animal e à própria ciência caso seja seguida uma linha de treino que em nada é realista com as necessidades individuais, com a sociedade ou com o ensino social atual praticado pelo mundo inteiro com fundamentos e bases científicas atualizadas.

As questões urgentes que se deve colocar a quem irá efetuar determinadas certificações no âmbito da sociedade civil perante a legislação atual são:

  • Qual a periodicidade da revisão desta lei e quais os critérios para tal?
  • Qual a formação dos instrutores destes cursos além de metodologias e conhecimentos além das suas áreas de atuação? Como podem os mesmos demonstrarem estarem aptos para tal certificação?
  • As formações e certificações dadas vão ser baseadas aos treinos operacionais das mesmas?
  • Quantos cães destas raças estão ao serviço dessas entidades para que sejam somente eles a ministrar essa formação?
  • Depois desta certificação de um dia aos treinadores, estarão eles aptos para fazer treinos e modificação comportamental, assim como terapias comportamentais a cães que apresentem determinados comportamentos indesejáveis e outros programas de modificação complexos?
  • Caso nem haja formação mas somente testes teóricos e práticos de um dia (o que realmente prevejo acontecer como forma de “acelerar” o processo), como se selecionarão os candidatos tendo em vista que a atividade profissional não é regulamentada no País?
  • Como justificam proibir os candidatos de usarem determinados materiais se as entidades avaliadoras os utilizam diariamente na rotina de treino? E quais os critérios científicos que os utilizam tendo como base os estudos mais recentes sobre as consequências a médio longo prazo desses materiais nos cães?
  • Segundo a lei, um cão perigoso é todo o cão que já tenha mordido ou ferido alguém, ou atestado como perigoso pelo veterinário. Sendo assim, em apenas uma hora serão abordados tantos assuntos que permitem a habilitação de um treinador para tal?
  • Os detentores vão ter uma formação de quatro horas, que critérios foram utilizados para que essa duração seja suficiente? Que prova teórica ou prática é feita?
  • Os detentores terão uma abordagem à mordedura? Não deveria essa sensibilização ser efectuada e disponibilizada a nível nacional como prevenção em todas as raças?
  • Seguindo a filosofia da questão acima, pode-se premeditar que a formação vai basear-se somente na apresentação de um cão próprio, de outra pessoa, ou da própria entidade e com regras de modalidades desportivas? Onde isso se enquadra no real contexto social?
  • Que critérios científicos fundamentam a teoria e prática destas formações? Quais as instituições procuradas e que pessoas delinearam as mesmas?
  • Quais os critérios para que os limites de trela para as raças potencialmente perigosas estejam limitadas a um metro, e por sequência, qual a definição de um passeio tendo em conta as necessidades naturais da espécie e a promoção da socialização?
  • Qual o critério cientifico para que o treino seja efetuado somente a partir dos 6 meses de idade, tendo em conta que o período de socialização é muito anterior a essa data?
  • Qual o modelo e programação de treino que serão efetuados pelas escolas? Fica ao critério individual? Quais as bases para tal?

Estas perguntas são precisas e de resposta direta. Perguntas que muitos não fazem por medo de represálias. Pessoalmente não serei hipócrita em não concordar mas depois ir fazer essas certificações que estão contra o conhecimento da natureza da espécie, da actualidade científica e dos meus princípios.

Não estaremos a ajudar na luta pela mudança a compactuar com esta situação, estamos antes a confirmar que o modelo antigo que tanto se critica está correto.
Esta lei é um “lavar de mãos” que, devido à urgência de se apresentar algum resultado, vai se basear nas próprias limitações nacionais em relação a este assunto. E olhando para um futuro não muito longínquo, a consequência de todas as exigências e limitações levará à própria extinção dessas raças no território nacional, certamente o objetivo final camuflado de forma sútil como este processo tem sido levado e calado por tantos “defensores”.

Estes argumentos anteriores como base tantos condicionantes na interação dessas “raças” com a própria espécie e com o agravante da ignorância social ao verificar um cão de açaime e/ou com um laço amarelo na trela (aconselho pesquisa).

Até lá, factores económicos estarão acima do “tal do bem-estar animal” e certamente muitos lobbies internos nos treinos dessas raças em escolas civis mesmo sem ordem superior irão acontecer. Basta uma simples pesquisa google e verão que muitos indivíduos estão a fazer treinos civis sem autorização superior, muito menos regulamentada, sob a cobertura de clubes desportivos, associações sem fins lucrativos ou “regimes de voluntariado” em escolas/empresas. E a grande maioria dá “formação de treinadores” baseadas pura e simplesmente em técnicas operacionais ou desportivas.

É importante termos em atenção que a agressividade não é uma característica da raça mas sim um comportamento apresentado com uma função específica, numa situação específica. Importante também é ressaltar que a escolha destas raças são meramente sociais e não científicas, caso contrário, em todo o mundo as raças “potencialmente perigosas” seriam as mesmas e não divergiam de País para País conforme se constata numa rápida pesquisa na internet. Mais uma razão de que o problema está na educação e conscientização social.

A solução?

  • Recomendo uma revisão urgente desta legislação e implementar um curso nacional para todos os detentores de cães, independente da raça, com matérias adaptadas à realidade social e científica, com a formação profissional de treinadores em instituições científicas internacionais aliadas a escolas que sigam metodologias e conhecimentos atualizados com uma taxa reduzida e benefícios sociais para os detentores e os seus cães. A formação/reconhecimento profissional e legislação deve ser alargada a todas as áreas de serviços pet, inclusive pet-sitting, dog walking e todas as variantes.
  • As matérias teóricas não devem ser menos do que 8 horas de formação sobre legislação, comportamento e linguagem canina, conhecimentos básicos de primeiros-socorros e a interação com os cães. A componente prática não menos de 10 horas em vários ambientes interno/externo com metodologias atualizadas de ensino canino e adequar o programa à necessidade de cada cão, porque a experiência diz-me que não são técnicas padronizadas para todos os cães que vão prevenir problemas, e a ciência demonstra as consequências de várias metodologias generalizadas aplicadas no treino. Baseado nestes estudos, será necessária a própria proibição e criminalização do uso de determinados métodos e materiais de treino, conforme a nova lei de proteção animal em Madrid e as normas em alguns países europeus, dentre eles a Dinamarca. Algo que já deveria acontecer de acordo com o Decreto de lei 13/93, Capítulo II, artigo 7.
  • É necessário também um curso personalizado para todos os detentores com cães a partir dos 2 meses (e não 6 meses), iniciativas sociais de informação e uma legislação que realmente funcione na prática, criando um excelente início na mudança da mentalidade social. Estereotipar determinadas raças é um crime à ciência e às sociedades que, mesmo com determinadas raças proclamadas (potencialmente) perigosas, seguem políticas de educação social nesse sentido. Socialização dos cães aos mais diferentes estímulos da sociedade logo a partir das 8, 9 semanas e a educação das famílias é a urgência.
  • Todas as formações que faço aos detentores de cães na Dinamarca e tenho total conhecimento noutros países da Escandinávia, têm uma eficácia elevada no âmbito de ensino social e sem a necessidade do uso de determinados materiais que causam dor e medo aos cães mesmo num contexto desportivo ou operacional. Aliás, a grande maioria desses materiais é PROIBIDA nesses países. Faço sempre questão de publicar fotos e vídeos a demonstrar. E sim, na Dinamarca e em vários países também há determinadas raças que são discriminadas.
  • Transmitir o conhecimento real e adaptar as necessidades de treino ao indivíduo é a chave para a mudança e criar uma consciencialização social sem “achismos”. Não tenhamos medo de perguntar, caso contrário, sintam vergonha sempre que possam comentar estes assuntos publicamente.
  • Não cabe a mim dizer o que é certo ou errado, simplesmente as sociedades necessitam de fugir dos eufemismos e camuflagem da realidade e decidirem de forma clara e concisa o que realmente querem, longe dos espectáculos políticos. Andamos de momento a tentar agradar o mais possível e a pensar o menos necessário.
  • Não quero dizer com o texto acima que ao implementar-se o conjunto de soluções nunca mais haverão mordidas. Mordidas sempre haverão. Mas, ao pensarmos seriamente no assunto sem influência externa, chegamos à conclusão que estes assuntos somente são noticiados debatidos por alguns dias (antes de caírem novamente no esquecimento) quando são determinadas raças. E quando não há confusão entre raças, porque as próprias autoridades as confundem na rua, o que é vergonhoso.
  • O foco da prevenção e formação das pessoas deve ser incluída até em materiais escolares. 2 ou 3 folhas num livro escolar a ensinar às crianças como interagir com um animal doméstico não é um favor, é uma necessidade, conforme apontam as estatísticas no início deste artigo. De momento apenas se debate os “perigos” de 7 raças, quando o real perigo é o “desconhecimento social sobre os cães” misturado com a falta de civismo (desde o apanhar dejetos à delinquência de andar com cães soltos sem respeito pelos restantes) e de nada adiantam reportagens ou entrevistas se nada mudar.
  • Quais os critérios e “especialistas” que definiram estas raças como potencialmente perigosas? Certificações específicas para determinadas raças não resolverão o problema, pelo contrário, vão sim criar ainda mais um fosso de ignorância que em nada ajuda a nossa sociedade.

Dispenso e pessoalmente envergonho-me com esses protagonismos de ocasião.
Seria interessante também a própria comunicação social noticiar de acordo com o seu código deontológico, e utilizar o seu poder de influência social para consciencializar e denunciar estas situações em vez de utilizar o próprio mediatismo de ocasião. Será que a guerra pelas audiências estará acima da verdade que deveriam se reger?

Não é vergonha pedir ajuda. Os cães não querem, troféus ou filosofias extremistas que nós os humanos teimamos em continuar a ter para com eles, eles apenas desejam o nosso respeito e compreensão. É esse o nosso dever.

Referências e estudos
ABRANTES, R. (1997). The Evolution of Canine Social Behavior. Wakan Tanka Publishers.

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BARATA, R. (2016). Cães na Dinamarca.

Efeitos a longo prazo de treinos com colares elétricos.

Comparação do stress e efeitos de aprendizagem com três tipos de metodologias de treino.

DEMELLO, M. (2012). Animals and Society: An introduction to human-animal studies. Columbia University Press.

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SZÉKELY, T. (2010). Social Behaviour, Genes, Ecology and Evolution. Cambridge University Press.

Dominância—Uma visão científica

Actualmente, o ambiente virtual tem um mundo de conhecimento a explorar, mas como animais humanos que somos, por vezes preferimos nos juntar aos grupos de dentro sem consultar a realidade factual de alguns assuntos. Esse efeito bola de neve é perigoso e promove a ignorância, nada benévolo quando queremos mudar o mundo e mais perigoso ainda quando ensinamos pessoas que irão ensinar outras.

Querer fazer do comportamento animal uma “conclusão blindada” é um ato criminoso que o eleva a um campo dogmático, que tenho a certeza ser o oposto do objetivo desses grupos.

Pessoalmente, não sigo correntes ou textos moralmente aceites. Sigo a ciência e os seus factos que diariamente são colocados em dúvida e estudados. Defendo ainda que não é a camuflar ou ignorar conceitos que eles não serão seguidos, pelo contrário, geram mais confusão, fundamentalismos e incoerência.

Necessitamos de estudá-los e explicá-los na realidade com a mente aberta e separar esses conceitos das utilizações que os humanos fazem (mais precisamente no treino animal), porque são dois assuntos completamente distintos, espécies diferentes comunicam de forma diferente.

“Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller. Essa mudança é a transmissão real do conhecimento sem moralismos, somente assim faremos a mudança.

Compilei um conjunto de matérias e pesquisas de cientistas do mundo animal. Este assunto já chegou ao ponto de misturas de comportamentos com estados de espírito, adulterações de autores e ao cúmulo do argumentum ad verecundiam.

Espero que estes tópicos factuais possam elevar o vosso raciocínio crítico e pensamento lógico sobre os assuntos, somente assim conseguimos fazer a mudança. Apesar de fazer por tópicos, este artigo será um pouco longo ao complementar com a leitura dos links fornecidos e das referências bibliográficas. Para o bem do seu conhecimento, perca um pouco de tempo a ler e poder ter um argumento bem fundamentado e devidamente comprovado quando falar de determinado assunto.

Clique nos tópicos para aceder aos assuntos (em inglês).

  • Dominância, submissão, hierarquias, etogramas e todas as definições científicas sobre o assunto. Artigo do Dr. Roger Abrantes.
  • Dominância e agressividade— Raciocínio crítico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.
  • Artigo do Dr. Simon Gadbois sobre a dominância e a punição.
  • Etograma canino—Comportamento social e agonístico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.
  • Artigo do Dr. Marc Bekoff com o depoimento do Dr. David Mech a afirmar que nunca rejeitou a noção de dominância.
  • Dominância e Pseudo-ciência. Artigo do Dr. Marc Bekoff.
  • Os cães demonstram dominância. Artigo do Dr. Marc Bekoff com vários estudos e outros artigos sobre o tema.
  • Estudo sobre relações de dominância em grupos de Canis lupus arctos.
  • Estudo com análise quantitativa da dominância nos cães domésticos.
  • Artigo do Dr. David Mech em 2011 que afirma não haver problema de utilizar o termo “alpha” em alguns casos, que o problema foi a completa deturpação do termo (página 8).
  • Outro artigo sobre a dominância nos cães domésticos
  • Study about Age-graded dominance hierarchies and social tolerance in packs of free-ranging dogs.
  • Vários articos sobre hierarquias sociais.
  • Use of erroneous wolf generation time in assessments of domestic dog and human evolution.
  • Dr. Mech: Alpha Status, Dominance, and Division of Labor in Wolf Packs.
  • Dr. David Mech: Leadership in wolf, Canis lupus, Packs.
  • Imagem de capa: Canine Ethogram—Social and Agonistic Behavior. Roger Abrantes

    Referências bibliográficas recomendadas.

    ABRANTES, R. (1997). The Evolution of Canine Social Behavior. Wakan Tanka Publishers.

    ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka Publishers.

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    WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

    Treino científico ou moralista?

    Estamos em constante mudança. A necessidade faz-nos adaptar às situações e somente os que se adaptam são os que continuam. É a essência da natureza.

    Cada vez mais as sociedades adaptam-se às novas situações ou a própria espécie cria novas e complexas estratégias evolucionárias, através de grupos e/ou demonstrações de poder.

    A minha formação em Human-Animal Studies expandiu o meu raciocínio crítico, obrigou-me a fazer mais perguntas do que pode ser certo x errado dentro das culturas, de como elas estão em constante mutação e de como criamos uma verdade absoluta de que nada é absoluto.

    O pensamento lógico tem de ir além de livros ou autores, deve estar presente dentro de nós, fora de correntes moralísticas, argumentum ad verecundiam, ou falácias Ad hominen. Pior do que a ignorância, é deturpar o conhecimento obtido para opiniões pessoais.

    Como o treino animal está incluído neste pensamento? Pela formação de grupos, pela colocação de etiquetas ao próprio trabalho ou ao trabalho dos outros, o uso de eufemismos para a justificação de determinados materiais, o uso de conceitos que em nada condizem com o significado dos mesmos e a total deturpação da ciência para as restantes situações.

    O primeiro erro começa com o pensamento que a ciência é uma verdade absoluta. O processo científico em si não prova nada, a ciência pode na melhor das hipóteses “estar certa” sobre algo, podendo a todo o momento ser alterada consoante os resultados de novos estudos. Os estudos não provam, os estudos demonstram resultados estatísticos de determinada observação. O que hoje é A, amanhã pode ser B. O certo ou errado não existe nem pode existir na ciência. A ciência é o que é, baseada no estudo das evidências até agora apresentadas, não segue correntes, culturas ou opiniões pessoais.

    O segundo erro segue na continuação do primeiro erro, o uso da ciência para dizer o que está certo ou errado. Em etologia falamos em custo x benefício. O condicionamento operante fala de reforço x inibidor. Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. O + não significa que é bom nem o – significa que é mau. Assim como um um reforço não significa ser bom ou mau, nem um inibidor significa ser mau ou bom. A incorrecta interpretação destes conceitos cria etiquetas sociais onde a maioria dos utilizadores desses conceitos os desconhecem por completo e os tornam como A => Certo e B => Errado.

    O terceiro erro continua nesta sequência, a incorrecta interpretação de conceitos, desde comportamentos ao uso de outros conceitos/palavras que não condizem com a realidade, mas que são socialmente aceites. “Dominância” é uma das palavras proibidas ou banalizadas que mais discussão faz, simplesmente porque é interpretada incorrectamente e colocada em prática numa comunicação interespecífica através da nossa essência primitiva. Conceitos simples são deturpados, introduzidos no treino como desculpa para a limitação de conhecimento. O problema não são as palavras ou conceitos, mas a aplicabilidade individual que o humano lhes dá.

    O quarto e último erro é o extremismo e fanatismo. Reparo que existem de momento dois mundos no treino animal, o positivo e o negativo. Quem possa questionar o positivo é negativo e quem possa questionar o negativo é positivo. Quem não utilize a devida frase de um autor ou a utilize em determinado contexto, é automaticamente etiquetado. Quem possa questionar o uso do clicker não é positivo, quem possa questionar o uso de coleiras de choque é a “pessoa que enche a barriga aos cães com comida”. Entram-se em tantos conflitos ideológicos e egocêntricos que esquecemos que estamos a falar de outros seres vivos que necessitam de ser respeitados. Considero irónico no ponto de vista de que ambas as partes apregoam pela comunicação, assertividade, energia positiva e mente aberta.

    Em que lado estou? Em nenhum. Cabe a cada um de nós decidir como pretende que seja a relação e comunicação com a outra espécie. Questione => Estude => Raciocine => Pratique => Questione.

    O que é certo para mim pode ser errado para si e vice-versa.

    Nada é absoluto, e se queremos estar atualizados, devemos estudar e questionar diariamente sem medo de assumir que estamos errados. Não camufle, generalize ou ignore conceitos, compreenda-os, explique-os corretamente, pratique e demonstre em vários indivíduos da espécie que treinar e não apenas em indivíduos previamente selecionados.

    O conhecimento é o novo modelo de mudança, e a tal mudança não pode estar condicionada a pensamentos A ou B, nunca se esqueça que tem um alfabeto para explorar. E se não se adaptar ao conhecimento, a seleção natural fará o seu papel.

    “Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller.