Recompensa ou Reforço? vs Punição ou Inibição?

É comum nos dias de hoje ouvirmos diferentes termos no treino animal, principalmente no treino canino, que têm (supostamente) na prática a mesma aplicabilidade.

Ao longo destes anos percebi que muitos termos são utilizados devido a um próprio condicionamento social no uso de determinados termos por soarem melhor nos ouvidos. Vários profissionais utilizam e ensinam esses termos às futuras gerações em nome da própria ciência.

Algo que me identificou bastante com o Ethology Institute foi o gosto por dicionários e de seguirmos padrões científicos precisos quando falamos de algo, afinal todos nós aplicamos a ciência na prática e antes de fazermos necessitamos de saber do que estamos a falar.

Considero importante os profissionais primeiramente saberem as definições dos termos que utilizam e depois decidirem por sua consciência se consideram apropriado utilizá-los mesmo não seguindo o padrão científico. Cada um é livre de escolher que tipo de profissional quer ser e que tipo de profissionais quer formar.

Palavras como “reforço ” e “punição”, sempre são faladas já com determinadas conotações, algo desfasado da ciência como já escrevi neste artigo.

Precisamos assim refletir sobre determinados termos e decidir por nós próprios se queremos seguir termos científicos ou termos socialmente aceites.

Um dos mais comuns é a palavra “Recompensa”.

Uma recompensa é uma retribuição, compensação por ação meritória; ato ou efeito de recompensar; Prémio; Galardão.

Um reforço/reforçamento é um processo onde certa resposta torna-se fortalecida como resultado de uma aprendizagem.
Ou
É tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento em particular quando apresentado—Reforço positivo (+)—ou removido—Reforço negativo(-)—em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento ser apresentado.

Ocasionalmente, o uso da palavra “recompensa” e a fraca explicação do que a palavra significa por parte de quem a usa induz em erro muitas famílias com animais de estimação, e não muito raro transmite a informação que estamos a “subornar”, criando etiquetas sociais ao trabalho das pessoas e descredibilizando um grupo inteiro caso algo não funcione.

O próprio Skinner em 1987 contestou o uso desse termo ao escrever que “O efeito de fortalecimento é perdido quando os reforços são chamados recompensas (…) As pessoas são recompensadas, mas o comportamento é reforçado.”

O mesmo se passa com “Punição” ou “Castigo”

Essas palavras traduzidas diretamente do Inglês tem conotações muito negativas e em muitos países até religiosa.

Também é comum esta palavra ser automaticamente conotada como algo mau.

Uma punição é um acto ou efeito de punir; Uma pena; Um castigo imposto a alguém.

Um inibidor é algo que produz uma inibição; que ou o que possui a a capacidade de diminuir ou suprimir a atividade de uma substância orgânica.

Assim,resultando de toda a sua experiência linguística ao longo destes anos pelo mundo, o Dr. Roger Abrantes começou a utilizar a palavra inibidor no conceito operante por cientificamente melhor se adequar à definição.

Desta forma, um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento em particular quando apresentado—Inibidor positivo (+)—ou removido—Inibidor negativo(-)—em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento ser apresentado.

Todas as conotações dadas a termos de forma a serem socialmente aceites em nada ajudam na transmissão do conhecimento tanto para famílias com animais de estimação como para futuros profissionais que apreendem diretamente estes termos e os colocam em negação quanto ao uso prático destes termos, nem no respeito que a própria ciência merece. A ciência não é boa nem má, a ciência é o que é.

Eu defendo a clarificação e o real conhecimento científico de determinados termos, os extremismos e condicionamentos da própria sociedade não ajudarão os profissionais existentes nem os futuros a terem um pensamento crítico no que fazem, algo que considero fulcral quando estamos a lidar com outros seres vivos e os devemos respeitar como tal.

Sem julgamentos, deixo para nossa reflexão e decisão:
– Cientificamente, estamos a recompensar/punir o cão ou a reforçar/inibir o seu comportamento?
– Seremos realmente precisos connosco quando estamos a trabalhar com outra espécie ao ponto de termos a noção de que aplicar um reforço/inibidor standard nem sempre funciona?
– Será correto colocarmos etiquetas no nosso trabalho como forma de marketing ou correntes sociais, quando na verdade cientificamente ao aplicamos reforços ou inibidores nas interações interespecíficas não significa estarmos a ser “bons” ou “maus”?
– Será mais correto utilizar palavras fáceis socialmente saturadas ou explicar de forma simples a definição científica e os termos corretamente?

Esteja sempre na dúvida do que lê e ouve, procure sempre mais e pense sempre por si. Carpe Diem!

Referências

ABRANTES, R. 2011. Unveiling the Myth of Reinforcers and Punishers.

ABRANTES, R. 2013. So you want to be a good dog trainer!

ABRANTES, R. (2013). The 20 Principles All Animal Trainers Must Know. Wakan Tanka Publishers.

BARATA, R. (2017). Scientific or Moralistic Training? Etologia.pt

GADBOIS, S. (2015). 51 Shades of Grey: Misuse, Misunderstanding and Misinformation of the Concepts of “Dominance” and “Punishment”.

GROSS, R. (2010). Psychology, the Science of Mind and Behaviour, Sixth Edition. Holder Education.

JOYCE, R. (2006). The Evolution of Morality. MIT Press books.

MCFARLAND, D. (2006). A Dictionary of Animal Behaviour. Oxford University Press.

MORRIS, D. (1969). The Human Zoo. Kodansha America, Inc.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic

Autor: Roberto Barata

Certified in Advanced Applied Ethology; Expert in Human Animal Studies; Animal Trainer and Instructor; Ethology Institute Tutor; Researcher; "Teach without Speech" project author.