Potencialmente perigosos ou potencialmente em perigo?

Não sou politicamente correto. Não o devemos ser quando falamos de seres vivos. Dispenso cinismo, falsidade, falácias e hipocrisias no mundo canino. O facto de ter sido “obrigado” a sair do meu próprio país e ter de recomeçar toda a minha profissional devido a teóricos de secretária e indivíduos com uma grande limitação de conhecimento e trabalho prático com cães que não sejam devidamente selecionados ou treinados por outros, deu-me uma liberdade enorme de escrever ou falar não o que bem entender, mas o que a experiência aliada os factos e estudos científicos demonstram, sem  estar preso a empregos que só visam o lucro, vender-me a marcas ou patrocínios, a utilizar palavras socialmente aceites, ou “cair na graça” de quem tem influência nalgumas certificações futuras.

Além de várias formações e acima de tudo experiência prática que vou adquirindo diariamente, a minha formação em Antrozoologia faz-me questionar diariamente a interação humano-animal e procurar incessantemente por um equilíbrio social para que ambas as espécies vivam em harmonia.

Desta forma, e devido ao constante mediatismo sobre algumas raças, cabe-me de forma PESSOAL escrever alguns factos, comentar as situações recentes e questionar outras, deixando claro que é a minha opinião pessoal baseada em estudos, factos científicos (Ver todas as Referências no final do artigo) e pela experiência prática de resultados eficazes que diariamente comprovo e questiono como forma de auto-imposição de atualização regular.

A quem não concordar, peço apenas que apresente argumentos que tenham uma validade factual científica como eu vou colocar e disponibilizar no final da página. Caso contrario, são meras opiniões pessoais embelezadas socialmente ou por simples frustrações e sem validade factual, as quais dispenso solenemente. A ciência não tem bom nem mau ou é uma verdade absoluta, a ciência é o que é e diariamente é questionada e estudada, cabe às pessoas seguirem ou não os estudos recentes na área.

Segundo o U.S. Department of Health & Human Services, nos Estados Unidos, aproximadamente 4,5 milhões de mordidas de cães ocorrem a cada ano, num universo estimado de 78 milhões de cães (2016). 41 dessas mordidas resultaram em morte (0.00000053%), sendo 18 em adultos acima dos 30 anos, 13 em crianças com 9 anos ou menos e 10 em recém-nascidos entre os 3 e os 6 dias.
FONTE: http://www.dogsbite.org/dog-bite-statistics-bibliographies-government-studies.php

Infelizmente não foi possível obter dados mais concretos de outros países, porque todas as outras estatísticas não têm fonte ou bibliografia que suportem as mesmas. Caso queira contribuir com mais estudos credíveis, enviem-me que eu atualizarei com os devidos créditos.

Em todas as sociedades existem o estereótipo de algumas raças como “más” e “perigosas”. O próprio poder legislativo dissemina essa tendência ao criar legislação própria para determinadas raças de cães e colocá-las em especial condição de treino. Estamos assim a condenar grupos e não indivíduos. Querem tratar dos sintomas sem tratar do verdadeiro problema: Falta de conhecimento social e a limitação profissional de escolha imposta pela falta de regulamentação da própria legislação.

O processo de domesticação do cão (Canis lupus familiaris ou—agora commumente chamado no meio científico de— Canis familiaris ) estima-se que começou entre os 15.000 e os 30.000 anos atrás. Desde então, a seleção natural do cão foi gradualmente sendo desrespeitada. A seleção artificial por via dos humanos começou a imperar para que a espécie fosse “ajustada” à necessidade humana. A própria deterioração social intra-espécie em grupo começou a deteriorar-se, como demonstram estudos efetuados em 1991, 2004 e 2007 que comparou os índices de interações agonísticas num grupo de lobos (Canis lupus) e em vários grupos de cães, agrupados por raças (Feddersen-Petersen, ler nas referências). Esta espécie teve uma linha de tempo de adaptação natural muito curta num contexto evolucionário.

Os próprios processos de imprinting e desenvolvimento da espécie estão a ser manipulados consoante as estratégias de marketing ou tendências sociais, sempre em prol do “Bem-estar animal”, dizem.

Os conceitos humanísticos e moralisticos em criar uma “cidadania” para os animais domésticos está a criar um paradigma na forma da ação política. Por um lado, temos uma legislação somente teórica que segue princípios de proteção meramente humanitários sem ter em conta as necessidades naturais individuais da espécie. Por outro, apenas nos são dadas obrigações sem qualquer tipo de formação ou informação. E ainda dentro dessa legislação, temos uma discriminação de raças (grupo), com regras e deveres específicos que devem ser seguidos. Mesmo as entidades fiscalizadoras tiveram uma formação bastante limitada, onde a maioria das vezes desconhece a própria lei e não sabe distinguir ou assinalar as raças em questão.

Entramos assim num círculo político perigoso, onde a lei protege totalmente uma especie, mas por outro lado condena previamente vários grupos da mesma.

De momento, Portugal é um desses exemplos. Com sete raças consideradas “potencialmente perigosas”.

A lei portuguesa considera potencialmente perigoso qualquer animal que, devido às características da espécie, comportamento agressivo, tamanho ou potência de mandíbula, possa causar lesão ou morte a pessoas ou outros animais.

A própria definição num contexto científico não tem qualquer fundamento ou argumento para que apenas determinadas raças estejam incluídas. Temos apenas uma definição vaga, feita de propósito para irem incluindo raças conforme considerem necessário. E vamos por partes:

– “Características da espécie”. a nível de taxonomia, Canis lupus familiaris é uma sub-espécie do Canis lupus que abrange todas as raças de cães conhecidas e não um grupo específico ou restrito de raças. De momento, novas correntes utilizam apenas Canis familiaris, pelo facto das novas raças presentes serem na sua maioria fruto da seleção artificial.

– “Comportamento agressivo, tamanho ou potência da mandíbula”. Compreende-se assim que a legislação afirma que só as sete raças apresentam comportamento agressivo. Além de não ter o mínimo de pesquisa, o legislador apresenta um total desconhecimento do que escreve. E assim o comprovo através de artigos de cientistas de renome mundial. Recomendo a leitura:  O que é agressividade e comportamento agressivo; Herança e ambiente. E já que queremos fazer a discriminação por raças, mais um estudo que demonstra o nível de agressividade entre raças. E se queremos ainda mais precisão, um estudo sobre a influência da dimensão craniana com a pressão mandibular e um estudo atual sobre o mapa genético do medo e agressividade dos cães.

Sendo assim, e perante todos estes factos, cabe-me fazer algumas questões sobre estas situações. Será de todo importante questionarmos a quem de direito e lançarmos esta discussão em praça pública se realmente queremos mudar algo. Quem permanece no silêncio ou isenção, compactua de forma criminosa com estas situações, por mais que possa dizer o contrário.

Com a política de proteção animal atual, é inadmissível que haja esta classificação de um grupo específico de raças e suas variantes. É dada a entidades específicas uma total liberdade para ministrar esta formação.

Vai abrir-se um precedente muito perigoso em Portugal que deve ser já parado antes de ter consequências desastrosas.

Os temas apresentados e a duração das formações é um atentado ao bem-estar animal e política atual de proteção animal, caso seja seguida uma linha de treino que em nada é realista com as necessidades individuais, com a sociedade ou com o ensino social atual praticado pelo mundo inteiro com fundamentos e bases científicas atualizadas.

As questões urgentes que se deve colocar a quem irá efetuar determinadas certificações no âmbito da sociedade civil perante a legislação atuas são:

– Qual a formação dos instrutores destes cursos além de metodologias e conhecimentos além das suas áreas de atuação?

– As formações e certificações dadas vão ser baseadas aos treinos operacionais das mesmas?

– Quantos cães destas raças estão ao serviço dessas entidades para que sejam somente eles a ministrar essa formação?

– Qual o critério de formação numa sociedade civil para os candidatos a treinadores terem de efetuar provas de mordedura com fato com um cão previamente selecionado?

– Depois desta certificação de uma hora teórica aos treinadores, estão eles aptos para fazer treinos e modificação comportamental, assim como terapias comportamentais a cães que apresentem determinados comportamentos indesejáveis?

– Segundo a lei, um cão perigoso é todo o cão que já tenha mordido ou ferido alguém, ou atestado como perigoso pelo veterinário. Sendo assim, em apenas uma hora serão abordados tantos assuntos que permitem a habilitação de um treinador para tal?

– Os detentores vão ter uma formação de quatro horas, que critérios foram utilizados para que essa duração seja suficiente? Que prova teórica ou prática é feita?

– Os detentores terão uma abordagem à mordedura? Não deveria essa sensibilização ser efectuada e disponibilizada a nível nacional como prevenção em todas as raças?

– Porquê um treinador necessita de ter provas de figurância? Quais os critérios desta formação no âmbito civil?

– Que critérios científicos fundamentam a teoria e prática destas formações? Quais as instituições procuradas e que pessoas delinearam as mesmas?

Estas perguntas são precisas e de resposta direta. Perguntas que muitos têm receio de perguntar com medo de represálias. Pessoalmente nunca tive esse medo, mesmo em ambientes militares pesados por onde passei parte da minha vida profissional. E pessoalmente não serei hipócrita em ter certificações que estão contra o conhecimento da natureza da espécie e dos meus princípios.

É importante termos em atenção  que agressividade não é uma característica da raça mas sim um comportamento apresentado com uma função específica, numa situação específica. Importante também é ressaltar que a escolha destas raças são meramente sociais e não científicas, caso contrário, em todo o mundo as raças “potencialmente perigosas” seriam as mesmas e não divergiam de País para País conforme se constata numa rápida pesquisa pelo google. Mais uma razão de que o problema está na educação e conscientização social.

A solução?
Recomendo uma revisão urgente desta legislação e implementar um curso nacional para todos os detentores de cães, independente da raça, com matérias adaptadas à realidade social e científica, com a formação profissional de treinadores em instituições científicas internacionais aliadas a escolas que sigam metodologias e conhecimentos atualizados com uma taxa reduzida e benefícios sociais para os cães.

As matérias teóricas não devem ser menos do que 8 horas de formação sobre legislação, comportamento e linguagem canina, conhecimentos básicos de primeiros-socorros e a interação com os cães. A componente prática não menos de 10 horas em ambiente real com metodologias atualizadas de ensino canino e adequar o programa à necessidade de cada cão, porque a experiência diz-me que não são técnicas padronizadas para todos os cães que vão prevenir problemas, e a ciência demonstra as consequências de várias metodologias generalizadas aplicadas no treino. Baseado nestes estudos, será necessária a própria proibição e criminalizarão do uso de determinados métodos e materiais de treino, conforme a nova lei de proteção animal em Madrid e as normas em alguns países europeus, dentre eles a Dinamarca. Fora o curso personalizado para todos os detentores com cães a partir dos 3 meses (e não 6 meses), iniciativas sociais de informação e uma legislação que realmente funcione na prática, complementarão um excelente início na mudança da mentalidade social. Estereotipar determinadas raças é um crime à ciência e às sociedades que, mesmo com determinadas raças proclamadas (potencialmente) perigosas, seguem políticas de educação social nesse sentido. Sociabilização dos cães e a educação das famílias é a urgência.

Todas as formações que faço aos detentores de cães na Dinamarca e tenho total conhecimento noutros países da Escandinávia, têm uma eficácia elevada no âmbito de ensino social. Faço sempre questão de publicar fotos e vídeos a demonstrar. E sim, na Dinamarca e em vários países também há determinadas raças que são discriminadas. 

Transmitir o conhecimento real e adaptar as necessidades de treino ao indivíduo é a chave para a mudança e criar uma consciencialização social sem “achismos”. Não tenhamos medo de perguntar, caso contrário, sintam vergonha sempre que possam comentar estes assuntos publicamente.

Não cabe a mim dizer o que é certo ou errado, simplesmente as sociedades necessitam de fugir dos eufemismos e camuflagem da realidade e decidirem de forma clara e concisa o que realmente querem e desejam, longe dos espectáculos políticos. Andamos de momento a tentar agradar o mais possível e a pensar menos que necessário.

Não quero dizer com o texto acima que ao implementar-se o conjunto de soluções nunca mais haverão mordidas. Mordidas sempre haverão. Mas, ao pensarmos seriamente no assunto sem influência externa, chegamos à conclusão que estes assuntos somente são noticiados debatidos por alguns dias (antes de caírem novamente no esquecimento) quando são determinadas raças. E quando não há confusão entre raças. O foco da prevenção e formação das pessoas deve ser incluída até em materiais escolares. 2 ou 3 folhas num livro escolar a ensinar às crianças como interagir com um animal doméstico não é um favor, é uma necessidade, conforme apontam as estatísticas no início deste artigo. De momento apenas se debate os “perigos” de 7 raças, quando o real perigo é o “desconhecimento sobre os cães”, e de nada adiantam reportagens ou entrevistas se nada mudar. Que critérios e “especialistas” definiram estas raças como potencialmente perigosas? Certificações específicas para determinadas raças não resolverão o problema, pelo contrário, vão sim criar ainda mais um fosso de ignorância que em nada ajuda a nossa sociedade. Dispenso e pessoalmente envergonho-me com esses protagonismos de ocasião.

Seria interessante a comunicação social noticiar de acordo com o seu código deontológico, e utilizar o seu poder de influência social para consciencializar e denunciar estas situações. Será que a guerra pelas audiências estará acima da verdade?

Não é vergonha pedir ajuda. Os cães não querem, troféus ou filosofias extremistas que nós os humanos teimamos em continuar a ter para com eles, eles apenas desejam o nosso respeito e compreensão. É esse o nosso dever.

 

Referências e estudos

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ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka.

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BARATA, R. (2016). Cães na Dinamarca.

 

Comparação das consequências no bem-estar dos cães com treinos de coleiras de choque vs treino baseado em reforço.

Comparação do stress e efeitos de aprendizagem com três tipos de metodologias de treino.

DEMELLO, M. (2012). Animals and Society: An introduction to human-animal studies. Columbia University Press.

DONALDSON, S. & Kymlicka, W. (2012). Zoopolis—A political theory of animal rights. Oxford University Press.

Feddersen-Petersen, D. The ontogeny of social play and agonistic Behaviour in selected canid species. Bonner Zoologische Beitrage. 1991;42(2):97-114

Feddersen-Petersen, D. Hundepsychologie: Sozialverhalten uns Wesen, Emotionen und Individualitat. Kosmos Verlag, Stuttgart; 2004

Feddersen-Petersen, D. Social Behaviour of dogs and related canids. In: Jensen P., ed. The behavioural biology of dogs. Trowbridge, UK,: Cromwell Press; 2007:105-119

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Lei de proteção dos animais de companhia atual em Madrid.

LORENZ, Konrad. (1981). The foundations of ethology.
Based on a translation of Vergleichende Verhaltensforschung, with revisions. Springer Science+Business Media New York.

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SZÉKELY, T. (2010). Social Behaviour, Genes, Ecology and Evolution. Cambridge University Press.

Uso de colares elétricos no treino de cães — Efeitos comportamentais a curto e longo prazo.

Autor: Roberto Barata

Certified in Advanced Applied Ethology; Expert in Human Animal Studies; Animal Trainer and Instructor; Ethology Institute Tutor; Researcher; "Teach without Speech" project author.