O modelo obsoleto do treino canino—uma visão antrozoológica

O treino canino teve as suas origens essencialmente na área militar fruto das suas características inatas, que fizeram (e fazem) do cão uma ferramenta útil. O treino foi posteriormente alargado em tempos de paz para as áreas desportivas, para o entretenimento humano e para o seu uso social.

Ao longo de mais de 50 anos são poucas as mudanças per se no treino animal, mais propriamente no canino. Isto porque o intitulado treino social/civil foi trazido da componente militar, ministrado pelos próprios elementos dessas áreas, trazendo a tradição e exatidão de um treino padronizado com metodologias onde todos devem responder da mesma maneira, sendo vendido como algo necessário para prevenir problemas comportamentais e que (também) visa a socialização dos cães.

Nos últimos 25 anos, o cão está cada vez mais próximo dos humanos. Durante esse tempo, várias formas de ensino de cães baseado no respeito foram implementá-las (ver nas referências Abrantes,1984). Contudo, a sociedade é vítima de uma ignorância comercialmente necessária e do fashionism, o que se traduz num afastamento inconsciente entre os humanos e a espécie canina e a preocupação de uma relação natural e compreensão mútua é substituída pela necessidade de a encher com ferramentas artificiais e (na maioria das vezes) desnecessárias e pelo uso de palavras socialmente aceites sem conhecer o seu real significado.

A nível antrozoológico, caracterizo e aplico esta área no treino animal, como já fiz em artigos anteriores. A visão que devemos ter é acima de tudo pragmática, tendo em conta a sociedade humana, as características naturais das espécies não humanas e uma mentalidade utilitarista baseada em estudos e estatísticas atuais, sendo completamente individual a reflexão e a decisão de (possível) mudança.

De acordo com as estatísticas internas atuais (Dinamarca) que temos sobre alguns temas da relação detentor-cão, saliento os tópicos mais relevantes de uma forma geral:

  • Os cães passam uma média de 21 horas fechados em casa, estando uma média de 7 horas sozinhos.
  • Quase a totalidade dos assuntos referentes a problemas indesejados dos cães e dúvidas de ensino por parte dos detentores são relativos a dentro de casa.
  • Os problemas dentro de casa mais relatados são (1)pular nas visitas, (2)problemas relacionados ao ficar sozinho em casa (3)sub-estimulação (4)mordiscar as mãos.
  • Os problemas fora de casa mais relatados são (1)falta de ligação entre o detentor-cão, (2)puxar na trela, (3)pular nas pessoas (4)ladrar a outros cães.

Dentro destas estatísticas, devemos (enquanto profissionais) refletir sobre os modelos existentes e da necessidade de os mudar ou mesmo extingui-los por tão obsoletos que são.

“Obsoleto” define-se como (1)caído em desuso, (2)que está fora de moda ou (3)que não corresponde aos últimos desenvolvimentos técnicos.

Tendo em conta o conhecimento atual da espécie, os estudos referentes a níveis de stress com diferentes metodologias (ver referências), é-nos possível caracterizar modelos obsoletos de treino canino que ainda teimam em continuar, na sua maioria porque é uma forma de “dinheiro fácil” e porque os intervenientes apenas o fazem como part-time ou forma de ter um rendimento mensal extra ou são modelos empresariais que necessitam de ser suportados dessa forma, porque “sempre foi assim”.

Características do modelo obsoleto de treino canino:

  • Turmas exclusivamente em linha ou em formato circular sempre num determinado lugar.
  • Checklist padronizado para todos o seguirem.
  • Uso de sons (apitos ou vozes de comando) para que todos executem os mesmos procedimentos ao mesmo tempo.
  • Treinos efetuados exclusivamente pelo treinador.
  • Treinos em regimes de internamento ou semi-internamento.
  • Cães soltos em quantidade sob a premissa de estarem a socializar.
  • Uso de ferramentas que visam obrigar o cão a executar as tarefas propostas, mesmo que haja a necessidade do uso de meios coercivos.
  • Teorias de lupomorphism e/ou babymorphism tanto para tratar problemas comportamentais como para o treino comum.
  • A não clarificação do que se faz nem porque se faz.
  • O uso constante do antropomorfismo devido à escassez de conhecimento científico sobre o treino e espécie.
  • O uso desmesurado de novas ferramentas ou palavras socialmente aceitas por via da imitação, não existindo nem o conhecimento científico nem técnico dos mesmos.

Quero deixar alguns pontos referente aos tópicos acima:

  • É necessário saber diferenciar comportamentos anormais de comportamentos indesejados. Comportamentos indesejados são comportamentos perfeitamente naturais da espécie mas que são indesejados para os humanos. Comportamentos anormais são todos os comportamentos que não são naturais da espécie e podem ter variadas razões.
  • É necessário saber diferenciar soltar cães com socialização. A socialização de cães é essencialmente ter um número reduzido de cães devidamente selecionados para a situação, tendo em vista uma interação saudável da espécie de forma a promover o ensino e aprendizagem das suas habilidades sociais intraespécie.
  • Treinos em regimes de internamento, semi-internamento ou efetuado pelo próprio profissional apenas afastam o detentor do cão e é um absurdo. Toda a família necessita de ser ensinada a saber comunicar com o seu cão, são eles que vivem com o cão.
  • Tendo em conta que os cães passam uma média de 21 horas fechados em casa, e a maioria dos problemas relatados são em casa, treinos exclusivamente externos, com checklist padronizados e condicionados somente a um espaço sempre da mesma forma não reflete a necessidade do cão nem das famílias, sendo um gasto de tempo, energia e monetário.
  • O uso de determinados materiais por parte dos detentores vai refletir-se na sua generalização e no afastamento de uma comunicação natural e da compreensão interespecífica.

Soluções?

  • A profissionalização da atividade tendo uma base completamente científica e estudos atualizados.
  • A separação do treino científico do treino moralista.
  • Ensino no domicílio, com a devida adaptação das necessidades naturais e individuais do cão, onde a família recebe uma componente teórica, tira as devidas anotações e é-lhes passado o “porquê das coisas”.
  • Toda a família deve estar presente e praticar.
  • Atividades exteriores complementares ao ensino ao domicílio em vários ambientes e com outros cães e detentores.
  • Um máximo de 4 detentores-cães por treinador ou assistente (o ideal são 3) para as atividades exteriores, para que se consiga individualizar o máximo possível.
  • A seleção e programação dos cães a socializar.

Nota do autor:

Em pleno século 21, onde o bem-estar animal, a ética e os seus direitos ainda são a ordem do dia, como é possivel nos descurarmos de algo tão fulcral como a educação interespecífica, que continua na sua maioria a seguir os modelos de controlo, poder e “obediência” como há 50 anos atrás ou modelos que em nada se enquadram no paradigma social?

Seremos nós prisioneiros eternos do condicionamento social sobre estes assuntos e recusamos a mudar e a acreditar em tudo o que lemos/ouvimos, ou teremos a coragem de dizer “basta” a tudo o que se passa descaradamente à nossa frente de todos mas que teimamos a permanecer cegos, e denunciar/combater todas as ilegalidades e desconhecimento dos intervenientes, camuflados por simpatia e sorrisos, com frases socialmente aceites e sempre em prol do tal do “bem-estar animal”, onde nem os animais não humanos nem os animais humanos são respeitados ou tomados em consideração pelos atos dessas pessoas?

O modelo de treino canino deve ser urgentemente revisto. O “treino” deve dar vez à educação familiar, a “obediência” dar lugar à comunicação natural e compreensão, e as garantias de resultados de cães mecanizados deve dar lugar à atualização do conhecimento e olhar para as outras espécies não como objetos que são para os humanos, mas como vítimas constantes da sociedade humana, onde tentamos todos sobreviver.

A escolha é nossa, este artigo foi baseado não somente no conhecimento empírico como também no conhecimento científico e estudos atuais presentes nas referências abaixo. Aconselho a leitura antes de qualquer tipo de julgamento.

“You never change things by fighting the existing reality. To change something, build a new model that makes the existing model obsolete.” ― R. Buckminster Fuller

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Autor: Roberto Barata

Ethology Institute Tutor and administration staff member; Instructor and Researcher in Applied Mentoring and Anthrozoology in Animal Behavior and Training field.