Materiais de treino e o Fashionism—uma visão antrozoológica

O treino de animais, principalmente o treino canino, não teve per se mudanças significativas ao longo destas décadas. Tendo as suas origens em raízes militares, ainda hoje os treinos são feitos na sua vasta maioria em turmas, em formações de linha ou círculo, onde todos devem realizar os mesmos procedimentos de forma mecânica na mesma linha de tempo para que sejam considerados “obedientes”, como se de uma linha de produção se trata-se. Acrescentando modelos baseados em lupomorphism e babymorphism, geralmente bem aceites na sociedade porque nos dá sempre uma sensação de poder e controle, desacredita assim a necessidade de um ensino individual e adaptado às necessidades e limitações do indivíduo, em conjunto com uma comunicação natural de criar um relacionamento com outra espécie sem a necessidade de coerção ou aliciamento, dando mais ênfase a nós e não a ferramentas.

Essa generalização de procedimentos, cria uma mentalidade social alimentada pela falta de conhecimento (propositada e comercialmente necessária) sobre o assunto, falta de civismo e a delinquência perante a lei (cães soltos, dejetos não apanhados, entre outros), tudo em prol de um cão “obediente” e que o resto está errado, numa espécie de niilismo passivo se pensarmos que segundo as nossas estatísticas internas efectuadas (Dinamarca) junto das famílias com cães indicam que o cão passa uma média de 20 horas fechado numa casa, e o pouco tempo que ele tem para ser realmente um cão (na sua essência de espécie) e poder investigar o ambiente externo é usado somente para “obediência”, andar junto, ser muitas vezes forçado a efetuar exercícios que não são precisos na sua vida mas que são sim meros caprichos do exibicionismo e “desobediência” humana onde o cão apenas se submete como única forma de continuar vivo na sociedade humana… mas (como todos dizem) nós os amamos.

A generalização do uso de teorias, técnicas e materiais é perigoso e criminoso, porque as familias colocam a vida de um membro (embora de outra espécie) ao “conhecimento” de uma pessoa que se supõe ser profissional. As famílias irão sempre adotar o que lhes ensinam e aconselham de uma forma massiva, independente dos efeitos que isso possa trazer ao cão.

Por outro lado, essas ramificações de “treino sem erro” espalharam-se para outras áreas onde o cão é utilizado como um puro objeto ou ferramenta de trabalho. Os cães são utilizados em desculpa dos benefícios para o humano. A sobrevivência da espécie está dependente da sua utilidade para os humanos, agora camuflada por uma sensibilização social e embelezada com as mais bonitas fotos e palavras. Com a premissa da sua utilização para um bem social, nem se pensa nos detalhes importantes, tais como (1)a falta de formação das pessoas na área, (2)os fatores económicos envolvidos, (3) ou a perfeita manipulação social sobre estes assuntos através de vários “estudos” devidamente publicitados que anunciam os benefícios dos cães para o bem-estar humano, criando dessa forma uma necessidade obrigatória. Contudo, continuo a questionar o porquê de não existir um único estudo de bem-estar aos animais utilizados para fins sociais? A ignorância tem um efeito ansiolitico para a realidade e controla as multidões, o pensar fora o rebanho é cada vez mais um desafio social que nos afasta lentamente do ecossistema que tanto dizemos defender.

Introduzi recentemente um conceito aos meus estudos que ainda estou a pesquisar e desenvolver, de forma a conseguir classificar e organizar a realidade atual do uso dos cães na sociedade num âmbito antrozoológico: O fashionism.

O fashionism é um modelo que sugere que os cães são utilizados consoante os interesses e tendências sociais, económicos e culturais, podendo ser temporários ou permanentes. Estes modelos criam batalhas sociais e traz a nossa essência primitiva em todos os grupos de treinadores que anteriormente classifiquei.

O fashionism está de momento bem presente no mundo dos animais de estimação em várias áreas, e para se alcançarem os objetivos dessas tendências, vivemos numa era de “vale tudo”, onde o cão tem de fazer uma determinada tarefa para os humanos, não importando de que forma possa ser ensinado para tal.

Recentes discussões, na sua maioria a nível dogmático, querem definir os melhores materiais utilizados no treino, como se fosse somente isso que definisse uma boa relação interespecífica. Existem vários estudos (ver referências) que demonstram os efeitos tanto de determinados materiais usados e as suas técnicas de implementação, assim como posições oficiais de organizações mundiais a condenar ou recomendar o uso de outros, entre outros factos científicos que nos permitem entender, atualizar e tomar decisões conscientes do que estamos a fazer.

Contudo há alguns pontos na modificação de comportamentos que são totalmente desvirtuadas e por vezes desconhecidas pelos intervenientes devido à necessidade social de mostrar resultados, de dar garantias como forma de existir um status necessário para efeitos de marketing, de utilizar palavras socialmente aceites ou dizer o que as pessoas querem ouvir, onde existe a timidez de dizer que há situações que levarão bastante tempo e necessitam de uma completa mudança de rotina da pessoa, ou situações onde a incapacidade e/ou incompatibilidade do detentor com o cão é o único diagnóstico possível, devido aos cães (e outros animais de estimação) também serem por vezes utilizados como uma forma de tentar compensar um vazio na vida das pessoas, derivado a uma situação mais marcante. E com isso, as necessidades e limitações individuais de cada cão não são respeitadas, muito menos estudadas ou compreendidas.

Cada cão tem o seu tempo, aptidão e limitação. Individualizar e não generalizar é um favor que fazemos a nós próprios enquanto seres ditos racionais.

Necessitamos de saber o que queremos ensinar à outra espécie, o porquê e se é mesmo necessário perder o tempo e a energia de ambos a ensinar, e como se vai ensinar. Uma programação individual e adaptada das sessões de treino com os corretos sinais e consequências.

O perigo da generalização de materiais ou técnicas rege-se pelo não respeito do indivíduo e situação. A modificação comportamental deve ser individual e adaptada ao indivíduo, e existem alguns princípios da ciência da aprendizagem sobre reforços ou inibidores que devemos conhecer antes:

– Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

– Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

– O + não significa que é bom nem o – significa que é mau. Assim como um um reforço não significa ser bom ou mau, nem um inibidor significa ser mau ou bom. A incorrecta interpretação destes conceitos cria etiquetas sociais onde a maioria dos utilizadores desses conceitos os desconhecem por completo e os tornam como A => Certo e B => Errado.

– Os reforçadores e inibidores estão sempre sujeitos a três condições distintas: O indivíduo, o comportamento e o momento.

– A eficácia dos reforços e inibidores depende também da sua intensidade, da forma como é dada e da situação presente. O que é um reforço numa situação, poderá ser um inibidor noutra e vice-versa.

– Se o cão permanece com um comportamento ou aumenta-o, o treinador está por definição a aplicar um reforço e não um inibidor.

– Se um cão permanece com um comportamento ou o diminui, o treinador está por definição a aplicar um inibidor e não um reforço.

– Um aversivo causa evitação de uma alguma coisa, de uma situação ou de um comportamento através do uso de um estímulo desagradável ou punitivo. Assim, por definição, qualquer tipo de material ou técnica pode ser aversivo desde que cause desconforto ou evitação ao indivíduo.

– Existem quatro formas de aumentar um aspeto de um comportamento: (1)reforçar o comportamento, (2)não inibir o comportamento, (3)criar oportunidades para o comportamento ser apresentado, (4)não reforçar um comportamento que é incompatível com o comportamento que desejamos.

– Existem quatro formas de diminuir um aspeto de um comportamento: (1)inibir o comportamento, (2)não reforçar o comportamento (extinção), (3)prevenir oportunidades para o comportamento ser apresentado (esquecimento), (4)não reforçar um comportamento que é incompatível com o comportamento que deseja diminuir.

Nota pessoal do autor:
Eu não preciso do apoio da ciência para não provocar medo, intimidação ou dor quando estou a comunicar com outra espécie, muito menos forçá-la a fazer o que quer que seja porque há resultados ou garantias para os humanos a apresentar ou por outras justificações que demonstram a nossa limitação de conhecimento. Deveria ser intrínseco. Não uso e não usarei materiais cujo único intuito é criar dor e sensações de desconforto ao cão, por mais sacrifícios pessoais e profissionais eu possa continuar a fazer. Rejeito retóricas do estilo “queria ver como agia com um cão agressivo”, pois durante toda a minha vida profissional passei de forma prática desde o treino militar canino a treino de ambos os extremos sociais e lido com qualquer tipo de situação com a plena consciência dos meus limites técnicos e éticos e um grande respeito individual pelas outras espécies. Fiz as minhas decisões e reflexões baseado na minha experiência e na ciência, e por isso seremos sempre eternos estudantes.

Convido a todos, independentemente da filosofia de treino, a tentarem comunicar com um gato ou um cavalo da forma como fazem com os cães, perceberão que somos uns perfeitos cobardes ignorantes ao usar intimidação e coerção com uma espécie considerada a mais domesticada e social para com os humanos.

Por outro lado, um treino baseado em 100% de reforços ou 100% de inibidores é algo tecnicamente impossível, biologicamente contra natura (relação dos custos x benefícios dos organismos) e um engano a todos os que acreditam e possam fazer disso slogans, campanha de marketing ou argumentum ad verecundiam. O simples virar as costas para o cão deixar de pular é por definição um inibidor negativo, se o comportamento diminuir. Se o comportamento continua ou aumenta, é por definição um reforço. Não são os reforços ou inibidores que são bons ou mais, é uma questão de um conhecimento atualizado, uma gestão das condições presentes e estabelecermos os nossos limites. “O maior inimigo do conhecimento não é ignorância, mas a ilusão do conhecimento.”—Daniel Boorstin

Se chegou até aqui com alguma relutância ou dúvida, está de parabéns. Recomendo novamente a leitura atenta dos tópicos acima e de todas as referências no final para que compreenda do ponto de vista científico. E recomendo também que pesquise ainda mais além disto, sempre com a dúvida presente e nunca com a influência de grupos ou mentalidades, o treino animal é metade ciência e metade arte, apenas podemos aprender a ciência, o resto… é o que faz a diferença.

Ao fazermos um trabalho profissional, devemos ter como um conhecimento base todas as referências científicas (e não referências idiotas que nos agradam encontradas facilmente na internet) atuais que nos permitirão(ou não) adequar a nossa forma de interação interespecífica. A escolha de como pretendemos que seja a nossa relação com os animais é exclusivamente nossa, não devemos é ser hipócritas ou incoerentes com o que fazemos/dizemos nem nunca nos enganarmos a nós próprios com eufemismos ou falácias sociais.

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Autor: Roberto Barata

Animal Trainer, Consultant and Instructor; Ethology Institute Tutor; Scientific and Popular Articles Writer; Animal FACS and Pets in Society (anthrozoology) Technical Researcher.