“Ficar ou não Ficar”- Eis a questão

Nas comunicações interespecificas devemos ter sempre em atenção o facto de não termos a mesma linguagem. Como tal, é necessário comunicarmos de forma clara e precisa.

No ensino canino, temos variados checklist padrão que todos os cães têm de cumprir e que assim nos vai permitir ter um cão “obediente”. Durante alguns anos utilizei-os até ao momento que comecei a questionar todos os sinais que eu transmitia a outras espécies e senti a necessidade de os adaptar de forma individual, respeitando os progressos e os próprios limites do indivíduo.

Antes de continuar, quero reafirmar que não me cabe a mim avaliar ou julgar os métodos de trabalho dos outros profissionais. Todos temos a liberdade de utilizar os métodos que melhor se assemelham às nossas características e personalidade e não será isso que nos faz melhores ou piores do que os outros, apenas diferentes. Respeitar não significa concordar.

Quando levamos alguma atividade profissional de forma séria, necessitamos de constantes atualizações tanto na teoria como principalmente na prática, não fazendo de tudo uma verdade absoluta e ter a vontade de mudar quando necessário.

Quando estamos a comunicar com outras espécies e a ensinar à nossa como comunicar, necessitamos de ser o mais claro e precisos possíveis, explicando o porquê de cada passo que damos no ensino. E tudo começa nos termos e sinais que utilizamos.

No começo, necessitamos definir cientificamente alguns termos que vou abordar neste artigo e reter alguns pontos:

– Sinal: Um sinal é tudo o que intencionalmente causa a alteração do comportamento do receptor.

– Todos os sinais têm um significado e uma forma de serem dados.

– Nós classificamos os sinais numa escala de Bom para Mau, dependendo da sua eficiência, clareza, intensidade, forma e compreensão inequívoca do recetor, independentemente do ambiente.

– Um sinal vai originar um comportamento, logo:
Um sinal => Um comportamento.

– Todo o comportamento tem uma consequência, logo:
Um sinal => Um comportamento => Uma consequência

– As consequências vão definir a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento. Para tal, são utilizados reforços e inibidores.

– Reforço: Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

– Inibidor: Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

– Todo e qualquer sinal que será transmitido a outra espécie, necessita de estar devidamente discriminado e explicado no devido plano de acção, assim como os princípios de conhecimento científico que cada profissional deve ter.

No Ethology Institute Cambridge, utilizamos a linguagem científica precisa denominada SMAF (Signals, Meaning And Form), criada pelo Dr. Roger Abrantes. Embora num nível mais profissional, possa parecer complexa, esta linguagem preza pela simplicidade e, acima de tudo, pela precisão no treino animal.

A seguir, vou exemplificar os sinais mais comuns que utilizamos no treino canino e o seu significado e forma.

Para simplificar, vou escrever uma única linha com:
Técnica a ensinar => O significado do sinal => A forma do sinal

– Nome(Técnica) => Olha para mim(Significado) => Nome,som(Forma)

– Senta(Técnica) => Coloca o traseiro no chão
 E mantêm-o lá até receberes
 outro sinal(Significado) => Senta,som + Senta,mão(Forma)

– Deita(Técnica) => Coloca a barriga no chão
 E mantêm-a lá até receberes
 outro sinal(Significado) => Deita,som + Deita,mão(Forma)

– Sim(Técnica) => Continua(Significado) => Sim,som(Forma)

– Não(Skill) => Pára(Significado) => Não,som(Forma)

No vídeo a seguir, demonstro todas as técnicas acima descritas.

Aqui podem ser vistos mais vídeos com as próprias famílias a trabalharem com os seus cães e a aplicarem vários sinais.

Seguindo a programação do ensino, com os ajustes necessários ao progresso e ao limite de cada cão, é possível aumentar a intensidade, frequência, duração de um determinado comportamento, tanto em distância como no aumento dos estímulos presentes.

Com esta precisão e clareza na definição dos sinais, não necessitamos de sinais adicionais e por vezes redundantes para o mesmo comportamento. A própria repetição do sinal durante a técnica pode criar antecipações de vários tipos, se notarmos que o próprio tom que utilizamos vai variando.

Reparo isso diariamente no contato com as famílias e seus cães o nervosismo e incerteza as quais elas se agarram nesses sinais como própria segurança. E quando as questiono sobre o significado do que estão a pedir ao cão, não sabem explicar. Questione sempre o significado de tudo.

Se a repetição sistemática do sinal durante a técnica for simplesmente substituída pelo reforço semi-condicionado utilizado no treino (ex: Muito bem), temos uma melhor eficiência no ensino das técnicas. Tudo isto naturalmente misturado com o próprio progresso no ensino e as alternativas a aplicar caso a forma programada não resulte.

Deixo a saudável reflexão deste artigo para que no futuro possam (ou não) desafiar a vossa simplicidade, precisão e pensamento crítico na prática.

REFERÊNCIAS
ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka

Abrantes, Roger. 2011. Unveiling the Myth of Reinforcers and Punishers.

Abrantes, R. 2013. So you want to be a good dog trainer!

Abrantes, R. 2011. Commands or Signals, Corrections or Punishers, Praise or Reinforcers.

BARATA, R. (2016). ABCD System. Etologia.pt

BARATA, R. (2016). Lead Respect. Etologia.pt

BARATA, R. (2016). Signals precision in animal Training.

CHANCE, P. (2008) Learning and Behavior. Wadsworth-Thomson Learning, Belmont, CA, 6th, ed.

DARWIN, C. (1899). The Expressions of the Emotions in Man and Animals. New York D. Appleton and Company.

EKMAN, P. (1976). Nonverbal Communiction: Movements with Precise Meanings. Journal of Communication, 26(3),14-26.

HOROWITZ, Alexandra. (2014). Domestic Dog, cognition and Behavior—The Scientific Study of Canis familiaris. Springer.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic

LORENZ, Konrad. (1981). The foundations of ethology.
Based on a translation of Vergleichende Verhaltensforschung, with revisions. Springer Science+Business Media New York.

Cursos de certificação para detentores de cães

Na Dinamarca, eu e Tilde Detz Jensen, GAT-EIC, do etologi.dk, ministramos todos os fins de semana os Cursos de certificação Básica ou avançada para detentores de cães—do ethology.eu—do Dr. Roger Abrantes. Este é o curso que todas as famílias com cães obtêm no instituto, um modelo inovador de ensino teórico-prático, permitindo o acompanhamento contínuo e atualizado de todos os detentores de cães.

O curso dá todos os fundamentos que as famílias precisam para criar e desfrutar de um bom relacionamento com os seus cães na sociedade, independentemente da idade e raça.

As nossas técnicas não envolvem o uso da violência, mas sim o conhecimento científico atualizado e a sincronia natural humano-animal, com a diferenciação do ensino individual de cada cão e detentor, adaptando o programa do curso sempre que necessário. O nosso objetivo é criar o entendimento mútuo, respeito e o vínculo perfeito entre o cão e a sua família.

Este curso destina-se a cães sem formação prévia ou com um ensino muito básico. Cães e detentores com formação prévia a maioria das vezes escolhem os nossos cursos profissionais ou serviço de coaching individual.

Implementamos também uma componente teórica, onde os detentores têm acesso a um curso on-line e um manual (Animal Training, My Way, de Roger Abrantes) com todos os conhecimentos necessários sobre comportamento e comunicação canina e as técnicas mais relevantes aprendidas na parte prática: Uso correto da coleira, Senta, Deita, Chamada, Não saltar às pessoas, aceitar a separação, socialização em vários ambientes reais com estímulos e atividades variadas, estimulação cognitiva e técnicas de resolução de problemas.

Este novo curso actualizado é o resultado de uma experiência total de 70 anos entre os envolvidos no programa, já com sucesso na Dinamarca e brevemente nos EUA, Espanha, Itália, Suíça, França e Austrália, pelos Provedores regionais aprovados (AREP’s) pelo Instituto de Etologia de Cambridge.

Saiba mais sobre os cães na Dinamarca.

Potencialmente perigosos ou potencialmente em perigo?

Não sou politicamente correto. Não o devemos ser quando falamos de seres vivos. Dispenso cinismo, falsidade, falácias e hipocrisias no mundo canino. O facto de ter sido “obrigado” a sair do meu próprio país e ter de recomeçar toda a minha profissional devido a teóricos de secretária e indivíduos com uma grande limitação de conhecimento e trabalho prático com cães que não sejam devidamente selecionados ou treinados por outros, deu-me uma liberdade enorme de escrever ou falar não o que bem entender, mas o que a experiência aliada os factos e estudos científicos demonstram, sem  estar preso a empregos que só visam o lucro, vender-me a marcas ou patrocínios, a utilizar palavras socialmente aceites, ou “cair na graça” de quem tem influência nalgumas certificações futuras.

Além de várias formações e acima de tudo experiência prática que vou adquirindo diariamente, a minha formação em Antrozoologia faz-me questionar diariamente a interação humano-animal e procurar incessantemente por um equilíbrio social para que ambas as espécies vivam em harmonia.

Desta forma, e devido ao constante mediatismo sobre algumas raças, cabe-me de forma PESSOAL escrever alguns factos, comentar as situações recentes e questionar outras, deixando claro que é a minha opinião pessoal baseada em estudos, factos científicos (Ver todas as Referências no final do artigo) e pela experiência prática de resultados eficazes que diariamente comprovo e questiono como forma de auto-imposição de atualização regular.

A quem não concordar, peço apenas que apresente argumentos que tenham uma validade factual científica como eu vou colocar e disponibilizar no final da página. Caso contrario, são meras opiniões pessoais embelezadas socialmente ou por simples frustrações e sem validade factual, as quais dispenso solenemente. A ciência não tem bom nem mau ou é uma verdade absoluta, a ciência é o que é e diariamente é questionada e estudada, cabe às pessoas seguirem ou não os estudos recentes na área.

Segundo o U.S. Department of Health & Human Services, nos Estados Unidos, aproximadamente 4,5 milhões de mordidas de cães ocorrem a cada ano, num universo estimado de 78 milhões de cães (2016). 41 dessas mordidas resultaram em morte (0.00000053%), sendo 18 em adultos acima dos 30 anos, 13 em crianças com 9 anos ou menos e 10 em recém-nascidos entre os 3 e os 6 dias.
FONTE: http://www.dogsbite.org/dog-bite-statistics-bibliographies-government-studies.php

Infelizmente não foi possível obter dados mais concretos de outros países, porque todas as outras estatísticas não têm fonte ou bibliografia que suportem as mesmas. Caso queira contribuir com mais estudos credíveis, enviem-me que eu atualizarei com os devidos créditos.

Em todas as sociedades existem o estereótipo de algumas raças como “más” e “perigosas”. O próprio poder legislativo dissemina essa tendência ao criar legislação própria para determinadas raças de cães e colocá-las em especial condição de treino. Estamos assim a condenar grupos e não indivíduos. Querem tratar dos sintomas sem tratar do verdadeiro problema: Falta de conhecimento social e a limitação profissional de escolha imposta pela falta de regulamentação da própria legislação.

O processo de domesticação do cão (Canis lupus familiaris ou—agora commumente chamado no meio científico de— Canis familiaris ) estima-se que começou entre os 15.000 e os 30.000 anos atrás. Desde então, a seleção natural do cão foi gradualmente sendo desrespeitada. A seleção artificial por via dos humanos começou a imperar para que a espécie fosse “ajustada” à necessidade humana. A própria deterioração social intra-espécie em grupo começou a deteriorar-se, como demonstram estudos efetuados em 1991, 2004 e 2007 que comparou os índices de interações agonísticas num grupo de lobos (Canis lupus) e em vários grupos de cães, agrupados por raças (Feddersen-Petersen, ler nas referências). Esta espécie teve uma linha de tempo de adaptação natural muito curta num contexto evolucionário.

Os próprios processos de imprinting e desenvolvimento da espécie estão a ser manipulados consoante as estratégias de marketing ou tendências sociais, sempre em prol do “Bem-estar animal”, dizem.

Os conceitos humanísticos e moralisticos em criar uma “cidadania” para os animais domésticos está a criar um paradigma na forma da ação política. Por um lado, temos uma legislação somente teórica que segue princípios de proteção meramente humanitários sem ter em conta as necessidades naturais individuais da espécie. Por outro, apenas nos são dadas obrigações sem qualquer tipo de formação ou informação. E ainda dentro dessa legislação, temos uma discriminação de raças (grupo), com regras e deveres específicos que devem ser seguidos. Mesmo as entidades fiscalizadoras tiveram uma formação bastante limitada, onde a maioria das vezes desconhece a própria lei e não sabe distinguir ou assinalar as raças em questão.

Entramos assim num círculo político perigoso, onde a lei protege totalmente uma especie, mas por outro lado condena previamente vários grupos da mesma.

De momento, Portugal é um desses exemplos. Com sete raças consideradas “potencialmente perigosas”.

A lei portuguesa considera potencialmente perigoso qualquer animal que, devido às características da espécie, comportamento agressivo, tamanho ou potência de mandíbula, possa causar lesão ou morte a pessoas ou outros animais.

A própria definição num contexto científico não tem qualquer fundamento ou argumento para que apenas determinadas raças estejam incluídas. Temos apenas uma definição vaga, feita de propósito para irem incluindo raças conforme considerem necessário. E vamos por partes:

– “Características da espécie”. a nível de taxonomia, Canis lupus familiaris é uma sub-espécie do Canis lupus que abrange todas as raças de cães conhecidas e não um grupo específico ou restrito de raças. De momento, novas correntes utilizam apenas Canis familiaris, pelo facto das novas raças presentes serem na sua maioria fruto da seleção artificial.

– “Comportamento agressivo, tamanho ou potência da mandíbula”. Compreende-se assim que a legislação afirma que só as sete raças apresentam comportamento agressivo. Além de não ter o mínimo de pesquisa, o legislador apresenta um total desconhecimento do que escreve. E assim o comprovo através de artigos de cientistas de renome mundial. Recomendo a leitura:  O que é agressividade e comportamento agressivo; Herança e ambiente. E já que queremos fazer a discriminação por raças, mais um estudo que demonstra o nível de agressividade entre raças. E se queremos ainda mais precisão, um estudo sobre a influência da dimensão craniana com a pressão mandibular e um estudo atual sobre o mapa genético do medo e agressividade dos cães.

Sendo assim, e perante todos estes factos, cabe-me fazer algumas questões sobre estas situações. Será de todo importante questionarmos a quem de direito e lançarmos esta discussão em praça pública se realmente queremos mudar algo. Quem permanece no silêncio ou isenção, compactua de forma criminosa com estas situações, por mais que possa dizer o contrário.

Com a política de proteção animal atual, é inadmissível que haja esta classificação de um grupo específico de raças e suas variantes. É dada a entidades específicas uma total liberdade para ministrar esta formação.

Vai abrir-se um precedente muito perigoso em Portugal que deve ser já parado antes de ter consequências desastrosas.

Os temas apresentados e a duração das formações é um atentado ao bem-estar animal e política atual de proteção animal, caso seja seguida uma linha de treino que em nada é realista com as necessidades individuais, com a sociedade ou com o ensino social atual praticado pelo mundo inteiro com fundamentos e bases científicas atualizadas.

As questões urgentes que se deve colocar a quem irá efetuar determinadas certificações no âmbito da sociedade civil perante a legislação atuas são:

– Qual a formação dos instrutores destes cursos além de metodologias e conhecimentos além das suas áreas de atuação?

– As formações e certificações dadas vão ser baseadas aos treinos operacionais das mesmas?

– Quantos cães destas raças estão ao serviço dessas entidades para que sejam somente eles a ministrar essa formação?

– Qual o critério de formação numa sociedade civil para os candidatos a treinadores terem de efetuar provas de mordedura com fato com um cão previamente selecionado?

– Depois desta certificação de uma hora teórica aos treinadores, estão eles aptos para fazer treinos e modificação comportamental, assim como terapias comportamentais a cães que apresentem determinados comportamentos indesejáveis?

– Segundo a lei, um cão perigoso é todo o cão que já tenha mordido ou ferido alguém, ou atestado como perigoso pelo veterinário. Sendo assim, em apenas uma hora serão abordados tantos assuntos que permitem a habilitação de um treinador para tal?

– Os detentores vão ter uma formação de quatro horas, que critérios foram utilizados para que essa duração seja suficiente? Que prova teórica ou prática é feita?

– Os detentores terão uma abordagem à mordedura? Não deveria essa sensibilização ser efectuada e disponibilizada a nível nacional como prevenção em todas as raças?

– Porquê um treinador necessita de ter provas de figurância? Quais os critérios desta formação no âmbito civil?

– Que critérios científicos fundamentam a teoria e prática destas formações? Quais as instituições procuradas e que pessoas delinearam as mesmas?

Estas perguntas são precisas e de resposta direta. Perguntas que muitos têm receio de perguntar com medo de represálias. Pessoalmente nunca tive esse medo, mesmo em ambientes militares pesados por onde passei parte da minha vida profissional. E pessoalmente não serei hipócrita em ter certificações que estão contra o conhecimento da natureza da espécie e dos meus princípios.

É importante termos em atenção  que agressividade não é uma característica da raça mas sim um comportamento apresentado com uma função específica, numa situação específica. Importante também é ressaltar que a escolha destas raças são meramente sociais e não científicas, caso contrário, em todo o mundo as raças “potencialmente perigosas” seriam as mesmas e não divergiam de País para País conforme se constata numa rápida pesquisa pelo google. Mais uma razão de que o problema está na educação e conscientização social.

A solução?
Recomendo uma revisão urgente desta legislação e implementar um curso nacional para todos os detentores de cães, independente da raça, com matérias adaptadas à realidade social e científica, com a formação profissional de treinadores em instituições científicas internacionais aliadas a escolas que sigam metodologias e conhecimentos atualizados com uma taxa reduzida e benefícios sociais para os cães.

As matérias teóricas não devem ser menos do que 8 horas de formação sobre legislação, comportamento e linguagem canina, conhecimentos básicos de primeiros-socorros e a interação com os cães. A componente prática não menos de 10 horas em ambiente real com metodologias atualizadas de ensino canino e adequar o programa à necessidade de cada cão, porque a experiência diz-me que não são técnicas padronizadas para todos os cães que vão prevenir problemas, e a ciência demonstra as consequências de várias metodologias generalizadas aplicadas no treino. Baseado nestes estudos, será necessária a própria proibição e criminalizarão do uso de determinados métodos e materiais de treino, conforme a nova lei de proteção animal em Madrid e as normas em alguns países europeus, dentre eles a Dinamarca. Fora o curso personalizado para todos os detentores com cães a partir dos 3 meses (e não 6 meses), iniciativas sociais de informação e uma legislação que realmente funcione na prática, complementarão um excelente início na mudança da mentalidade social. Estereotipar determinadas raças é um crime à ciência e às sociedades que, mesmo com determinadas raças proclamadas (potencialmente) perigosas, seguem políticas de educação social nesse sentido. Sociabilização dos cães e a educação das famílias é a urgência.

Todas as formações que faço aos detentores de cães na Dinamarca e tenho total conhecimento noutros países da Escandinávia, têm uma eficácia elevada no âmbito de ensino social. Faço sempre questão de publicar fotos e vídeos a demonstrar. E sim, na Dinamarca e em vários países também há determinadas raças que são discriminadas. 

Transmitir o conhecimento real e adaptar as necessidades de treino ao indivíduo é a chave para a mudança e criar uma consciencialização social sem “achismos”. Não tenhamos medo de perguntar, caso contrário, sintam vergonha sempre que possam comentar estes assuntos publicamente.

Não cabe a mim dizer o que é certo ou errado, simplesmente as sociedades necessitam de fugir dos eufemismos e camuflagem da realidade e decidirem de forma clara e concisa o que realmente querem e desejam, longe dos espectáculos políticos. Andamos de momento a tentar agradar o mais possível e a pensar menos que necessário.

Não quero dizer com o texto acima que ao implementar-se o conjunto de soluções nunca mais haverão mordidas. Mordidas sempre haverão. Mas, ao pensarmos seriamente no assunto sem influência externa, chegamos à conclusão que estes assuntos somente são noticiados debatidos por alguns dias (antes de caírem novamente no esquecimento) quando são determinadas raças. E quando não há confusão entre raças. O foco da prevenção e formação das pessoas deve ser incluída até em materiais escolares. 2 ou 3 folhas num livro escolar a ensinar às crianças como interagir com um animal doméstico não é um favor, é uma necessidade, conforme apontam as estatísticas no início deste artigo. De momento apenas se debate os “perigos” de 7 raças, quando o real perigo é o “desconhecimento sobre os cães”, e de nada adiantam reportagens ou entrevistas se nada mudar. Que critérios e “especialistas” definiram estas raças como potencialmente perigosas? Certificações específicas para determinadas raças não resolverão o problema, pelo contrário, vão sim criar ainda mais um fosso de ignorância que em nada ajuda a nossa sociedade. Dispenso e pessoalmente envergonho-me com esses protagonismos de ocasião.

Seria interessante a comunicação social noticiar de acordo com o seu código deontológico, e utilizar o seu poder de influência social para consciencializar e denunciar estas situações. Será que a guerra pelas audiências estará acima da verdade?

Não é vergonha pedir ajuda. Os cães não querem, troféus ou filosofias extremistas que nós os humanos teimamos em continuar a ter para com eles, eles apenas desejam o nosso respeito e compreensão. É esse o nosso dever.

 

Referências e estudos

ABRANTES, R. (1997). The Evolution of Canine Social Behavior. Wakan Tanka Publishers.

ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka.

BARATA, R. (2016). A precisão dos sinais do treino animal. Etologia.pt

BARATA, R. (2016). Cães na Dinamarca.

 

Comparação das consequências no bem-estar dos cães com treinos de coleiras de choque vs treino baseado em reforço.

Comparação do stress e efeitos de aprendizagem com três tipos de metodologias de treino.

DEMELLO, M. (2012). Animals and Society: An introduction to human-animal studies. Columbia University Press.

DONALDSON, S. & Kymlicka, W. (2012). Zoopolis—A political theory of animal rights. Oxford University Press.

Feddersen-Petersen, D. The ontogeny of social play and agonistic Behaviour in selected canid species. Bonner Zoologische Beitrage. 1991;42(2):97-114

Feddersen-Petersen, D. Hundepsychologie: Sozialverhalten uns Wesen, Emotionen und Individualitat. Kosmos Verlag, Stuttgart; 2004

Feddersen-Petersen, D. Social Behaviour of dogs and related canids. In: Jensen P., ed. The behavioural biology of dogs. Trowbridge, UK,: Cromwell Press; 2007:105-119

HOROWITZ, Alexandra. (2014). Domestic Dog, cognition and Behavior—The Scientific Study of Canis familiaris. Springer.

Lei de proteção dos animais de companhia atual em Madrid.

LORENZ, Konrad. (1981). The foundations of ethology.
Based on a translation of Vergleichende Verhaltensforschung, with revisions. Springer Science+Business Media New York.

MIKLÓSI, Ádám. (2007). Dog Behaviour, Evolution, and Cognition. Oxford University Press.

MORRIS, D. (1969). The Human Zoo. Kodansha America, Inc.

SZÉKELY, T. (2010). Social Behaviour, Genes, Ecology and Evolution. Cambridge University Press.

Uso de colares elétricos no treino de cães — Efeitos comportamentais a curto e longo prazo.

Treino científico ou moralista?

Estamos em constante mudança. A necessidade faz-nos adaptar às situações e somente os que se adaptam são os que continuam. É a essência da natureza.

Cada vez mais as sociedades adaptam-se às novas situações ou a própria espécie cria novas e complexas estratégias evolucionárias, através de grupos e/ou demonstrações de poder.

A minha formação em Human-Animal Studies expandiu o meu raciocínio crítico, obrigou-me a fazer mais perguntas do que pode ser certo x errado dentro das culturas, de como elas estão em constante mutação e de como criamos uma verdade absoluta de que nada é absoluto.

O pensamento lógico tem de ir além de livros ou autores, deve estar presente dentro de nós, fora de correntes moralísticas, argumentum ad verecundiam, ou falácias Ad hominen. Pior do que a ignorância, é deturpar o conhecimento obtido para opiniões pessoais.

Como o treino animal está incluído neste pensamento? Pela formação de grupos, pela colocação de etiquetas ao próprio trabalho ou ao trabalho dos outros, o uso de eufemismos para a justificação de determinados materiais, o uso de conceitos que em nada condizem com o significado dos mesmos e a total deturpação da ciência para as restantes situações.

O primeiro erro começa com o pensamento que a ciência é uma verdade absoluta. O processo científico em si não prova nada, a ciência pode na melhor das hipóteses “estar certa” sobre algo, podendo a todo o momento ser alterada consoante os resultados de novos estudos. Os estudos não provam, os estudos demonstram resultados estatísticos de determinada observação. O que hoje é A, amanhã pode ser B. O certo ou errado não existe nem pode existir na ciência. A ciência é o que é, baseada no estudo das evidências até agora apresentadas, não segue correntes, culturas ou opiniões pessoais.

O segundo erro segue na continuação do primeiro erro, o uso da ciência para dizer o que está certo ou errado. Em etologia falamos em custo x benefício. O condicionamento operante fala de reforço x inibidor. Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. O + não significa que é bom nem o – significa que é mau. Assim como um um reforço não significa ser bom ou mau, nem um inibidor significa ser mau ou bom. A incorrecta interpretação destes conceitos cria etiquetas sociais onde a maioria dos utilizadores desses conceitos os desconhecem por completo e os tornam como A => Certo e B => Errado.

O terceiro erro continua nesta sequência, a incorrecta interpretação de conceitos, desde comportamentos ao uso de outros conceitos/palavras que não condizem com a realidade, mas que são socialmente aceites. “Dominância” é uma das palavras proibidas ou banalizadas que mais discussão faz, simplesmente porque é interpretada incorrectamente e colocada em prática numa comunicação interespecífica através da nossa essência primitiva. Conceitos simples são deturpados, introduzidos no treino como desculpa para a limitação de conhecimento. O problema não são as palavras ou conceitos, mas a aplicabilidade individual que o humano lhes dá.

O quarto e último erro é o extremismo e fanatismo. Reparo que existem de momento dois mundos no treino animal, o positivo e o negativo. Quem possa questionar o positivo é negativo e quem possa questionar o negativo é positivo. Quem não utilize a devida frase de um autor ou a utilize em determinado contexto, é automaticamente etiquetado. Quem possa questionar o uso do clicker não é positivo, quem possa questionar o uso de coleiras de choque é a “pessoa que enche a barriga aos cães com comida”. Os fundamentalistas só prestam atenção às pessoas que pensam como eles, e vêem todos os outros como um inimigo. Entram-se em tantos conflitos ideológicos e egocêntricos que esquecemos que estamos a falar de outros seres vivos que necessitam de ser respeitados. Considero irónico no ponto de vista de que ambas as partes apregoam pela comunicação, assertividade, energia positiva e mente aberta.

Em que lado estou? Em nenhum. Cabe a cada um de nós decidir como pretende que seja a relação e comunicação com a outra espécie. Questione => Estude => Raciocine => Pratique => Questione. O que é certo para mim pode ser errado para si e vice-versa. Nada é absoluto, e se queremos estar atualizados, devemos estudar e questionar diariamente sem medo de assumir que estamos errados. Não camufle, generalize ou ignore conceitos, compreenda-os, explique-os corretamente, pratique e demonstre em vários indivíduos da espécie que treinar e não apenas em indivíduos previamente selecionados. Não se esqueçam que estamos em tempos de mudança, e a prática será o que vai derrubar os teóricos que copiam textos de outros teóricos e passam uma verdade absoluta como um dogma. O conhecimento é o novo modelo de mudança, e a tal mudança não pode estar condicionada a pensamentos A ou B, nunca se esqueça que tem um alfabeto para explorar. E se não se adaptar ao conhecimento, a seleção natural fará o seu papel. Carpe Diem! — “Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller.

Referências
ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka

Abrantes, R. (2011). Abrantes or Dunbar—Who’s the Best?

Abrantes, R. (2011). Unveiling the Myth of Reinforcers and Punishers.

Abrantes, R. (2013). So you want to be a good dog trainer!

Abrantes, R. (2011). Commands or Signals, Corrections or Punishers, Praise or Reinforcers.

Barata, R. (2017). The Social Human Animal

Barata, R. (2017). Dominance — A Scientific View.

Gadbois, S. (2015). 51 Shades of Grey: Misuse, Misunderstanding and Misinformation of the Concepts of “Dominance” and “Punishment”.

HOROWITZ, Alexandra. (2014). Domestic Dog, cognition and Behavior—The Scientific Study of Canis familiaris. Springer.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

Porquê treino animais?

É a pergunta que antes me faziam, mas que agora sou eu que a faço a mim mesmo. Qual seria a razão ou motivo para fazer o que faço diariamente?

Ser rico? Certamente o meu conceito de riqueza é diferente do seu, por isso não existe uma mensuração concreta sobre esse conceito. Para mim, ser rico é estarmos vivos, com saúde, com as nossas necessidades básicas suportadas e com memórias únicas que sempre suscitarão um sorriso de saudade momentânea.

Ser famoso? Quem quer treinar animais para ficar famoso pode desistir. O animal humano gosta, na sua essência, de demonstrações de poder, na sua maioria com a ostentação de símbolos ou troféus. O treino de animais vai além de truques, “obediência” ou demonstrações devidamente controladas e com cães bem selecionados. Treinar deve ser comunicação clara e uma perfeita compreensão da outra espécie sem a trazer para a nossa mentalidade social.

A união e discussão saudável dos treinadores como forma de todos evoluírmos? Ficaria sem dúvida impressionado com a resposta, uma ironia quando tanto se fala em compreensão, assertividade e entendimento, não é?

Ter tempo livre? Sem dúvida nenhuma que deste motivo pode desistir. Fazem muitos anos que não sei o que são férias, muitos meses sem saber o que é não pensar no trabalho e muitas semanas sem folgas. Quando não é trabalho, é estudo, pesquisa, projetos, e o restante tempo lembrar que também existimos.

O que então me faz treinar animais? Talvez a cumplicidade interespecífica que os momentos certos nos proporciona e que os saber aproveitar não existe explicação; O sorriso interior ao ver a felicidade das famílias junto dos seus cães a quererem aprender mais e mais; A procura diária de atualização profissional e ficar maravilhado com o que ainda temos de aprender; O passar o conhecimento obtido com um brilho nos olhos do assunto que estamos a falar, como se nós próprios estivéssemos maravilhados com o que ouvimos…

Resumindo: Não sei, mas adoro. E sabem que mais? Não são precisos motivos, basta nos sentirmos preenchidos com o que fazemos sem razão aparente. Façam o que vos preenche, e apenas sintam sem tentar responder. Siga a sua intuição e paixão. Carpe Diem.

Dominância — Uma visão científica

Há algum tempo, escrevi um artigo sobre o animal social humano, onde dentre outros assuntos, mencionei o facto de criarmos grupos (grupos de dentro e grupos de fora).

Actualmente, o ambiente virtual tem um mundo de conhecimento a explorar, mas como animais humanos que somos, por vezes preferimos nos juntar aos grupos de dentro sem consultar a realidade factual de alguns assuntos. Esse efeito bola de neve é perigoso e promove a ignorância, nada benévolo quando queremos mudar o mundo e mais perigoso ainda quando ensinamos pessoas que irão ensinar outras.

Querer fazer do comportamento animal uma “conclusão blindada” é um ato criminoso que o eleva a um campo dogmático, que tenho a certeza ser o oposto do objetivo desses grupos.

Pessoalmente, não sigo correntes ou textos moralmente aceites. Sigo a ciência e os seus factos que diariamente são colocados em dúvida e estudados. Defendo ainda que não é a camuflar ou ignorar conceitos que eles não serão seguidos, pelo contrário, geram mais confusão, fundamentalismos e incoerência.

Necessitamos de estudá-los e explicá-los na realidade com a mente aberta e separar esses conceitos das utilizações que os humanos fazem (mais precisamente no treino animal), porque são dois assuntos completamente distintos, espécies diferentes comunicam de forma diferente.

“Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller. Essa mudança é a transmissão real do conhecimento sem moralismos, somente assim faremos a mudança.

Compilei um conjunto de matérias e pesquisas de cientistas do mundo animal. Este assunto já chegou ao ponto de misturas de comportamentos com estados de espírito, adulterações de autores e ao cúmulo do argumentum ad verecundiam.

Espero que estes tópicos factuais possam elevar o vosso raciocínio crítico e pensamento lógico sobre os assuntos, somente assim conseguimos fazer a mudança. Apesar de fazer por tópicos, este artigo será um pouco longo ao complementar com a leitura dos links fornecidos e das referências bibliográficas. Para o bem do seu conhecimento, perca um pouco de tempo a ler e poder ter um argumento bem fundamentado e devidamente comprovado quando falar de determinado assunto.

Clique nos tópicos para aceder aos assuntos.
Dominância, submissão, hierarquias, etogramas e todas as definições científicas sobre o assunto. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Dominância e agressividade— Raciocínio crítico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Artigo do Dr. Simon Gadbois sobre a dominância e a punição.

Etograma canino—Comportamento social e agonístico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Artigo do Dr. Marc Bekoff com o depoimento do Dr. David Mech a afirmar que nunca rejeitou a noção de dominância.

Dominância e Pseudo-ciência. Artigo do Dr. Marc Bekoff.

Os cães demonstram dominância. Artigo do Dr. Marc Bekoff com vários estudos e outros artigos sobre o tema.

Estudo sobre relações de dominância em grupos de Canis lupus arctos.

Estudo com análise quantitativa da dominância nos cães domésticos.

"Evolução " Roger AbrantesCURSO GRATUITO! Evolução é o processo de mudança em todas as formas de vida ao longo de gerações; Biologia evolutiva é o estudo de como ocorre a evolução. Este curso é indispensável para todos os que desejam compreender como o comportamento origina-se, desenvolve-se e evolui.

Referências bibliográficas recomendadas.
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Quando o silêncio é barulhento

Somos uma espécie barulhenta. Barulhenta em vários aspectos, inclusive no próprio silêncio. Não estou numa área fácil de gerir (e por vezes de entender) e a atividade diária faz-me barulhento para tentar silenciar o ambiente. A nossa espécie reclama, grita, chora, sorri, e crê assim que as outras espécies possam estar na mesma linha de entendimento sobre o que está a ser transmitido.
Já se colocaram em frente a um espelho a gritar ou a enviar beijinhos (temo que haverão respostas positivas…)? Parece um pouco patético, não é? E esse “parecer” resulta da interpretação da nossa linguagem e formas de comunicação. agora a pergunta será como ficarão as outras espécies que comunicam de forma diferente?
O nosso relacionamento interespecífico é algo mágico, que teimamos em torná-lo banal a partir do momento que o próprio feedback intraespecífico é precário. Falamos e não dizemos nada. Utilizamos um blá blá blá (que defino como “blabar”) desnecessário quando apenas deveríamos olhar, observar, compreender, explico o porquê com uma palavra bem simples: Comunicar.
Comunicar, do latim communicāre, é um acto de transmissão ou conexão com outro de forma transmitir uma mensagem. Esta divide-se em dois tipos, a comunicação verbal e não-verbal, sendo a última uma comunicação que considero bastante importante na interação interespecífica. Naturalmente que existem outras formas de interpretação que podem ser inseridas onde considerem melhor, mas sou um pouco inflexível na linha que separa opiniões de factos. E é facto que tanto a comunicação verbal como a não-verbal em excesso, volto a frisar, em excesso, é um atentado a qualquer interação com outra espécie.
A comunicação interespecífica, seja ela de que tipo for, necessita sempre de um autocontrolo e por vezes de ponderação e alguma análise. Não falo em introspeções, levaria muito tempo a transmitir a mensagem, falo sim de quando vemos apenas o lado do emissor e nunca tentamos perceber o receptor, assim a mensagem já vai distorcida, e o feedback já sabemos qual é.
Devemos comunicar de forma compreendida, pedir ajuda não é vergonha. Vergonha é termos a noção de que fazer caretas frente a um espelho é ridículo, mas não ter a noção da nossa barulhenta comunicação com outra qualquer espécie.
Compreender para sermos compreendidos, e na dúvida, apenas observe, verá o quão valioso é esse nosso dom.

Cães na Dinamarca

PT: Tenho sido bastante questionado sobre os cães na Dinamarca. Não me compete dizer o que é certo e errado, apenas vou basear-me na legislação e no que vejo/vi. Vou deixar alguns tópicos tanto do lado cultural como legislativo, e no final os respectivos links para consulta:

– Existem cerca de 550.000 cães numa população de 5600 milhões de pessoas;
– Todos os cães devem ser registados e ter chip, o registo tem o valor de aproximadamente 17 euros.
– Todos os cães devem ter na coleira uma chapa com o nome e morada;
– Todos os detentores devem ter um seguro para o cão e são responsáveis por qualquer dano que o mesmo faça;
– Os cães não podem ladrar ou uivar excessivamente em público;
– Os cães devem andar sempre de trela ou soltos em campos amplos;
– Existem 13 raças proibidas (sim, proibidas): Pitt Bull Terrier, Tosa Inu, American Staffordshire Terrier, Fila Brasileiro, Dogo Argentino, American Bulldog, Boerboel, Kangal, Central Asian Shepherd Dog (ovcharka), Caucasian Shepherd Dog (ovcharka), South Russian Shepherd Dog (ovcharka), Tornjak, Sarplaninac;
– Coleiras de choques estão banidas (também na Suécia, Noruega e Suíça);
– O mesmo para coleiras de picos/grampos;
– Existe uma excelente mentalidade das pessoas em andarem sempre com o saco de recolha dos dejetos, caso contrário alguns jardins têm lugares específicos que os fornecem gratuitamente (alguns até luvas);
– Existe uma abundância de parques para cães. Contudo, existem jardins que proibem a circulação de cães.
– Não vejo muitos lugares que autorizem a entrada de cães;
– As pessoas sentem necessidade de procurarem aconselhamento de treino para os seus cães, reparo numa preocupação constante para o bem-estar deles;
– O número de cães abandonados é baixíssimo (nunca vi nenhum) e os que possam estar no canil para adoção não esperam mais de 15 dias (em geral) até terem um novo lar. A política para adoção é exigente e carece de aprovação. O novo detentor paga cerca de 350 euros pela adoção. Se uma pessoa for entregar ao canil o seu cão, também paga uma taxa. Existem cerca de 9 canis para adoção na Dinamarca.

E resumidamente assim que funciona, deixo alguns links caso tenham curiosidade de pesquisar mais:
– http://www.danskhunderegister.dk
– https://www.foedevarestyrelsen.dk/english/Pages/default.aspx – http://www.dyrevaernet.dk
– http://www.gipote.dk/hunde-artikler/59-Hunde-i-Danmark
– http://www.dkk.dk

Um degrau de cada vez

Os problemas comportamentais de cariz genético podem, em parte, ser controlados com a devida atenção e empenho. Já os comportamentos adquiridos não são um erro do cachorro mas um erro sistemático de associações erradas que as pessoas e o ambiente ao redor lhe proporcionam, na maioria das vezes implementados ainda na fase inicial do crescimento, porque ele é “bonito e fofo”.

Tenho uma notícia para lhe dar: Eles crescem. Sim, dobram de tamanho e o que antes era bonito rapidamente vira algo desagradável para as pessoas, e vou-lhe dar outra notícia: “Tudo isso poderia ser evitado”. Por vezes estamos a criar cães ansiosos e agressivos sem termos essa noção, só numa fase mais avançada desse comportamento é que procuram ajuda.
Os problemas mais comuns que as famílias me transmitem nas aulas são: puxar a trela, comportamento agressivo com outros cães ou não saber brincar com eles, não responder à chamada quando é solto, ladrar compulsivamente, saltar às pessoas, pedir na mesa, entre outros.
Em alguns casos é relevante fazer um pequeno historial do comportamento, mas em mais de 95% das situações simples alterações na rotina da comunicação família/cão fazem milagres.
Mas como prevenir estas situações?
Gosto de esquematizar o progresso de um cão através de um vão de escadas para cada etapa do seu desenvolvimento. Cada degrau é um objectivo e conforme a resposta do cão, reforça-se o degrau. Queremos um cão que suba ao topo, mas para isso temos de ensinar-lhe a subir os degraus. O grande problema são as cascas de banana nos degraus que os donos não tomam em atenção e escorregam para degraus inferiores.
Se o cão aprende por associações positivas e negativas, não vamos ensinar uma chamada com o cão solto sem antes ele aprender o que é realmente o significado da chamada. É um pulo enorme nos degraus da aprendizagem soltar um cão e querer que ele responda como se já o soubesse mas fosse “teimoso”.
Este é um dos milhares de exemplos de erros comuns no treino diário que estamos a efectuar sem nos apercebermos. Um dos maiores rivais são as etiquetas que colocamos aos comportamentos do cão, como se estivéssemos a descartar a nossa culpa naquele comportamento.
A antropoformização também é um dos aliados mais prejudiciais a estas situações. Vamos evitar ao máximo cair no erro do “ele é assim porque…” mas arranjar soluções práticas junto de um profissional.
Prefiro resumir em tópicos algumas recomendações a tomar na prevenção de problemas comportamentais e de saúde.

Escolha certo. Esta é umas das principais prevenções para mim, a escolha do cão. Temos de saber para que queremos ter um cão, não vamos escolher raças por serem bonitas ou inteligentes, standarizar um grupo pode trazer problemas, pois cada indivíduo tem a sua característica e necessidade, que por vezes não são compatíveis com o modo de vida das famílias. Seja consciente.

Sociabilização. A palavra fulcral que pode prevenir inúmeros problemas relacionados a medos, fobias e agressividade. Socializar o cachorro desde as primeiras fases de desenvolvimento aos vários estímulos ambientais, de pessoas e outros cães minimizam de forma estrondosa comportamentos indesejáveis que eles possam ter, para além de criarem um melhor auto-controle do cão e pouca coisa ser estranha para ele.

Independência. Deixe o seu cão ter o seu espaço, deixe-o criar a sua própria independência. Coloque um ambiente rico e adaptado às necessidades do seu cão e sem querer estará a reduzir comportamentos de ansiedade quando ele está sozinho e a permitir que ele próprio crie os seus jogos para se entreter.

Respeito. Tenha respeito pelo seu cão assim como quer que ele tenha convosco. Não usemos conceitos antiquados de hierarquias na convivência com o seu cão. Compreenda-o e ensine-o desde sempre.

Educação. Os exercícios básicos de obediência são mágicos se aplicados no seu dia a dia de uma forma correcta. Pratique o “senta”, que já deverá ter o significado “Fica”, para lhe colocar e tirar a trela e sair para a rua, sem querer terá um cão mais controlado nas saídas e entradas sem ele entrar em completa “histeria”.

Entendimento. Os cães estão a todo o instante a comunicar connosco e a observar-nos. Mas será que já olhou realmente para o seu cão para entender o que ele lhe está a transmitir? Pesquise e sempre que possível procure um apoio profissional para que obtenha toda a informação concreta sobre a linguagem canina e métodos de treino adequados para fortalecer ainda mais o canal de comunicação entre vocês. Seja exigente na escolha do profissional.

Dedicação. Invista 5 a 10 minutos diários com o seu cão. Sim, 5 ou 10 minutos. Estar perto dele todo o dia não significa que está a dedicar-se a ele. Torne os passeios agradáveis. Brincadeiras e reforçs junto com técnicas de controlo e freestyle trará a agradável surpresa de já terem passado mais de 20 minutos de dedicação. Reforce sempre um comportamento desejado em casa por mais ínfimo que seja e verá a magia dele acontecer mais vezes. E sem querer treinou no mínimo 35 minutos numa semana.

Cuidado. Informe-se junto do veterinário de todos os cuidados de saúde a ter em casa e quais os sinais de alerta a ter em conta. Na dúvida contacte sempre o veterinário assistente.

Antes de adquirir e depois de adquirir o seu cachorro obtenha todas as informações necessárias ao seu bem estar, é importante sermos curiosos com todos os assuntos relacionados a ele. Ele agradece. O resto do conhecimento é feito pelo próprio cachorro, eles são professores inatos a transmitirem-nos informações. Não fique a olhar para o topo, compreenda-o e sejam o topo.
(Texto publicado na revista Barks março/abril de 2015, página 38)

Link to translated article: https://issuu.com/petprofessionalguild/docs/bftg_mar2015_online_opt_for_online

PS: Um agradecimento à Benedita Castro pelo auxílio ao aprimoramento do artigo.