Treino científico ou moralista?

Estamos em constante mudança. A necessidade faz-nos adaptar às situações e somente os que se adaptam são os que continuam. É a essência da natureza.

Cada vez mais as sociedades adaptam-se às novas situações ou a própria espécie cria novas e complexas estratégias evolucionárias, através de grupos e/ou demonstrações de poder.

A minha formação em Human-Animal Studies expandiu o meu raciocínio crítico, obrigou-me a fazer mais perguntas do que pode ser certo x errado dentro das culturas, de como elas estão em constante mutação e de como criamos uma verdade absoluta de que nada é absoluto.

O pensamento lógico tem de ir além de livros ou autores, deve estar presente dentro de nós, fora de correntes moralísticas, argumentum ad verecundiam, ou falácias Ad hominen. Pior do que a ignorância, é deturpar o conhecimento obtido para opiniões pessoais.

Como o treino animal está incluído neste pensamento? Pela formação de grupos, pela colocação de etiquetas ao próprio trabalho ou ao trabalho dos outros, o uso de eufemismos para a justificação de determinados materiais, o uso de conceitos que em nada condizem com o significado dos mesmos e a total deturpação da ciência para as restantes situações.

O primeiro erro começa com o pensamento que a ciência é uma verdade absoluta. O processo científico em si não prova nada, a ciência pode na melhor das hipóteses “estar certa” sobre algo, podendo a todo o momento ser alterada consoante os resultados de novos estudos. Os estudos não provam, os estudos demonstram resultados estatísticos de determinada observação. O que hoje é A, amanhã pode ser B. O certo ou errado não existe nem pode existir na ciência. A ciência é o que é, baseada no estudo das evidências até agora apresentadas, não segue correntes, culturas ou opiniões pessoais.

O segundo erro segue na continuação do primeiro erro, o uso da ciência para dizer o que está certo ou errado. Em etologia falamos em custo x benefício. O condicionamento operante fala de reforço x inibidor. Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. O + não significa que é bom nem o – significa que é mau. Assim como um um reforço não significa ser bom ou mau, nem um inibidor significa ser mau ou bom. A incorrecta interpretação destes conceitos cria etiquetas sociais onde a maioria dos utilizadores desses conceitos os desconhecem por completo e os tornam como A => Certo e B => Errado.

O terceiro erro continua nesta sequência, a incorrecta interpretação de conceitos, desde comportamentos ao uso de outros conceitos/palavras que não condizem com a realidade, mas que são socialmente aceites. “Dominância” é uma das palavras proibidas ou banalizadas que mais discussão faz, simplesmente porque é interpretada incorrectamente e colocada em prática numa comunicação interespecífica através da nossa essência primitiva. Conceitos simples são deturpados, introduzidos no treino como desculpa para a limitação de conhecimento. O problema não são as palavras ou conceitos, mas a aplicabilidade individual que o humano lhes dá.

O quarto e último erro é o extremismo e fanatismo. Reparo que existem de momento dois mundos no treino animal, o positivo e o negativo. Quem possa questionar o positivo é negativo e quem possa questionar o negativo é positivo. Quem não utilize a devida frase de um autor ou a utilize em determinado contexto, é automaticamente etiquetado. Quem possa questionar o uso do clicker não é positivo, quem possa questionar o uso de coleiras de choque é a “pessoa que enche a barriga aos cães com comida”. Os fundamentalistas só prestam atenção às pessoas que pensam como eles, e vêem todos os outros como um inimigo. Entram-se em tantos conflitos ideológicos e egocêntricos que esquecemos que estamos a falar de outros seres vivos que necessitam de ser respeitados. Considero irónico no ponto de vista de que ambas as partes apregoam pela comunicação, assertividade, energia positiva e mente aberta.

Em que lado estou? Em nenhum. Cabe a cada um de nós decidir como pretende que seja a relação e comunicação com a outra espécie. Questione => Estude => Raciocine => Pratique => Questione. O que é certo para mim pode ser errado para si e vice-versa. Nada é absoluto, e se queremos estar atualizados, devemos estudar e questionar diariamente sem medo de assumir que estamos errados. Não camufle, generalize ou ignore conceitos, compreenda-os, explique-os corretamente, pratique e demonstre em vários indivíduos da espécie que treinar e não apenas em indivíduos previamente selecionados. Não se esqueçam que estamos em tempos de mudança, e a prática será o que vai derrubar os teóricos que copiam textos de outros teóricos e passam uma verdade absoluta como um dogma. O conhecimento é o novo modelo de mudança, e a tal mudança não pode estar condicionada a pensamentos A ou B, nunca se esqueça que tem um alfabeto para explorar. E se não se adaptar ao conhecimento, a seleção natural fará o seu papel. Carpe Diem! — “Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller.

Referências
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Abrantes, R. (2011). Abrantes or Dunbar—Who’s the Best?

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Abrantes, R. (2011). Commands or Signals, Corrections or Punishers, Praise or Reinforcers.

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Barata, R. (2017). Dominance — A Scientific View.

Gadbois, S. (2015). 51 Shades of Grey: Misuse, Misunderstanding and Misinformation of the Concepts of “Dominance” and “Punishment”.

HOROWITZ, Alexandra. (2014). Domestic Dog, cognition and Behavior—The Scientific Study of Canis familiaris. Springer.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

Porquê treino animais?

É a pergunta que antes me faziam, mas que agora sou eu que a faço a mim mesmo. Qual seria a razão ou motivo para fazer o que faço diariamente?

Ser rico? Certamente o meu conceito de riqueza é diferente do seu, por isso não existe uma mensuração concreta sobre esse conceito. Para mim, ser rico é estarmos vivos, com saúde, com as nossas necessidades básicas suportadas e com memórias únicas que sempre suscitarão um sorriso de saudade momentânea.

Ser famoso? Quem quer treinar animais para ficar famoso pode desistir. O animal humano gosta, na sua essência, de demonstrações de poder, na sua maioria com a ostentação de símbolos ou troféus. O treino de animais vai além de truques, “obediência” ou demonstrações devidamente controladas e com cães bem selecionados. Treinar deve ser comunicação clara e uma perfeita compreensão da outra espécie sem a trazer para a nossa mentalidade social.

A união e discussão saudável dos treinadores como forma de todos evoluírmos? Ficaria sem dúvida impressionado com a resposta, uma ironia quando tanto se fala em compreensão, assertividade e entendimento, não é?

Ter tempo livre? Sem dúvida nenhuma que deste motivo pode desistir. Fazem muitos anos que não sei o que são férias, muitos meses sem saber o que é não pensar no trabalho e muitas semanas sem folgas. Quando não é trabalho, é estudo, pesquisa, projetos, e o restante tempo lembrar que também existimos.

O que então me faz treinar animais? Talvez a cumplicidade interespecífica que os momentos certos nos proporciona e que os saber aproveitar não existe explicação; O sorriso interior ao ver a felicidade das famílias junto dos seus cães a quererem aprender mais e mais; A procura diária de atualização profissional e ficar maravilhado com o que ainda temos de aprender; O passar o conhecimento obtido com um brilho nos olhos do assunto que estamos a falar, como se nós próprios estivéssemos maravilhados com o que ouvimos…

Resumindo: Não sei, mas adoro. E sabem que mais? Não são precisos motivos, basta nos sentirmos preenchidos com o que fazemos sem razão aparente. Façam o que vos preenche, e apenas sintam sem tentar responder. Siga a sua intuição e paixão. Carpe Diem.

Dominância — Uma visão científica

English Version Here.

Há algum tempo, escrevi um artigo sobre o animal social humano, onde dentre outros assuntos, mencionei o facto de criarmos grupos (grupos de dentro e grupos de fora).

Actualmente, o ambiente virtual tem um mundo de conhecimento a explorar, mas como animais humanos que somos, por vezes preferimos nos juntar aos grupos de dentro sem consultar a realidade factual de alguns assuntos. Esse efeito bola de neve é perigoso e promove a ignorância, nada benévolo quando queremos mudar o mundo e mais perigoso ainda quando ensinamos pessoas que irão ensinar outras.

Querer fazer do comportamento animal uma “conclusão blindada” é um ato criminoso que o eleva a um campo dogmático, que tenho a certeza ser o oposto do objetivo desses grupos.

Pessoalmente, não sigo correntes ou textos moralmente aceites. Sigo a ciência e os seus factos que diariamente são colocados em dúvida e estudados. Defendo ainda que não é a camuflar ou ignorar conceitos que eles não serão seguidos, pelo contrário, geram mais confusão, fundamentalismos e incoerência.

Necessitamos de estudá-los e explicá-los na realidade com a mente aberta e separar esses conceitos das utilizações que os humanos fazem (mais precisamente no treino animal), porque são dois assuntos completamente distintos, espécies diferentes comunicam de forma diferente.

“Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller. Essa mudança é a transmissão real do conhecimento sem moralismos, somente assim faremos a mudança.

Compilei um conjunto de matérias e pesquisas de cientistas do mundo animal. Este assunto já chegou ao ponto de misturas de comportamentos com estados de espírito, adulterações de autores e ao cúmulo do argumentum ad verecundiam.

Espero que estes tópicos factuais possam elevar o vosso raciocínio crítico e pensamento lógico sobre os assuntos, somente assim conseguimos fazer a mudança. Apesar de fazer por tópicos, este artigo será um pouco longo ao complementar com a leitura dos links fornecidos e das referências bibliográficas. Para o bem do seu conhecimento, perca um pouco de tempo a ler e poder ter um argumento bem fundamentado e devidamente comprovado quando falar de determinado assunto.

Clique nos tópicos para aceder aos assuntos.
Dominância, submissão, hierarquias, etogramas e todas as definições científicas sobre o assunto. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Dominância e agressividade— Raciocínio crítico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Artigo do Dr. Simon Gadbois sobre a dominância e a punição.

Etograma canino—Comportamento social e agonístico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Artigo do Dr. Marc Bekoff com o depoimento do Dr. David Mech a afirmar que nunca rejeitou a noção de dominância.

Dominância e Pseudo-ciência. Artigo do Dr. Marc Bekoff.

Os cães demonstram dominância. Artigo do Dr. Marc Bekoff com vários estudos e outros artigos sobre o tema.

Estudo sobre relações de dominância em grupos de Canis lupus arctos.

Estudo com análise quantitativa da dominância nos cães domésticos.

"Evolução " Roger AbrantesCURSO GRATUITO! Evolução é o processo de mudança em todas as formas de vida ao longo de gerações; Biologia evolutiva é o estudo de como ocorre a evolução. Este curso é indispensável para todos os que desejam compreender como o comportamento origina-se, desenvolve-se e evolui.

Referências bibliográficas recomendadas.
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ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka Publishers.

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Quando o silêncio é barulhento

Somos uma espécie barulhenta. Barulhenta em vários aspectos, inclusive no próprio silêncio. Não estou numa área fácil de gerir (e por vezes de entender) e a atividade diária faz-me barulhento para tentar silenciar o ambiente. A nossa espécie reclama, grita, chora, sorri, e crê assim que as outras espécies possam estar na mesma linha de entendimento sobre o que está a ser transmitido.
Já se colocaram em frente a um espelho a gritar ou a enviar beijinhos (temo que haverão respostas positivas…)? Parece um pouco patético, não é? E esse “parecer” resulta da interpretação da nossa linguagem e formas de comunicação. agora a pergunta será como ficarão as outras espécies que comunicam de forma diferente?
O nosso relacionamento interespecífico é algo mágico, que teimamos em torná-lo banal a partir do momento que o próprio feedback intraespecífico é precário. Falamos e não dizemos nada. Utilizamos um blá blá blá (que defino como “blabar”) desnecessário quando apenas deveríamos olhar, observar, compreender, explico o porquê com uma palavra bem simples: Comunicar.
Comunicar, do latim communicāre, é um acto de transmissão ou conexão com outro de forma transmitir uma mensagem. Esta divide-se em dois tipos, a comunicação verbal e não-verbal, sendo a última uma comunicação que considero bastante importante na interação interespecífica. Naturalmente que existem outras formas de interpretação que podem ser inseridas onde considerem melhor, mas sou um pouco inflexível na linha que separa opiniões de factos. E é facto que tanto a comunicação verbal como a não-verbal em excesso, volto a frisar, em excesso, é um atentado a qualquer interação com outra espécie.
A comunicação interespecífica, seja ela de que tipo for, necessita sempre de um autocontrolo e por vezes de ponderação e alguma análise. Não falo em introspeções, levaria muito tempo a transmitir a mensagem, falo sim de quando vemos apenas o lado do emissor e nunca tentamos perceber o receptor, assim a mensagem já vai distorcida, e o feedback já sabemos qual é.
Devemos comunicar de forma compreendida, pedir ajuda não é vergonha. Vergonha é termos a noção de que fazer caretas frente a um espelho é ridículo, mas não ter a noção da nossa barulhenta comunicação com outra qualquer espécie.
Compreender para sermos compreendidos, e na dúvida, apenas observe, verá o quão valioso é esse nosso dom.

Cães na Dinamarca

PT: Tenho sido bastante questionado sobre os cães na Dinamarca. Não me compete dizer o que é certo e errado, apenas vou basear-me na legislação e no que vejo/vi. Vou deixar alguns tópicos tanto do lado cultural como legislativo, e no final os respectivos links para consulta:

– Existem cerca de 550.000 cães numa população de 5600 milhões de pessoas;
– Todos os cães devem ser registados e ter chip, o registo tem o valor de aproximadamente 17 euros.
– Todos os cães devem ter na coleira uma chapa com o nome e morada;
– Todos os detentores devem ter um seguro para o cão e são responsáveis por qualquer dano que o mesmo faça;
– Os cães não podem ladrar ou uivar excessivamente em público;
– Os cães devem andar sempre de trela ou soltos em campos amplos;
– Existem 13 raças proibidas (sim, proibidas): Pitt Bull Terrier, Tosa Inu, American Staffordshire Terrier, Fila Brasileiro, Dogo Argentino, American Bulldog, Boerboel, Kangal, Central Asian Shepherd Dog (ovcharka), Caucasian Shepherd Dog (ovcharka), South Russian Shepherd Dog (ovcharka), Tornjak, Sarplaninac;
– Coleiras de choques estão banidas (também na Suécia, Noruega e Suíça);
– O mesmo para coleiras de picos/grampos;
– Existe uma excelente mentalidade das pessoas em andarem sempre com o saco de recolha dos dejetos, caso contrário alguns jardins têm lugares específicos que os fornecem gratuitamente (alguns até luvas);
– Existe uma abundância de parques para cães. Contudo, existem jardins que proibem a circulação de cães.
– Não vejo muitos lugares que autorizem a entrada de cães;
– As pessoas sentem necessidade de procurarem aconselhamento de treino para os seus cães, reparo numa preocupação constante para o bem-estar deles;
– O número de cães abandonados é baixíssimo (nunca vi nenhum) e os que possam estar no canil para adoção não esperam mais de 15 dias (em geral) até terem um novo lar. A política para adoção é exigente e carece de aprovação. O novo detentor paga cerca de 350 euros pela adoção. Se uma pessoa for entregar ao canil o seu cão, também paga uma taxa. Existem cerca de 9 canis para adoção na Dinamarca.

E resumidamente assim que funciona, deixo alguns links caso tenham curiosidade de pesquisar mais:
– http://www.danskhunderegister.dk
– https://www.foedevarestyrelsen.dk/english/Pages/default.aspx – http://www.dyrevaernet.dk
– http://www.gipote.dk/hunde-artikler/59-Hunde-i-Danmark
– http://www.dkk.dk

Um degrau de cada vez

Os problemas comportamentais de cariz genético podem, em parte, ser controlados com a devida atenção e empenho. Já os comportamentos adquiridos não são um erro do cachorro mas um erro sistemático de associações erradas que as pessoas e o ambiente ao redor lhe proporcionam, na maioria das vezes implementados ainda na fase inicial do crescimento, porque ele é “bonito e fofo”.

Tenho uma notícia para lhe dar: Eles crescem. Sim, dobram de tamanho e o que antes era bonito rapidamente vira algo desagradável para as pessoas, e vou-lhe dar outra notícia: “Tudo isso poderia ser evitado”. Por vezes estamos a criar cães ansiosos e agressivos sem termos essa noção, só numa fase mais avançada desse comportamento é que procuram ajuda.
Os problemas mais comuns que as famílias me transmitem nas aulas são: puxar a trela, comportamento agressivo com outros cães ou não saber brincar com eles, não responder à chamada quando é solto, ladrar compulsivamente, saltar às pessoas, pedir na mesa, entre outros.
Em alguns casos é relevante fazer um pequeno historial do comportamento, mas em mais de 95% das situações simples alterações na rotina da comunicação família/cão fazem milagres.
Mas como prevenir estas situações?
Gosto de esquematizar o progresso de um cão através de um vão de escadas para cada etapa do seu desenvolvimento. Cada degrau é um objectivo e conforme a resposta do cão, reforça-se o degrau. Queremos um cão que suba ao topo, mas para isso temos de ensinar-lhe a subir os degraus. O grande problema são as cascas de banana nos degraus que os donos não tomam em atenção e escorregam para degraus inferiores.
Se o cão aprende por associações positivas e negativas, não vamos ensinar uma chamada com o cão solto sem antes ele aprender o que é realmente o significado da chamada. É um pulo enorme nos degraus da aprendizagem soltar um cão e querer que ele responda como se já o soubesse mas fosse “teimoso”.
Este é um dos milhares de exemplos de erros comuns no treino diário que estamos a efectuar sem nos apercebermos. Um dos maiores rivais são as etiquetas que colocamos aos comportamentos do cão, como se estivéssemos a descartar a nossa culpa naquele comportamento.
A antropoformização também é um dos aliados mais prejudiciais a estas situações. Vamos evitar ao máximo cair no erro do “ele é assim porque…” mas arranjar soluções práticas junto de um profissional.
Prefiro resumir em tópicos algumas recomendações a tomar na prevenção de problemas comportamentais e de saúde.

Escolha certo. Esta é umas das principais prevenções para mim, a escolha do cão. Temos de saber para que queremos ter um cão, não vamos escolher raças por serem bonitas ou inteligentes, standarizar um grupo pode trazer problemas, pois cada indivíduo tem a sua característica e necessidade, que por vezes não são compatíveis com o modo de vida das famílias. Seja consciente.

Sociabilização. A palavra fulcral que pode prevenir inúmeros problemas relacionados a medos, fobias e agressividade. Socializar o cachorro desde as primeiras fases de desenvolvimento aos vários estímulos ambientais, de pessoas e outros cães minimizam de forma estrondosa comportamentos indesejáveis que eles possam ter, para além de criarem um melhor auto-controle do cão e pouca coisa ser estranha para ele.

Independência. Deixe o seu cão ter o seu espaço, deixe-o criar a sua própria independência. Coloque um ambiente rico e adaptado às necessidades do seu cão e sem querer estará a reduzir comportamentos de ansiedade quando ele está sozinho e a permitir que ele próprio crie os seus jogos para se entreter.

Respeito. Tenha respeito pelo seu cão assim como quer que ele tenha convosco. Não usemos conceitos antiquados de hierarquias na convivência com o seu cão. Compreenda-o e ensine-o desde sempre.

Educação. Os exercícios básicos de obediência são mágicos se aplicados no seu dia a dia de uma forma correcta. Pratique o “senta”, que já deverá ter o significado “Fica”, para lhe colocar e tirar a trela e sair para a rua, sem querer terá um cão mais controlado nas saídas e entradas sem ele entrar em completa “histeria”.

Entendimento. Os cães estão a todo o instante a comunicar connosco e a observar-nos. Mas será que já olhou realmente para o seu cão para entender o que ele lhe está a transmitir? Pesquise e sempre que possível procure um apoio profissional para que obtenha toda a informação concreta sobre a linguagem canina e métodos de treino adequados para fortalecer ainda mais o canal de comunicação entre vocês. Seja exigente na escolha do profissional.

Dedicação. Invista 5 a 10 minutos diários com o seu cão. Sim, 5 ou 10 minutos. Estar perto dele todo o dia não significa que está a dedicar-se a ele. Torne os passeios agradáveis. Brincadeiras e reforçs junto com técnicas de controlo e freestyle trará a agradável surpresa de já terem passado mais de 20 minutos de dedicação. Reforce sempre um comportamento desejado em casa por mais ínfimo que seja e verá a magia dele acontecer mais vezes. E sem querer treinou no mínimo 35 minutos numa semana.

Cuidado. Informe-se junto do veterinário de todos os cuidados de saúde a ter em casa e quais os sinais de alerta a ter em conta. Na dúvida contacte sempre o veterinário assistente.

Antes de adquirir e depois de adquirir o seu cachorro obtenha todas as informações necessárias ao seu bem estar, é importante sermos curiosos com todos os assuntos relacionados a ele. Ele agradece. O resto do conhecimento é feito pelo próprio cachorro, eles são professores inatos a transmitirem-nos informações. Não fique a olhar para o topo, compreenda-o e sejam o topo.
(Texto publicado na revista Barks março/abril de 2015, página 38)

Link to translated article: https://issuu.com/petprofessionalguild/docs/bftg_mar2015_online_opt_for_online

PS: Um agradecimento à Benedita Castro pelo auxílio ao aprimoramento do artigo.