O treino animal e a pseudociência—Raciocínio crítico

Eu escrevi um artigo no início de 2017 intitulado “treino científico ou moralista”, onde referi alguns pontos que considero estarem cada vez mais a influenciar grandes massas sob uma premissa científica. Noutro artigo, contribui com a minha visão antrozoologica para classificar os vários grupos e sub-grupos de treinadores na atualidade. Recomendo a leitura antes de prosseguir.

Neste artigo vou analisar alguns assuntos discutidos com algum raciocínio crítico e certamente repetir assuntos de artigos anteriores, mas irei repetir-me sempre que eu verifique que a ciência anda a ser manipulada de forma a controlar grupos. As lutas tribais atuais estão concentradas em “likes”, partilhas e comentários nas redes sociais, e os grupos necessitam de ser alimentados, seja por ideologias, moralismos ou falácias, a maioria deles pelo narcisismo, esquizofrenia virtual do(s) autor(es) e/ou pela necessidade de promoção pessoal como uma terapia para a própria insegurança. E para piorar, temos o condicionamento social que é feito através de grupos, o próprio julgamento prévio sem o interesse de pesquisar mais sobre o assunto, o seguirem as opiniões de outros, criticarem e condenarem textos ou pessoas sem lerem ou procurarem validade factual junto dos mesmos. Estudos demonstram a influência das redes sociais no cotidiano do utilizador, inclusive no aumento do stress. Estarmos prisioneiros a grupos impede-nos de pensar e olhar para a realidadecertamente por isso somos uma espécie fácil de adestrar.

A própria indústria pet (em crescente expansão) influencia cada vez mais a sociedade, tanto as famílias como os profissionais. Criam necessidades, apresentam estudos encomendados e alimentam uma ignorância comercialmente necessária, onde as pessoas não sabem ao certo porque adquirem ou se realmente necessitam adquirir mas é-lhes dito que serão pessoas melhores se o fizerem. Vendem design e não conhecimento. De momento vários estudos muito vagos sobre cães andam a enfatizar os benefícios de ter cães, e a cegueira social nunca questionou o porquê de tanto ênfase. Se o tal do “bem-estar” animal (uma falácia atual), palavra essa tão banalizada mas que comercialmente tem bastante sucesso, questiono-me porque será que ainda não foi efetuado um estudo do número crescente de problemas comportamentais dos cães nos últimos 15 anos decorrentes dos cães estarem cada vez mais dentro de casa, em ambientes artificiais e com as famílias a implementarem constantemente modelos de antropomorfismo e babymorphism? Um pouco incoerente se verificarmos todas as “ofertas” apelativas atuais de mercado. O cão de momento é um mero objeto exatamente como antes, mas agora camuflado sob a premissa de “utilidade social para os humanos”. Também questiono o porquê de não efetuarem um estudo de bem-estar aos animais utilizados para fins sociais? Segundo especialistas, os cães devem ser utilizados em ações sociais dentro de um limite ético, qual é esse limite? O bom senso dos humanos? Lamento, mas rejeito retórica. Não estou a condenar esta indústria, apenas a banalização comercial factual que a mesma está a tornar-se e que em nada favorece nem as famílias nem os animais de estimação. As pessoas preferem comprar um brinquedo de 50 euros porque “dizem que funciona” do que comprar um livro de 10 euros e tentar compreender melhor o seu animal de estimação e proporcionar-lhe uma vida dentro das suas necessidades naturais individuais, onde esse brinquedo nem seria necessário. O mesmo para os treinadores de cães, que preferem aprender em seminarios e acreditarem em todo o romantismo passado, sem o interesse de pegarem num livro cientifico, estudarem a realidade cientifica, os seus conceitos, definições, aplicações e praticarem com o maior número de cães possíveis de forma a desenvolverem o seu proprio metodo de trabalho, terem a noção de que a realidade prática e que continuem diariamente a pesquisar e estudar mais.

Esta visão antrozoológica sobre o assunto pode parecer muito fria ou de palavras duras, mas é simplesmente uma visão antropológica, sociológica e acima de tudo zoológica de uma espécie que negamos ser apenas mais uma neste planeta. E tudo começa por aí. Tentamos suavizar os nossos comportamentos de uma forma moralística, negando a ciência que nos caracteriza de animais que somos.

O que vou apresentar neste artigo não são julgamentos, são factos científicos sobre a realidade, a maioria das vezes “romantizada” ou ignorada por não seguir os nossos ideais. Certamente nem todos vão concordar, mas há que separar as nossas opiniões emocionais da factualidade científica atual. E deixo desde já o saudável desafio para ler este artigo com uma visão pragmática, duvidar de tudo o que possa ser aqui escrito e pesquisar não só os artigos, estudos e referências científicas que serão aqui deixadas, como também outras literaturas puramente científicas e não opinativas. Cabe a cada um decidir como pretende levar a sua vida pessoal/profissional, se adequar a realidade científica aos limites técnicos e éticos, ou simplesmente criar um mundo utópico e manipular a ciência para tentar confirmar determinadas teorias socialmente aceites. O processo científico em si não prova nada, a ciência pode na melhor das hipóteses “estar certa” sobre algo, podendo a todo o momento ser alterada consoante os resultados de novos estudos. Os estudos não provam, os estudos demonstram resultados estatísticos de determinada observação. O que hoje é A, amanhã pode ser B. O certo ou errado não existe nem pode existir na ciência. A ciência é o que é, baseada no estudo das evidências até agora apresentadas, não segue correntes, culturas ou opiniões pessoais. A ciência não tem culpa que a usem erroneamente. É nosso dever procurar fontes fidedignas quando estamos a trabalhar com outros seres vivos.

Neste artigo vou focar-me no treino dos cães por de momento ser o que mais falácias virtuais cria. Reparo que cada vez mais culpabiliza-se, descredibiliza-se e nega-se a etologia e o comportamentalismo pelos mais variados motivos ideológicos e argumentos implícitos para tão sérias afirmações.

Mas em primeiro lugar, e como gosto bastante de dicionários, é necessário definir o que vários conceitos que vou utilizar realmente significam. Alguns deles vou desenvolver nas análises aos variados argumentos:

A ciência é o conhecimento sistemático do mundo físico ou material adquirido através da observação e experimentação. A ciência é um processo, não uma conclusão.

A moral é o princípio que diz respeito à distinção entre comportamento correto e errado ou bom e mau.

A ética é um princípio moral ou um conjunto de valores morais detidos por um indivíduo ou grupo

A cultura é a adaptação biológica do gênero humano que tem propriedades ou características fundamentais que estão sujeitas ao mesmo algoritmo evolutivo, variação seletiva, retenção, transmissão. Baseia-se na natureza humana e é constrangida por ela.

Pensar é a atividade da mente que tenta fazer sentido dos acontecimento da vida, podemos pensar o que nos apetecer sem qualquer tipo de esforço, o que nos faz querer ou desejar algo.

Raciocinar é um processo que nos ajuda a aceitar ou rejeitar afirmações feitas por nós próprios ou pelos outros.

O pensamento dogmático caracteriza-se por uma aderência firme e cega a um certo conjunto de instruções.

O pensamento crítico reconhece e aprecia as diferenças contextuais e a sua complexidade, rejeitando conclusões prévias e aceitando conclusões mais adequadas.

Uma premissa é uma sentença declarativa que serve de base para um raciocínio, o que levará a uma conclusão.

Um argumento é um conjunto de várias premissas ou justificações que levam a uma conclusão. Este processo pode ser bom ou mau, mas nunca verdadeiro ou falso. Os argumentos podem ser explícitos (quando as premissas que levam à conclusão são todas declaradas) ou implícitos (quando as premissas que levam à conclusão são sub-entendidas). Estes últimos são muito utilizados a nível publicitário. Também podem ser classificados como válidos ou inválidos, fortes ou fracos, convincentes ou não.

Uma falácia é o erro na formulação de um argumento.

Uma opinião é a expressão de uma crença subjectiva ou uma tomada de posição sobre um determinado assunto, nem sempre assentada em premissas verdadeiras, e a maioria das vezes assentada em motivos emocionais ou pressões sociais.

A retórica é a arte de falar e convencer os outros sem ter em consideração a verdade das premissas.

Vamos agora analisar algumas afirmações:

“A etologia criou a teoria da dominância dos cães”.
Esta afirmação é bastante utilizada atualmente e por isso quero analisá-la em primeiro lugar. A primeira pergunta que eu faço sob esta afirmação é: O que é a etologia?

A etologia é o estudo do comportamento animal no seu ambiente natural. A abordagem da etologia difere dos métodos utilizados noutras ciências do comportamento, por exemplo, a etologia explica o comportamento baseado na sua função e causa. A psicologia explica os comportamentos através de processos fisiológicos ou mecanismos de aprendizagem e cria ambiente artificiais ou controlados para estudá-los. A etologia estuda o comportamento do animal no seu ambiente natural e descreve o comportamento como a seleção natural o moldou e desenvolveu variações. Embora os princípios possam parecer os mesmos, as abordagens utilizadas determinam o resultado dos seus objetivos. Através da sua abordagem, a etologia permitiu a elaboração de etogramas de várias espécies, sendo a matriz essencial para o estudo das mesmas, incluindo os cães.

Dentro da etologia existe uma disciplina ainda um pouco taboo no meio científico pela fácil associação com o antropomorfismo, que tem como nome etologia afetiva (Bekoff, 2010).

A etologia afetiva refere-se ao estudo comportamental dos estados afetivos, emoções, sentimentos de uma espécie. A etologia afetiva é importante para o tratamento de animais, pois a questão de saber se os animais podem sentir sentimentos como dor, medo, alegria e felicidade é o cerne das discussões sobre o bem-estar animal e a ética animal. Nos últimos anos, o interesse pelas emoções dos animais aumentou devido aos desenvolvimentos na neurociência afetiva.

De referir que nos humanos, as emoções são um despertar do estado do corpo, acompanhado de comportamentos característicos e sentimentos internos particulares. Nos restantes animais, a forma de como o comportamento é demonstrado difere de cada espécie, sendo assim perigoso tentar utilizar a emoção como uma abordagem para explicar determinado comportamento.

A segunda pergunta que faço sob esta afirmação é: De onde surgiu a teoria da dominância dos cães? Esta pergunta vai dividir-se em duas outras perguntas, a primeira, o que é a dominância? E a segunda, o que é a teoria da dominância dos cães?”

Para a primeira sub-pergunta: Dominância não é uma característica ou traço de personalidade, é um comportamento. E o que é um comportamento dominante e como a dominância pode influenciar a interação da espécie?

O comportamento dominante é um comportamento quantitativo e qualitativo apresentado por um indivíduo com a função de obter ou manter acesso temporário a um recurso em particular, numa ocasião em particular, versus um oponente em particular, sem existir qualquer tipo de injúria entre as partes. Se entre qualquer uma das partes ocorrer injúria, o comportamento é agressivo e não dominante. As suas características quantitativas variam de ligeiramente auto-confiante a completamente auto-confiante (Abrantes, 1997).

O comportamento dominante é particularmente importante para animais sociais que necessitam de co-habitar e cooperar para sobreviver. Portanto, uma estratégia social específica evoluiu com a função de lidar com a concorrência entre companheiros, enquanto confere um maior benefício ao menor custo.

A dominância regula a agressão em sociedades animais com altas taxas agonísticas, favorecendo o estabelecimento de relações hierárquicas para preservar a homeostase social (Elkins, 1969). Hierarquias sociais variam de espécie para espécie e nem sempre são lineares, principalmente em espécies afetadas com os efeitos de domesticação, por isso determinados termos como Alpha, foram demonstrados em variados estudos que não se aplicam nesse contexto específico em determinadas espécies, estando o lobo e o cão incluídos.

A partir da própria definição reparamos que outras palavras são utilizadas socialmente para substituir “dominante”, tal como “confiante”, curiosamente com o mesmo significado.

A partir daqui podemos começar a concluir que a etologia per se não criou qualquer tipo de teoria da dominância e é bem clara na sua definição, o que nos leva para a segunda sub-pergunta: O que é a teoria da dominância nos cães?

Essa teoria foi criada no mundo do treino canino baseada num modelo de lupomorfismo (lupomorphism), que sugere que as interações sociais entre os humanos e cães devem ser baseadas nas regras aplicadas na sociedade lupina, ou seja, uma rígida hierarquia feita pelos humanos que devem utilizar comportamentos baseados na sociedade lupina. Contudo, este modelo embora ainda em uso no treino de cães, começou a ser desacreditado depois que o Dr. David Mech e a sua equipa com a evolução dos seus estudos, mostraram que o uso do termo “alpha” no caso dos lobos foi usada de forma errônea a partir do momento que os estudos mostraram que os lobos não possuem uma hierarquia tão rígida conforme se pensava antes, mas NUNCA rejeitou que a dominância não existe nos lobos. Aliás, um estudo efetuado no comportamento social entre os cães demonstrou que as interações dos cães são menos estabilizadas do que as interações entre os lobos (Feddersen-Petersen, 1991)

Isto leva-nos a outra afirmação: “Os cães não são lobos, seria como comparar os humanos com os macacos e por isso eles não formam grupos”.

A primeira parte da afirmação “Os cães não são lobos (…)” é facilmente comprovada a nível taxonómico. Está correto.

A segunda parte “(…) seria como comparar os humanos com os macacos”, a nível evolucionário esta afirmação é um perfeito disparate e um insulto à comunidade científica. Primeiro, porque ao consultarmos a linha evolucionária dos lobos-cães com macaco-homem tanto num aspecto paleo-antropológico como num aspecto evolucionário reparamos que milhões de anos separam ambos com as complexas variáveis e ancestrais comuns envolventes em ambas as evoluções. E segundo, com esta afirmação é criada uma incoerência argumentativa enorme que revela uma perfeita ignorância sobre o assunto e pode desacreditar à priori todas as afirmações anteriores.

A última parte da afirmação “(…) eles (cães) não formam grupos” tem sido amplamente utilizada pelo mundo. As minhas questões: O que é um animal social? O que é comportamento social?

Um animal social, em biologia, é um organismo que é altamente interactivo com outros membros da sua espécie ao ponto de terem uma sociedade distinta e reconhecível.

O comportamento social é definido como interações entre indivíduos, normalmente dentro da mesma espécie, que geralmente são benéficas para um ou mais indivíduos.

Outra questão: Podemos assim afirmar que o cão é o único animal social do mundo que não forma qualquer tipo de grupo a partir das suas interações sociais?

Uma rápida pesquisa em fontes fidedignas forneceu variados estudos efetuados desta temática. Neste meu artigo compilei uma série de estudos e artigos científicos de cientistas que passaram/passam décadas a estudar o comportamento canino e que suportam tudo o que foi escrito acima.

Sobre o comportamentalismo
As recentes críticas do comportamentalismo têm como afirmação: “O comportamentalismo é mau porque castiga os animais e muitos treinadores o utilizam para isso”.

Este argumento é falacioso, emocional e moralista. E vamos analisar o porquê da sua inconsistência.

Novamente, estamos a culpar a ciência pela sua suposta aplicação prática e a utilizar vários termos sem o conhecimento real das suas definições.

O que é o comportamentalismo?
É uma teoria ou conjunto de métodos de investigação na área da Psicologia que pretende estudar o comportamento com base na observação e análise de estímulos e reacções, em detrimento da introspecção e da consciência. Assume que todos os comportamentos são reflexos produzidos por uma resposta a certos estímulos do ambiente, ou uma consequência da história desse indivíduo, incluindo especialmente reforço e punição, juntamente com o estado motivacional atual do indivíduo e os estímulos de controle. Tem como bases o comportamentalismo radical, análise experimental do comportamento e análise aplicada do comportamento. Temos como principais desenvolvedores J.B Watson, I.P. Pavlov, E. Thorndike e B.F Skinner.

Às experiências onde o comportamento era aumentado ou reduzido pelas consequências, Skinner chamou de aprendizagem operante, porque o comportamento atua no ambiente. Skinner identificou assim quatro tipos de procedimentos operantes: dois que reforçavam/aumentavam o comportamento (reforço) e dois que diminuíam/inibiam o comportamento (inibidor).

Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

Um inibidor (castigo/punição) é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

Nas definições científicas, assim como em toda a ciência, não há conotações negativas ou positivas dos termos. Tudo depende da aplicação. E é na aplicação de reforços e inibidores onde existe a maior discussão. Os reforçadores e inibidores estão sempre sujeitos a três condições distintas: O indivíduo, o comportamento e o momento, e devem ser aplicados na qualidade e intensidade certa. Não devem ser generalizados de uma forma mecânica como se de uma verdade absoluta se tratasse.

No treino animal, utilizam-se expressões como recompensar o cão ou punir o cão, expressões essas errôneas, porque não estamos a recompensar ou punir indivíduos, mas sim a reforçar ou inibidor um comportamento. Neste meu artigo eu desenvolvo este assunto mais sucintamente, recomendo a leitura.

Por outro lado, não existe um consenso de termos do que estamos a ensinar ao cão e como o estamos a ensinar. Esta falta de precisão não é por culpa da ciência, porque ela é bem clara do que utilizamos, ou sinais, indícios ou comandos.

Um sinal é tudo o que intencionalmente causa a alteração do comportamento do receptor.

Um indício (Cue) é tudo o que de forma não-intencional causa a alteração do comportamento do receptor.

Um comando é um sinal que causa a alteração do comportamento do receptor de uma forma especifica sem variação ou com uma variação extremamente mínima.

Neste meu artigo escrevo e demonstro na prática vários exemplos de como devemos ser claros, simples e precisos na comunicação inter-espécie, com as técnicas adequadas (respeitando a espécie) à programação do próprio ensino.

E neste, descrevo mais em pormenor a precisão no treino animal.

O que podemos então concluir?

O problema central não está na ciência, que é muito clara nas suas definições, mas sim nas aplicações práticas de determinadas pessoas, utilizando a pseudociência tanto para tentar afirmar como para negar, tendo a vantagem da maioria das pessoas que absorvem essa informação não vão pesquisar e limitam-se ao que possam ler ou ouvir nas redes sociais, blogs ou opiniões de pessoas por muito famosas que possam (querer) ser.

Os estudos científicos devem ser acima de tudo um controle de qualidade para o profissional, não interessando o tempo de experiência. O tempo de experiência é irrelevante. O tempo de prática significa aplicar os conhecimentos e (às vezes) aprimorá-los, o que significa que pouco pode mudar e apenas estamos a alimentar o que achamos certo, mesmo que possa ser conotado de errado ou vice-versa.

Em parte posso entender a evitação em falar de certos assuntos por tão negativos eles estão conotados, mas a grande maioria das pessoas que evitam não sabem o seu real significado, resultado de todos os condicionamentos sociais acima escritos. Eu defendo o real conhecimento e que cada pessoa, como indivíduo, faça as suas decisões pessoais e profissionais sem incoerências ou pressão social.

O gostar de animais não deve ser um requisito único para o treino animal. A noção de estarmos a comunicar com uma espécie diferente dá-nos a responsabilidade de procurar cada vez mais informação científica (fidedigna) com uma visão pragmática em tudo, de forma a procurarmos ainda mais e não cairmos no erro de acreditar em tudo o que lemos ou ouvimos dos outros. Estimular os comportamentos naturais da espécie e não os condicionar às vontades e pressões sociais deve ser o principal.

Não seja o que a sociedade quer, nem ceda às suas pressões. Respeite as outras espécies e comunique com elas não por oposição, mas porque existe um feedback natural entre vocês. O conhecimento é uma ferramenta poderosa e é gratuita. A falta de conhecimento é caríssimo. Nosce te ipsum.

Referências de leitura complementares recomendadas

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Recompensa ou Reforço? vs Punição ou Inibição?

É comum nos dias de hoje ouvirmos diferentes termos no treino animal, principalmente no treino canino, que têm (supostamente) na prática a mesma aplicabilidade.

Ao longo destes anos percebi que muitos termos são utilizados devido a um próprio condicionamento social no uso de determinados termos por soarem melhor nos ouvidos. Vários profissionais utilizam e ensinam esses termos às futuras gerações em nome da própria ciência.

Algo que me identificou bastante com o Ethology Institute foi o gosto por dicionários e de seguirmos padrões científicos precisos quando falamos de algo, afinal todos nós aplicamos a ciência na prática e antes de fazermos necessitamos de saber do que estamos a falar.

Considero importante os profissionais primeiramente saberem as definições dos termos que utilizam e depois decidirem por sua consciência se consideram apropriado utilizá-los mesmo não seguindo o padrão científico. Cada um é livre de escolher que tipo de profissional quer ser e que tipo de profissionais quer formar.

Palavras como “reforço ” e “punição”, sempre são faladas já com determinadas conotações, algo desfasado da ciência como já escrevi neste artigo.

Precisamos assim refletir sobre determinados termos e decidir por nós próprios se queremos seguir termos científicos ou termos socialmente aceites.

Um dos mais comuns é a palavra “Recompensa”.

Uma recompensa é uma retribuição, compensação por ação meritória; ato ou efeito de recompensar; Prémio; Galardão.

Um reforço/reforçamento é um processo onde certa resposta torna-se fortalecida como resultado de uma aprendizagem.
Ou
É tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento em particular quando apresentado—Reforço positivo (+)—ou removido—Reforço negativo(-)—em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento ser apresentado.

Ocasionalmente, o uso da palavra “recompensa” e a fraca explicação do que a palavra significa por parte de quem a usa induz em erro muitas famílias com animais de estimação, e não muito raro transmite a informação que estamos a “subornar”, criando etiquetas sociais ao trabalho das pessoas e descredibilizando um grupo inteiro caso algo não funcione.

O próprio Skinner em 1987 contestou o uso desse termo ao escrever que “O efeito de fortalecimento é perdido quando os reforços são chamados recompensas (…) As pessoas são recompensadas, mas o comportamento é reforçado.”

O mesmo se passa com “Punição” ou “Castigo”

Essas palavras traduzidas diretamente do Inglês tem conotações muito negativas e em muitos países até religiosa.

Também é comum esta palavra ser automaticamente conotada como algo mau.

Uma punição é um acto ou efeito de punir; Uma pena; Um castigo imposto a alguém.

Um inibidor é algo que produz uma inibição; que ou o que possui a a capacidade de diminuir ou suprimir a atividade de uma substância orgânica.

Assim,resultando de toda a sua experiência linguística ao longo destes anos pelo mundo, o Dr. Roger Abrantes começou a utilizar a palavra inibidor no conceito operante por cientificamente melhor se adequar à definição.

Desta forma, um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento em particular quando apresentado—Inibidor positivo (+)—ou removido—Inibidor negativo(-)—em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento ser apresentado.

Todas as conotações dadas a termos de forma a serem socialmente aceites em nada ajudam na transmissão do conhecimento tanto para famílias com animais de estimação como para futuros profissionais que apreendem diretamente estes termos e os colocam em negação quanto ao uso prático destes termos, nem no respeito que a própria ciência merece. A ciência não é boa nem má, a ciência é o que é.

Eu defendo a clarificação e o real conhecimento científico de determinados termos, os extremismos e condicionamentos da própria sociedade não ajudarão os profissionais existentes nem os futuros a terem um pensamento crítico no que fazem, algo que considero fulcral quando estamos a lidar com outros seres vivos e os devemos respeitar como tal.

Sem julgamentos, deixo para nossa reflexão e decisão:
– Cientificamente, estamos a recompensar/punir o cão ou a reforçar/inibir o seu comportamento?
– Seremos realmente precisos connosco quando estamos a trabalhar com outra espécie ao ponto de termos a noção de que aplicar um reforço/inibidor standard nem sempre funciona?
– Será correto colocarmos etiquetas no nosso trabalho como forma de marketing ou correntes sociais, quando na verdade cientificamente ao aplicamos reforços ou inibidores nas interações interespecíficas não significa estarmos a ser “bons” ou “maus”?
– Será mais correto utilizar palavras fáceis socialmente saturadas ou explicar de forma simples a definição científica e os termos corretamente?

Esteja sempre na dúvida do que lê e ouve, procure sempre mais e pense sempre por si. Carpe Diem!

Referências

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Um profissional ou um pirata?—Uma visão antrozoológica

Este texto está compactado em artigo e está de forma completa no livro “Uma nova visão sobre o treino animal”.

No mundo do treino animal deparamo-nos com a essência do homem primitivo na criação de grupos dentro da sua tribo.

O facto de não existir uma profissionalização da atividade a nível mundial, leva-nos a discussões longas, a maioria ideológicas ou moralísticas.

No âmbito antrozoológico, que também engloba a componente filosófica, raciocino bastante sobre esta questão, sem julgamentos ou pensamento dogmático, utilizo o pensamento crítico. A minha maior reflexão é do porquê desta atividade não ser profissionalizada visto que os animais não-humanos estão a viver sobre os nossos caprichos há milhares de anos e do porquê do pouco reconhecimento existente ainda estar preso às correntes das utilizações dos animais para fins de interesse governamental.

Não é a minha função afirmar o que é certo ou errado, mas sim um dever escrever a forma como eu vejo esta situação através de um raciocínio dedutivo, deixando para vossa análise as várias diferenças do discurso argumentativo vs discurso retórico, entre opiniões e afirmações e entre factos e falácias.

Também não coloco em questão o gosto e dedicação de todos os grupos pelos animais não-humanos, o meu papel nunca será de juiz, afinal concordância e respeito pelas pessoas são dois conceitos diferentes e características individuais de cada indivíduo.

Eu sempre gosto de fazer as distinções destes termos para que sigamos todos a mesma linha de raciocínio, porque não é raro a utilização destes termos sem o conhecimento do verdadeiro significado.

Pensar é a atividade da mente que tenta fazer sentido dos acontecimento da vida, podemos pensar o que nos apetecer sem qualquer tipo de esforço, o que nos faz querer ou desejar algo.

Raciocinar é um processo que nos ajuda a aceitar ou rejeitar afirmações feitas por nós próprios ou pelos outros.

O pensamento dogmático caracteriza-se por uma aderência firme e cega a um certo conjunto de instruções.

O pensamento crítico reconhece e aprecia as diferenças contextuais e a sua complexidade, rejeitando conclusões prévias e aceitando conclusões mais adequadas.

Uma premissa é uma sentença declarativa que serve de base para um raciocínio, o que levará a uma conclusão.

Um argumento é um conjunto de várias premissas ou justificações que levam a uma conclusão. Este processo pode ser bom ou mau, mas nunca verdadeiro ou falso. Os argumentos podem ser explícitos (quando as premissas que levam à conclusão são todas declaradas) ou implícitos (quando as premissas que levam à conclusão são sub-entendidas). Estes últimos são muito utilizados a nível publicitário. Também podem ser classificados como válidos ou inválidos, fortes ou fracos, convincentes ou não.

Uma falácia é o erro na formulação de um argumento.

Uma opinião é a expressão de uma crença subjectiva ou uma tomada de posição sobre um determinado assunto, nem sempre assentada em premissas verdadeiras, e a maioria das vezes assentada em motivos emocionais ou pressões sociais.

A retórica é a arte de falar e convencer os outros sem ter em consideração a verdade das premissas.

A minha analogia com o “pirata” segue na sua definição de adjetivo de não ser original e/ou na definição informal de um indivíduo ardiloso. Tanto profissionais como piratas existem nos grupos abaixo como irão confirmar.

Quando trabalhamos com seres vivos, devemos ter a ciência sempre como base de tudo e não o pensamento dogmático, retórica ou falácias de generalização e excepção.

É de extremo interesse refletir as batalhas grupais dentro das tribos modernas sobre este assunto e tentarmos com questões diretas chegar a várias respostas possíveis de implementação imediata.

De momento, classifico três tipos de grupos com os respectivos sub-grupos :

– Grupos que reconhecem a sua glória através de demonstrações de poder (troféus, medalhas, diplomas) na sua maioria com animais previamente selecionados e treinados de forma contínua para o efeito, por vezes com a necessidade de uma rápida aprendizagem devido a condicionamentos temporais, divergindo a realidade da necessidade social. Estes grupos subdividem-se em indivíduos que apenas se dedicam à atividade específica que estão credenciados ou reconhecidos pelos devidos clubes desportivos ou possíveis entidades governamentais, em ambos os casos, e repito, somente para a atividade específica; Em indivíduos que utilizam as demonstrações de poder para generalizar a atividade a outras áreas da atividade como se fosse tudo uma só verdade; Em indivíduos que juntam os dois sub-grupos acima e os utilizam como forma de persuasão, intimidação ou simplesmente de rebaixamento do próximo; E em indivíduos que utilizam a sua glória apenas para fins lúdicos e/ou pessoais.

– Grupos que reconhecem a sua glória através de formações, leituras, serviços sociais e atividades similares. Estes grupos subdividem-se em indivíduos que necessitam de atualização permanente na sua área específica de atuação; Em indivíduos que se regem bastante pela teoria e a prática está limitada a essa teoria, tendo como demonstração animais previamente selecionados e de preferência já com uma boa aprendizagem do que vai ser demonstrado; Em indivíduos que através da sua experiência em determinada atividade que envolvam animais não-humanos começam a trabalhar com os mesmos sem prévio conhecimento científico mas por imitação teórica/prática; Em indivíduos que equilibram a teoria com a prática, com os próprios limites auto-impostos da atividade específica, que procuram uma constante melhoria mesmo que iniciem-se noutras áreas da atividade; E em indivíduos que, pela constante presença em eventos, workshops ou outras atividades teóricas, iniciam a sua atividade. Dentro deste último sub-grupo, subdividimos em indivíduos que sempre procuram atualização com o conhecimento dos seus limites e em indivíduos que criam pensamentos dogmáticos, não saindo da teoria. Dentro deste grupo também é commumente vermos demonstrações de poder ou os factores temporais da aprendizagem do grupo acima (principalmente em empresas) e algumas características do grupo seguinte.

– Grupos que reconhecem a sua glória pela experiência pessoal e/ou pseudo conhecimento através de leituras sociais sobre o assunto (pesquisa google e imitação básica de profissionais existentes). Estes grupos subdividem-se em indivíduos que têm como exemplo apenas cães próprios e criam um conhecimento universal ; Em indivíduos que iniciam a atividade sem qualquer conhecimento científico e puramente com pensamento económico (estes utilizam a retórica e argumentos implícitos), criando verdades absolutas, a necessidade para as pessoas, garantias de resultados, o encobrimento do seu trabalho ou a prática devidamente selecionada, de preferência que possa trazer protagonismo ou criar empatia social, a maioria relacionada a projetos sociais. Este sub-grupo é adepto de ter várias decorações na vestimenta (patches, medalhas, etc…) como forma de persuasão ou credibilidade e tem interligações diretas com os grupos acima.

Tenho um artigo sobre o treino científico ou moralístico que recomendo fortemente a leitura para uma melhor abrangência de todos os conceitos presentes. Clique aqui para aceder ao artigo.

Existem também qualificações especificas que são deturpadas ou generalizadas que apenas são obtidas a nível universitário. Não seria muito diferente de um oftalmologista fazer trabalhos dentários porque a sua “área de atuação” é próxima uma da outra.

O moral e ética deve estar acima de tudo em raciocinarmos sobre os nossos limites.

É uma questão de equilíbrio, nem muito tempo só com teoria nem muito tempo só com prática, é assim que se originam extremismos e incoerência em todos os grupos. Não é culpa nossa, é a nossa essência cultural e social. Mas podemos mudar.

Será que ao termos Profissionais e Piratas em todos os grupos, uma discussão dos pontos em comum entre os grupos será o ponto de partida para reflectir sobre as discordâncias e tentarmos todos remar para o mesmo lado: O “tal” do Bem-estar animal?

Agora cabe a si analisar e decidir: Um Profissional ou um Pirata?

REFERÊNCIAS

ABRANTES, R. 2013. So you want to be a good dog trainer! Ethology Institute Cambridge.

BARATA, R. 2017. Scientific or Moralistic Training?. Etologia.pt.

DEMELLO, M. (2012). Animals and Society: An introduction to human-animal studies. Columbia University Press.

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GROSS, R. (2010). Psychology, the Science of Mind and Behaviour, Sixth Edition. Holder Education.

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JOYCE, R. (2006). The Evolution of Morality. MIT Press books.

MORRIS, D. (1967). The Naked Ape: A Zoologist’s Study of the Human Animal. Delta(1999).

MORRIS, D. (1969). The Human Zoo. Kodansha America, Inc.

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SCOTT, J. P. (1976). Violence and social Disaggregation. Aggressive Behavior, 1, 235-260.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

“Ficar ou não Ficar”- Eis a questão

Nas comunicações interespecificas devemos ter sempre em atenção o facto de não termos a mesma linguagem. Como tal, é necessário comunicarmos de forma clara e precisa.

No ensino canino, temos variados checklist padrão que todos os cães têm de cumprir e que assim nos vai permitir ter um cão “obediente”. Durante alguns anos utilizei-os até ao momento que comecei a questionar todos os sinais que eu transmitia a outras espécies e senti a necessidade de os adaptar de forma individual, respeitando os progressos e os próprios limites do indivíduo.

Antes de continuar, quero reafirmar que não me cabe a mim avaliar ou julgar os métodos de trabalho dos outros profissionais. Todos temos a liberdade de utilizar os métodos que melhor se assemelham às nossas características e personalidade e não será isso que nos faz melhores ou piores do que os outros, apenas diferentes. Respeitar não significa concordar.

Quando levamos alguma atividade profissional de forma séria, necessitamos de constantes atualizações tanto na teoria como principalmente na prática, não fazendo de tudo uma verdade absoluta e ter a vontade de mudar quando necessário.

Quando estamos a comunicar com outras espécies e a ensinar à nossa como comunicar, necessitamos de ser o mais claro e precisos possíveis, explicando o porquê de cada passo que damos no ensino. E tudo começa nos termos e sinais que utilizamos.

No começo, necessitamos definir cientificamente alguns termos que vou abordar neste artigo e reter alguns pontos:

– Sinal: Um sinal é tudo o que intencionalmente causa a alteração do comportamento do receptor.

– Todos os sinais têm um significado e uma forma de serem dados.

– Nós classificamos os sinais numa escala de Bom para Mau, dependendo da sua eficiência, clareza, intensidade, forma e compreensão inequívoca do recetor, independentemente do ambiente.

– Um sinal vai originar um comportamento, logo:
Um sinal => Um comportamento.

– Todo o comportamento tem uma consequência, logo:
Um sinal => Um comportamento => Uma consequência

– As consequências vão definir a frequência, intensidade e/ou duração de um comportamento. Para tal, são utilizados reforços e inibidores.

– Reforço: Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

– Inibidor: Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado.

– Todo e qualquer sinal que será transmitido a outra espécie, necessita de estar devidamente discriminado e explicado no devido plano de acção, assim como os princípios de conhecimento científico que cada profissional deve ter.

No Ethology Institute Cambridge, utilizamos a linguagem científica precisa denominada SMAF (Signals, Meaning And Form), criada pelo Dr. Roger Abrantes. Embora num nível mais profissional, possa parecer complexa, esta linguagem preza pela simplicidade e, acima de tudo, pela precisão no treino animal.

A seguir, vou exemplificar os sinais mais comuns que utilizamos no treino canino e o seu significado e forma.

Para simplificar, vou escrever uma única linha com:
Técnica a ensinar => O significado do sinal => A forma do sinal

– Nome(Técnica) => Olha para mim(Significado) => Nome,som(Forma)

– Senta(Técnica) => Coloca o traseiro no chão
 E mantêm-o lá até receberes
 outro sinal(Significado) => Senta,som + Senta,mão(Forma)

– Deita(Técnica) => Coloca a barriga no chão
 E mantêm-a lá até receberes
 outro sinal(Significado) => Deita,som + Deita,mão(Forma)

– Sim(Técnica) => Continua(Significado) => Sim,som(Forma)

– Não(Skill) => Pára(Significado) => Não,som(Forma)

Nos vídeos a seguir, demonstro todas as técnicas acima descritas.


Aqui podem ser vistos mais vídeos com as próprias famílias a trabalharem com os seus cães e a aplicarem vários sinais.

Seguindo a programação do ensino, com os ajustes necessários ao progresso e ao limite de cada cão, é possível aumentar a intensidade, frequência, duração de um determinado comportamento, tanto em distância como no aumento dos estímulos presentes.

Com esta precisão e clareza na definição dos sinais, não necessitamos de sinais adicionais e por vezes redundantes para o mesmo comportamento. A própria repetição do sinal durante a técnica pode criar antecipações de vários tipos, se notarmos que o próprio tom que utilizamos vai variando.

Reparo nisso diariamente no contato com as famílias e seus cães. O nervosismo e incerteza as quais elas se agarram nesses sinais como própria segurança. E quando as questiono sobre o significado do que estão a pedir ao cão, não sabem explicar. Questione sempre o significado de tudo.

Se a repetição sistemática do sinal durante a técnica for simplesmente substituída pelo reforço semi-condicionado utilizado no treino (ex: Muito bem), temos uma melhor eficiência no ensino das técnicas. Tudo isto naturalmente misturado com o próprio progresso no ensino e as alternativas a aplicar caso a forma programada não resulte.

Deixo a saudável reflexão deste artigo para que no futuro possam (ou não) desafiar a vossa simplicidade, precisão e pensamento crítico na prática.

REFERÊNCIAS
ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka

Abrantes, Roger. 2011. Unveiling the Myth of Reinforcers and Punishers.

Abrantes, R. 2013. So you want to be a good dog trainer!

Abrantes, R. 2011. Commands or Signals, Corrections or Punishers, Praise or Reinforcers.

BARATA, R. (2016). Signals precision in animal Training.

CHANCE, P. (2008) Learning and Behavior. Wadsworth-Thomson Learning, Belmont, CA, 6th, ed.

DARWIN, C. (1899). The Expressions of the Emotions in Man and Animals. New York D. Appleton and Company.

EKMAN, P. (1976). Nonverbal Communiction: Movements with Precise Meanings. Journal of Communication, 26(3),14-26.

HOROWITZ, Alexandra. (2014). Domestic Dog, cognition and Behavior—The Scientific Study of Canis familiaris. Springer.

LORENZ, Konrad. (1981). The foundations of ethology.
Based on a translation of Vergleichende Verhaltensforschung, with revisions. Springer Science+Business Media New York.

WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic

Cursos de certificação para detentores de cães

Na Dinamarca, eu e Tilde Detz Jensen, GAT-EIC, do etologi.dk, ministramos todos os fins de semana os Cursos de certificação Básica ou avançada para detentores de cães—do ethology.eu—do Dr. Roger Abrantes. Este é o curso que todas as famílias com cães obtêm no instituto, um modelo inovador de ensino teórico-prático, permitindo o acompanhamento contínuo e atualizado de todos os detentores de cães.

O curso dá todos os fundamentos que as famílias precisam para criar e desfrutar de um bom relacionamento com os seus cães na sociedade, independentemente da idade e raça.

As nossas técnicas não envolvem o uso da violência, mas sim o conhecimento científico atualizado e a sincronia natural humano-animal, com a diferenciação do ensino individual de cada cão e detentor, adaptando o programa do curso sempre que necessário. O nosso objetivo é criar o entendimento mútuo, respeito e o vínculo perfeito entre o cão e a sua família.

Este curso destina-se a cães sem formação prévia ou com um ensino muito básico. Cães e detentores com formação prévia a maioria das vezes escolhem os nossos cursos profissionais ou serviço de coaching individual.

Implementamos também uma componente teórica, onde os detentores têm acesso a um curso on-line e um manual (Animal Training, My Way, de Roger Abrantes) com todos os conhecimentos necessários sobre comportamento e comunicação canina e as técnicas mais relevantes aprendidas na parte prática: Uso correto da coleira, Senta, Deita, Chamada, Não saltar às pessoas, aceitar a separação, socialização em vários ambientes reais com estímulos e atividades variadas, estimulação cognitiva e técnicas de resolução de problemas.

Este novo curso actualizado é o resultado de uma experiência total de 70 anos entre os envolvidos no programa, já com sucesso na Dinamarca e brevemente nos EUA, Espanha, Itália, Suíça, França e Austrália, pelos Provedores regionais aprovados (AREP’s) pelo Instituto de Etologia de Cambridge.

Saiba mais sobre os cães na Dinamarca.

Potencialmente perigosos ou potencialmente em perigo?

Não sou politicamente correto. Não o devemos ser quando falamos de seres vivos.

Devido ao meu trabalho diário com várias espécies e famílias com animais de estimação, diariamente questiono-me e reflicto sobre a interação humano-animal e procuro incessantemente um equilíbrio social para que ambas as espécies vivam em harmonia.

Desta forma, e devido ao constante mediatismo sobre algumas raças, cabe-me livremente escrever alguns factos, comentar as situações recentes e questionar outras, deixando claro que é um artigo baseado em estudos atuais, factos científicos (Ver todas as Referências no final do artigo) e pela experiência prática de resultados eficazes que diariamente comprovo e questiono como forma de auto-imposição de atualização regular na área.

A quem não concordar, peço apenas que apresente argumentos que tenham uma validade factual na comunidade científica como eu vou colocar e disponibilizar no final da página e convido à leitura. Caso contrario, são meras opiniões pessoais embelezadas socialmente ou por simples frustrações e sem validade factual, as quais dispenso solenemente. Os cães merecem mais do que simples demonstrações de poder do homem primitivo.

A ciência não tem bom nem mau ou é uma verdade absoluta, a ciência é o que é e diariamente é questionada e estudada, cabe às pessoas seguirem ou não os estudos recentes na área.

Segundo o U.S. Department of Health & Human Services, nos Estados Unidos, aproximadamente 4,5 milhões de mordidas de cães ocorrem a cada ano, num universo estimado de 78 milhões de cães (2016). 41 dessas mordidas resultaram em morte (0.00000053%), sendo 18 em adultos acima dos 30 anos, 13 em crianças com 9 anos ou menos e 10 em recém-nascidos entre os 3 e os 6 dias.
FONTE: http://www.dogsbite.org/dog-bite-statistics-bibliographies-government-studies.php

Em todas as sociedades existem o estereótipo de algumas raças como “más” e “perigosas”. O próprio poder legislativo dissemina essa tendência ao criar legislação própria para determinadas raças de cães e colocá-las em especial condição de treino. Estamos assim a condenar grupos e não indivíduos. Querem tratar dos sintomas sem tratar do verdadeiro problema: Falta de conhecimento social e a limitação profissional de escolha imposta pela falta de regulamentação da própria legislação.

O processo de domesticação do cão (Canis lupus familiaris ou—agora commumente chamado no meio científico de— Canis familiaris ) estima-se que começou entre os 15.000 e os 30.000 anos atrás. Desde então, a seleção natural do cão foi gradualmente sendo desrespeitada. A seleção artificial por via dos humanos começou a imperar para que a espécie fosse “ajustada” à necessidade humana. A própria deterioração social intra-espécie em grupo começou a deteriorar-se, como demonstram estudos efetuados em 1991, 2004 e 2007 que comparou os índices de interações agonísticas num grupo de lobos (Canis lupus) e em vários grupos de cães, agrupados por raças (Feddersen-Petersen, ler nas referências). Esta espécie teve uma linha de tempo de adaptação natural muito curta num contexto evolucionário, em menos de 10 anos, os cães começaram a ser confinados em apartamentos ou espaços fechados, aumentando exponencialmente os problemas comportamentais.

Os próprios processos de imprinting e desenvolvimento da espécie estão a ser manipulados consoante as estratégias de marketing ou tendências sociais, sempre em prol do “Bem-estar animal”, dizem. E isto é somente a ponta do icebergue.

Os conceitos humanísticos e moralisticos em criar uma “cidadania” para os animais domésticos está a criar um paradigma na forma da ação política. Por um lado, temos uma legislação somente teórica que segue princípios de proteção meramente humanitários sem ter em conta as necessidades naturais individuais da espécie. Por outro, apenas nos são dadas obrigações sem qualquer tipo de formação ou informação. E ainda dentro dessa legislação, temos uma discriminação de raças (grupo), com regras e deveres específicos que devem ser seguidos. Mesmo as entidades fiscalizadoras tiveram uma formação bastante limitada, onde a maioria das vezes desconhece a própria lei e não sabe distinguir ou assinalar as raças em questão.

Entramos assim num círculo político perigoso, onde a lei protege totalmente uma espécie, mas por outro lado condena previamente vários grupos da mesma.

De momento, Portugal é um desses exemplos. Com sete raças consideradas “potencialmente perigosas”.

A lei portuguesa considera potencialmente perigoso qualquer animal que, devido às características da espécie, comportamento agressivo, tamanho ou potência de mandíbula, possa causar lesão ou morte a pessoas ou outros animais.

A própria definição por si só num contexto científico não tem qualquer fundamento ou argumento para que apenas determinadas raças estejam incluídas. Temos apenas uma definição vaga, feita de propósito para irem incluindo raças conforme considerem necessário. E vamos por partes:

– “Características da espécie”. A nível de taxonomia, Canis lupus familiaris é uma sub-espécie do Canis lupus que abrange todas as raças de cães conhecidas e não um grupo específico ou restrito de raças. De momento, novas correntes utilizam apenas Canis familiaris, pelo facto das novas e atuais raças serem na sua maioria fruto da seleção artificial.

– “Comportamento agressivo, tamanho ou potência da mandíbula”. Compreende-se assim que a legislação afirma que só estas sete raças apresentam comportamento agressivo. Além de não ter o mínimo de pesquisa, o legislador apresenta um total desconhecimento do que escreve. E assim o comprovo através de artigos de cientistas de renome mundial. Recomendo a leitura:  O que é agressividade e comportamento agressivo; Herança e ambiente. E já que queremos fazer a discriminação por raças, mais um estudo que demonstra o nível de agressividade entre raças. E se queremos ainda mais precisão, um estudo sobre a influência da dimensão craniana com a pressão mandibular e um estudo atual sobre o mapa genético do medo e agressividade dos cães.

Um estudo comparativo recente sobre incidentes com raças legisladas como “perigosas” e raças não legisladas demonstra que não existe razão para tais legislações existirem.

Sendo assim, e perante todos estes factos, cabe-me fazer algumas questões sobre estas situações. Será de todo importante questionarmos a quem de direito e lançarmos esta discussão em praça pública se realmente queremos mudar algo. Quem permanece no silêncio ou isenção, compactua de forma criminosa com estas situações, por mais que possa dizer o contrário.

Com a política de proteção animal atual, é inadmissível que haja esta classificação de um grupo específico de raças e suas variantes. É dada a entidades específicas uma total liberdade para ministrar esta formação sem existirem consultorias externas e/ou  internacionais sobre formação de detentores em ambiente social.

Vai abrir-se um precedente muito perigoso em Portugal que deve ser já parado antes de ter consequências desastrosas.

Os temas apresentados e a duração das formações são  um atentado ao bem-estar animal e política atual de proteção animal e à própria ciência caso seja seguida uma linha de treino que em nada é realista com as necessidades individuais, com a sociedade ou com o ensino social atual praticado pelo mundo inteiro com fundamentos e bases científicas atualizadas.

As questões urgentes que se deve colocar a quem irá efetuar determinadas certificações no âmbito da sociedade civil perante a legislação atual são:

– Qual a formação dos instrutores destes cursos além de metodologias e conhecimentos além das suas áreas de atuação? Como podem os mesmos demonstrarem estarem aptos para tal certificação?

– As formações e certificações dadas vão ser baseadas aos treinos operacionais das mesmas?

– Quantos cães destas raças estão ao serviço dessas entidades para que sejam somente eles a ministrar essa formação?

– Qual o critério de formação numa sociedade civil para os candidatos a treinadores terem de efetuar provas de mordedura com fato com um cão previamente selecionado?

– Depois desta certificação de uma hora teórica aos treinadores, estarão eles aptos para fazer treinos e modificação comportamental, assim como terapias comportamentais a cães que apresentem determinados comportamentos indesejáveis?

– Caso nem haja formação mas somente testes teóricos e práticos de um dia (o que realmente prevejo acontecer como forma de “acelerar” o processo), como se selecionarão os candidatos tendo em vista que a atividade profissional não é regulamentada no País?

– Como justificam proibir os candidatos de usarem determinados materiais se as entidades avaliadoras os utilizam diariamente na  rotina de treino? E quais os critérios científicos que os utilizam tendo como base os estudos mais recentes sobre as consequências a médio longo prazo desses materiais nos cães?

– Segundo a lei, um cão perigoso é todo o cão que já tenha mordido ou ferido alguém, ou atestado como perigoso pelo veterinário. Sendo assim, em apenas uma hora serão abordados tantos assuntos que permitem a habilitação de um treinador para tal?

– Os detentores vão ter uma formação de quatro horas, que critérios foram utilizados para que essa duração seja suficiente? Que prova teórica ou prática é feita?

– Os detentores terão uma abordagem à mordedura? Não deveria essa sensibilização ser efectuada e disponibilizada a nível nacional como prevenção em todas as raças?

– Porquê um treinador necessita de ter provas de figurância? Quais os critérios desta formação no âmbito civil?

– Seguindo a filosofia da questão acima, pode-se premeditar que a formação vai basear-se somente na apresentação de um cão próprio ou da própria entidade e com regras de modalidades desportivas? Onde isso se enquadra no real contexto social?

– Que critérios científicos fundamentam a teoria e prática destas formações? Quais as instituições procuradas e que pessoas delinearam as mesmas?

– Quais os critérios para que os limites de trela para as raças potencialmente perigosas estejam limitadas a um metro, e por sequência, qual a definição de um passeio tendo em conta as necessidades naturais da espécie e a promoção da socialização?

– Qual o critério cientifico para que o treino seja efetuado somente a partir dos 6 meses de idade, tendo em conta que o período de socialização é muito anterior a essa data?

– Qual o modelo e programação de treino que serão efetuados pelas escolas? Fica ao critério individual? Quais as bases para tal?

Estas perguntas são precisas e de resposta direta. Perguntas que muitos não fazem por medo de represálias. Pessoalmente não serei hipócrita em não concordar mas depois ir fazer essas certificações que estão contra o conhecimento da natureza da espécie, da actualidade científica e dos meus princípios. Não estaremos a ajudar na luta pela mudança a compactuar com esta situação , estamos antes a confirmar que o modelo antigo que tanto se critica está correto.

Esta lei é um “lavar de mãos” que, devido à urgência de se apresentar algum resultado, vai se basear nas próprias limitações nacionais em relação a este assunto. E olhando para um futuro não muito longínquo, a consequência de todas as exigências e limitações levará à própria extinção dessas raças no território nacional, certamente o objetivo final camuflado de forma sútil como este processo tem sido levado e calado por tantos “defensores”. Estes argumentos anteriores como base tantos condicionantes na interação dessas “raças” com a própria espécie e com o agravante da ignorância social ao verificar um cão de açaime e/ou com um laço amarelo na trela (aconselho pesquisa. Até lá, factores económicos estarão acima do “tal do bem-estar animal” e certamente muitos lobbies internos nos treinos dessas raças em escolas civis mesmo sem ordem superior irão acontecer. Basta uma simples pesquisa google e verão que muitos membros de forças policiais e militares já estão a fazer treinos civis sem autorização superior, muito menos regulamentada sob a cobertura de clubes desportivos ou “regimes de voluntariado” em escolas/empresas. E a grande maioria dá “formação de treinadores” baseadas pura e simplesmente em técnicas policiais/militares ou de competição.

É importante termos em atenção que a agressividade não é uma característica da raça mas sim um comportamento apresentado com uma função específica, numa situação específica. Importante também é ressaltar que a escolha destas raças são meramente sociais e não científicas, caso contrário, em todo o mundo as raças “potencialmente perigosas” seriam as mesmas e não divergiam de País para País conforme se constata numa rápida pesquisa na internet. Mais uma razão de que o problema está na educação e conscientização social.

A solução?
Recomendo uma revisão urgente desta legislação e implementar um curso nacional para todos os detentores de cães, independente da raça, com matérias adaptadas à realidade social e científica, com a formação profissional de treinadores em instituições científicas internacionais aliadas a escolas que sigam metodologias e conhecimentos atualizados com uma taxa reduzida e benefícios sociais para os detentores e os seus cães. A formação/reconhecimento profissional e legislação deve ser alargada a todas as áreas de serviços pet, inclusive pet-sitting, dog walking e todas as variantes.

As matérias teóricas não devem ser menos do que 8 horas de formação sobre legislação, comportamento e linguagem canina, conhecimentos básicos de primeiros-socorros e a interação com os cães. A componente prática não menos de 10 horas em vários ambientes interno/externo com metodologias atualizadas de ensino canino e adequar o programa à necessidade de cada cão, porque a experiência diz-me que não são técnicas padronizadas para todos os cães que vão prevenir problemas, e a ciência demonstra as consequências de várias metodologias generalizadas aplicadas no treino. Baseado nestes estudos, será necessária a própria proibição e criminalização do uso de determinados métodos e materiais de treino, conforme a nova lei de proteção animal em Madrid e as normas em alguns países europeus, dentre eles a Dinamarca. Algo contudo que já deveria acontecer segundo o Decreto de lei 13/93, Capítulo II, artigo 7.

É necessário também um curso personalizado para todos os detentores com cães a partir dos 2 meses (e não 6 meses), iniciativas sociais de informação e uma legislação que realmente funcione na prática, criando um excelente início na mudança da mentalidade social. Estereotipar determinadas raças é um crime à ciência e às sociedades que, mesmo com determinadas raças proclamadas (potencialmente) perigosas, seguem políticas de educação social nesse sentido. Socialização dos cães aos mais diferentes estímulos da sociedade logo a partir das 8, 9 semanas e a educação das famílias é a urgência.

Todas as formações que faço aos detentores de cães na Dinamarca e tenho total conhecimento noutros países da Escandinávia, têm uma eficácia elevada no âmbito de ensino social e sem a necessidade do uso de determinados materiais que causam dor e medo aos cães mesmo num contexto desportivo ou operacional. Aliás, a grande maioria desses materiais é PROIBIDA nesses países. Faço sempre questão de publicar fotos e vídeos a demonstrar. E sim, na Dinamarca e em vários países também há determinadas raças que são discriminadas. 

Transmitir o conhecimento real e adaptar as necessidades de treino ao indivíduo é a chave para a mudança e criar uma consciencialização social sem “achismos”. Não tenhamos medo de perguntar, caso contrário, sintam vergonha sempre que possam comentar estes assuntos publicamente.

Não cabe a mim dizer o que é certo ou errado, simplesmente as sociedades necessitam de fugir dos eufemismos e camuflagem da realidade e decidirem de forma clara e concisa o que realmente querem, longe dos espectáculos políticos. Andamos de momento a tentar agradar o mais possível e a pensar o menos necessário.

Não quero dizer com o texto acima que ao implementar-se o conjunto de soluções nunca mais haverão mordidas. Mordidas sempre haverão. Mas, ao pensarmos seriamente no assunto sem influência externa, chegamos à conclusão que estes assuntos somente são noticiados debatidos por alguns dias (antes de caírem novamente no esquecimento) quando são determinadas raças. E quando não há confusão entre raças, porque as próprias autoridades as confundem na rua, o que é vergonhoso.

O foco da prevenção e formação das pessoas deve ser incluída até em materiais escolares. 2 ou 3 folhas num livro escolar a ensinar às crianças como interagir com um animal doméstico não é um favor, é uma necessidade, conforme apontam as estatísticas no início deste artigo. De momento apenas se debate os “perigos” de 7 raças, quando o real perigo é o “desconhecimento social sobre os cães” misturado com a falta de civismo (desde o apanhar dejetos à delinquência de andar com cães soltos sem respeito pelos restantes) e de nada adiantam reportagens ou entrevistas se nada mudar. Que critérios e “especialistas” definiram estas raças como potencialmente perigosas? Certificações específicas para determinadas raças não resolverão o problema, pelo contrário, vão sim criar ainda mais um fosso de ignorância que em nada ajuda a nossa sociedade.

Dispenso e pessoalmente envergonho-me com esses protagonismos de ocasião.

Seria interessante também a própria comunicação social noticiar de acordo com o seu código deontológico, e utilizar o seu poder de influência social para consciencializar e denunciar estas situações em vez de utilizar o próprio mediatismo de ocasião. Será que a guerra pelas audiências estará acima da verdade que deveriam se reger?

Não é vergonha pedir ajuda. Os cães não querem, troféus ou filosofias extremistas que nós os humanos teimamos em continuar a ter para com eles, eles apenas desejam o nosso respeito e compreensão. É esse o nosso dever.

 

Referências e estudos

ABRANTES, R. (1997). The Evolution of Canine Social Behavior. Wakan Tanka Publishers.

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BARATA, R. (2016). A precisão dos sinais do treino animal. Etologia.pt

BARATA, R. (2016). Cães na Dinamarca.

Comparação das consequências no bem-estar dos cães com treinos de coleiras de choque vs treino baseado em reforço.

Comparação do stress e efeitos de aprendizagem com três tipos de metodologias de treino.

DEMELLO, M. (2012). Animals and Society: An introduction to human-animal studies. Columbia University Press.

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Uso de colares elétricos no treino de cães — Efeitos comportamentais a curto e longo prazo.

Estudo recente: Dog bite injuries to humans and the use ofbreed-specific legislation: a comparison ofbites from legislated and non-legislateddog breeds.

Treino científico ou moralista?

Estamos em constante mudança. A necessidade faz-nos adaptar às situações e somente os que se adaptam são os que continuam. É a essência da natureza.

Cada vez mais as sociedades adaptam-se às novas situações ou a própria espécie cria novas e complexas estratégias evolucionárias, através de grupos e/ou demonstrações de poder.

A minha formação em Human-Animal Studies expandiu o meu raciocínio crítico, obrigou-me a fazer mais perguntas do que pode ser certo x errado dentro das culturas, de como elas estão em constante mutação e de como criamos uma verdade absoluta de que nada é absoluto.

O pensamento lógico tem de ir além de livros ou autores, deve estar presente dentro de nós, fora de correntes moralísticas, argumentum ad verecundiam, ou falácias Ad hominen. Pior do que a ignorância, é deturpar o conhecimento obtido para opiniões pessoais.

Como o treino animal está incluído neste pensamento? Pela formação de grupos, pela colocação de etiquetas ao próprio trabalho ou ao trabalho dos outros, o uso de eufemismos para a justificação de determinados materiais, o uso de conceitos que em nada condizem com o significado dos mesmos e a total deturpação da ciência para as restantes situações.

O primeiro erro começa com o pensamento que a ciência é uma verdade absoluta. O processo científico em si não prova nada, a ciência pode na melhor das hipóteses “estar certa” sobre algo, podendo a todo o momento ser alterada consoante os resultados de novos estudos. Os estudos não provam, os estudos demonstram resultados estatísticos de determinada observação. O que hoje é A, amanhã pode ser B. O certo ou errado não existe nem pode existir na ciência. A ciência é o que é, baseada no estudo das evidências até agora apresentadas, não segue correntes, culturas ou opiniões pessoais.

O segundo erro segue na continuação do primeiro erro, o uso da ciência para dizer o que está certo ou errado. Em etologia falamos em custo x benefício. O condicionamento operante fala de reforço x inibidor. Um reforço é tudo o que aumenta a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. Um inibidor é tudo o que diminui a frequência, intensidade e/ou duração de um determinado comportamento quando apresentado (+) ou removido (-) em simultâneo ou imediatamente a seguir ao comportamento apresentado. O + não significa que é bom nem o – significa que é mau. Assim como um um reforço não significa ser bom ou mau, nem um inibidor significa ser mau ou bom. A incorrecta interpretação destes conceitos cria etiquetas sociais onde a maioria dos utilizadores desses conceitos os desconhecem por completo e os tornam como A => Certo e B => Errado.

O terceiro erro continua nesta sequência, a incorrecta interpretação de conceitos, desde comportamentos ao uso de outros conceitos/palavras que não condizem com a realidade, mas que são socialmente aceites. “Dominância” é uma das palavras proibidas ou banalizadas que mais discussão faz, simplesmente porque é interpretada incorrectamente e colocada em prática numa comunicação interespecífica através da nossa essência primitiva. Conceitos simples são deturpados, introduzidos no treino como desculpa para a limitação de conhecimento. O problema não são as palavras ou conceitos, mas a aplicabilidade individual que o humano lhes dá.

O quarto e último erro é o extremismo e fanatismo. Reparo que existem de momento dois mundos no treino animal, o positivo e o negativo. Quem possa questionar o positivo é negativo e quem possa questionar o negativo é positivo. Quem não utilize a devida frase de um autor ou a utilize em determinado contexto, é automaticamente etiquetado. Quem possa questionar o uso do clicker não é positivo, quem possa questionar o uso de coleiras de choque é a “pessoa que enche a barriga aos cães com comida”. Os fundamentalistas só prestam atenção às pessoas que pensam como eles, e vêem todos os outros como um inimigo. Entram-se em tantos conflitos ideológicos e egocêntricos que esquecemos que estamos a falar de outros seres vivos que necessitam de ser respeitados. Considero irónico no ponto de vista de que ambas as partes apregoam pela comunicação, assertividade, energia positiva e mente aberta.

Em que lado estou? Em nenhum. Cabe a cada um de nós decidir como pretende que seja a relação e comunicação com a outra espécie. Questione => Estude => Raciocine => Pratique => Questione. O que é certo para mim pode ser errado para si e vice-versa. Nada é absoluto, e se queremos estar atualizados, devemos estudar e questionar diariamente sem medo de assumir que estamos errados. Não camufle, generalize ou ignore conceitos, compreenda-os, explique-os corretamente, pratique e demonstre em vários indivíduos da espécie que treinar e não apenas em indivíduos previamente selecionados. Não se esqueçam que estamos em tempos de mudança, e a prática será o que vai derrubar os teóricos que copiam textos de outros teóricos e passam uma verdade absoluta como um dogma. O conhecimento é o novo modelo de mudança, e a tal mudança não pode estar condicionada a pensamentos A ou B, nunca se esqueça que tem um alfabeto para explorar. E se não se adaptar ao conhecimento, a seleção natural fará o seu papel. Carpe Diem! — “Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller.

Referências
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Abrantes, R. (2011). Abrantes or Dunbar—Who’s the Best?

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WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

Porquê treino animais?

É a pergunta que antes me faziam, mas que agora sou eu que a faço a mim mesmo. Qual seria a razão ou motivo para fazer o que faço diariamente?

Ser rico? Certamente o meu conceito de riqueza é diferente do seu, por isso não existe uma mensuração concreta sobre esse conceito. Para mim, ser rico é estarmos vivos, com saúde, com as nossas necessidades básicas suportadas e com memórias únicas que sempre suscitarão um sorriso de saudade momentânea.

Ser famoso? Quem quer treinar animais para ficar famoso pode desistir. O animal humano gosta, na sua essência, de demonstrações de poder, na sua maioria com a ostentação de símbolos ou troféus. O treino de animais vai além de truques, “obediência” ou demonstrações devidamente controladas e com cães bem selecionados. Treinar deve ser comunicação clara e uma perfeita compreensão da outra espécie sem a trazer para a nossa mentalidade social.

A união e discussão saudável dos treinadores como forma de todos evoluírmos? Ficaria sem dúvida impressionado com a resposta, uma ironia quando tanto se fala em compreensão, assertividade e entendimento, não é?

Ter tempo livre? Sem dúvida nenhuma que deste motivo pode desistir. Fazem muitos anos que não sei o que são férias, muitos meses sem saber o que é não pensar no trabalho e muitas semanas sem folgas. Quando não é trabalho, é estudo, pesquisa, projetos, e o restante tempo lembrar que também existimos.

O que então me faz treinar animais? Talvez a cumplicidade interespecífica que os momentos certos nos proporciona e que os saber aproveitar não existe explicação; O sorriso interior ao ver a felicidade das famílias junto dos seus cães a quererem aprender mais e mais; A procura diária de atualização profissional e ficar maravilhado com o que ainda temos de aprender; O passar o conhecimento obtido com um brilho nos olhos do assunto que estamos a falar, como se nós próprios estivéssemos maravilhados com o que ouvimos…

Resumindo: Não sei, mas adoro. E sabem que mais? Não são precisos motivos, basta nos sentirmos preenchidos com o que fazemos sem razão aparente. Façam o que vos preenche, e apenas sintam sem tentar responder. Siga a sua intuição e paixão. Carpe Diem.

Dominância — Uma visão científica

Eu escrevi um capítulo no meu livro “Uma nova visão sobre o treino animal” sobre o animal social humano, onde dentre outros assuntos, mencionei o facto de, ao sermos animais sociais, criarmos grupos (grupos de dentro e grupos de fora).

Actualmente, o ambiente virtual tem um mundo de conhecimento a explorar, mas como animais humanos que somos, por vezes preferimos nos juntar aos grupos de dentro sem consultar a realidade factual de alguns assuntos. Esse efeito bola de neve é perigoso e promove a ignorância, nada benévolo quando queremos mudar o mundo e mais perigoso ainda quando ensinamos pessoas que irão ensinar outras.

Querer fazer do comportamento animal uma “conclusão blindada” é um ato criminoso que o eleva a um campo dogmático, que tenho a certeza ser o oposto do objetivo desses grupos.

Pessoalmente, não sigo correntes ou textos moralmente aceites. Sigo a ciência e os seus factos que diariamente são colocados em dúvida e estudados. Defendo ainda que não é a camuflar ou ignorar conceitos que eles não serão seguidos, pelo contrário, geram mais confusão, fundamentalismos e incoerência.

Necessitamos de estudá-los e explicá-los na realidade com a mente aberta e separar esses conceitos das utilizações que os humanos fazem (mais precisamente no treino animal), porque são dois assuntos completamente distintos, espécies diferentes comunicam de forma diferente.

“Para mudar algo, construa um novo modelo que faça o existente obsoleto.” ― R. Buckminster Fuller. Essa mudança é a transmissão real do conhecimento sem moralismos, somente assim faremos a mudança.

Compilei um conjunto de matérias e pesquisas de cientistas do mundo animal. Este assunto já chegou ao ponto de misturas de comportamentos com estados de espírito, adulterações de autores e ao cúmulo do argumentum ad verecundiam.

Espero que estes tópicos factuais possam elevar o vosso raciocínio crítico e pensamento lógico sobre os assuntos, somente assim conseguimos fazer a mudança. Apesar de fazer por tópicos, este artigo será um pouco longo ao complementar com a leitura dos links fornecidos e das referências bibliográficas. Para o bem do seu conhecimento, perca um pouco de tempo a ler e poder ter um argumento bem fundamentado e devidamente comprovado quando falar de determinado assunto.

Clique nos tópicos para aceder aos assuntos.
Dominância, submissão, hierarquias, etogramas e todas as definições científicas sobre o assunto. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Dominância e agressividade— Raciocínio crítico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Artigo do Dr. Simon Gadbois sobre a dominância e a punição.

Etograma canino—Comportamento social e agonístico. Artigo do Dr. Roger Abrantes.

Artigo do Dr. Marc Bekoff com o depoimento do Dr. David Mech a afirmar que nunca rejeitou a noção de dominância.

Dominância e Pseudo-ciência. Artigo do Dr. Marc Bekoff.

Os cães demonstram dominância. Artigo do Dr. Marc Bekoff com vários estudos e outros artigos sobre o tema.

Estudo sobre a ontogenia do comportamento agonístico e interação social de espécies caninas selecionadas.

Estudo sobre relações de dominância em grupos de Canis lupus arctos.

Estudo com análise quantitativa da dominância nos cães domésticos.

Estudo sobre as hierarquias de dominância por idade e a tolerância social em grupos de cães em liberdade.

Outro estudo sobre a dominância em cães domésticos.

Vários artigos e estudos sobre hierarquias sociais.

Uso errôneo do tempo de geração do lobo em avaliações de evolução doméstica de cães e humanos.

Dr. Mech: Alpha Status, Dominance, and Division of Labor in Wolf Packs.

Dr. David Mech: Leadership in wolf, Canis lupus, Packs

Referências bibliográficas recomendadas.
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ABRANTES, R. (1997). Dog Language. Wakan Tanka Publishers.

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WATSON, J.C., Arp, Robert. (2015). Critical Thinking—an introduction to reasoning well. Bloomsbury Academic.

A precisão dos sinais do treino animal

Este artigo não está completo, o texto completo poderá ser encontrado no manual “Teach without Speech”. Lançamento em breve.

O treino animal deve ser uma comunicação clara e precisa entre espécies. É importante respeitar e entender as espécies que estamos a treinar.

Este pequeno artigo demonstra como os sinais simples e precisos são efetivos com calma e respeito com cães.

Em primeiro, algumas informações básicas.

Comunicação canina
– Os cães comunicam maioritariamente por sinais visuais.
– Demonstram uma mímica e linguagem corporal sofisticada.
– São excelentes observadores da nossa linguagem corporal.

Comportamento
– Resposta a um estímulo.
– Influenciado pelo ambiente.
– Varia consoante as consequências.

Aprendizagem
– Processo de modificar comportamentos.
– Aprendizagem não-associativa.
– Aprendizagem associativa (Condicionamento clássico e operante).

Definições
– Um sinal é tudo o que intencionalmente causa a alteração do comportamento do receptor.
– Um indício (Cue) é tudo o que de forma não-intencional causa a alteração do comportamento do receptor.
– Um comando é um sinal que causa a alteração do comportamento do receptor de uma forma especifica sem variação ou com uma variação extremamente mínima.

Sobre os sinais:
– Um sinal tem um significado e uma forma.
– Bons sinais são eficazes.
– Maus sinais são ineficazes.
– Os sinais visuais são melhores quando o cão está relativamente perto de nós, e sinais sonoros tendem a ser melhores quando o cão está longe.

Numa forma prática:
– SMAF – Acrónimo de Signal Meaning and Form (Sinal, Significado e Forma).
– SMAF é uma linguagem científica para treino preciso criada pelo Dr. Roger Abrantes.
– Para cada técnica treinada, além de outros tópicos, precisamos de um Plano de Ação (P.O.A) com a descrição precisa dos sinais.

Exemplos de técnicas padrão:
Para simplificar, vou escrever uma única linha com a Técnica a ensinar => O significado do sinal => A forma do sinal.

Nome(Técnica) => Olha para mim(Significado) => Nome,som(Forma)

Senta(Técnica) => Coloca o traseiro no chão
E mantêm-o lá até receberes
outro sinal(Significado) => Senta,som + Senta,mão(Forma)

Deita(Técnica) => Coloca a barriga no chão
E mantêm-a lá até receberes
outro sinal(Significado) => Deita,som + Deita,mão(Forma)

Sim(Técnica) => Continua(Significado) => Sim,som(Forma)

Não(Skill) => Pára(Significado) => Não,som(Forma)

Técnicas Senta e Deita por um jovem treinador. 

Técnica Sim—Não com um cachorro de dois meses e meio. 

A importância de ter uma linguagem clara e simples.

Exemplos de precisão nos sinais.

Pode aprender mais sobre este assunto através dos cursos e livros sobre o assunto no Ethology Institute Cambridge em língua portuguesa — Dr. Roger Abrantes:
Manual SMAF
Os 20 Princípios que todos os treinadores de animais devem conhecer
Treino animal — A minha maneira